Uncategorized

O storytelling constrói líderes e motiva a mudar

Nem mesmo a saga Star Wars é ficção; o cinema aborda questões reais das pessoas, e é o que as empresas precisam aprender a fazer
é um dos maiores especialistas em storytelling do mercado corporativo brasileiro. É fundador da The Plot Company, autor de Super-Histórias no Universo Corporativo e sócio e representante de Robert McKee no Brasil – McKee, autor de Story, ensinou a arte de escrever para mais de 60 roteiristas que ganharam o Oscar.

Compartilhar:

Dizem por aí que só somos felizes quando encontramos nossa vocação, como ocorreu na saga Star Wars com Luke Skywalker, um fazendeiro em um planeta deserto que, em certo momento, recebeu uma mensagem de um robô, foi chamado para ajudar a salvar a galáxia e se tornou um cavaleiro jedi. 

Luke tinha a “Força” dentro dele, mas sua trajetória foi repleta de altos e baixos, combates, crises, dilemas, forças contrárias, Darth Vader e Yoda, e ele precisou superar tudo para realizar sua missão. 

Um dos maiores fenômenos do cinema de todos os tempos, Star Wars não é um sucesso por conta de seus monstros, efeitos especiais, espaçonaves em combate, planetas sombrios e sabres de luz. O que faz Star Wars brilhar é sua capacidade de transmitir valores universais em uma história com verdades que nos tocam, como a de que só somos felizes quando achamos nossa vocação. 

O filme apresenta lições em metáforas que nos possibilitam entender a complexidade de nossos sentimentos para lidarmos melhor com eles. É como quando Darth Vader se divide entre a devoção a seu mestre e o amor a seu filho e escolhe o segundo. Não importa que seja ficção; o aprendizado é: sempre podemos nos redimir e corrigir erros do passado, quando reconhecemos nosso lado negro e o dominamos. 

Star Wars é o paradigma de boa história: inclui uma transformação verdadeira, passa conhecimento, tem significado para a audiência. Basicamente, constitui uma ferramenta que equipa as pessoas para que possam viver melhor sua vida e seus relacionamentos e construir seu futuro – como toda boa história deve ser. 

Uma boa história pode ser útil ao mundo corporativo? Sem dúvida, não é gratuita a repercussão da ferramenta storytelling entre os executivos. Se você, como líder, quiser criar significado para seu pessoal, precisa do story. No entanto, para facilitar a interpretação do que a história quer transmitir, tem de dominar o telling também. Para desenvolver Embora seja uma capacidade natural do ser humano, o storytelling tem competências que devem ser despertadas e desenvolvidas, tanto as da criação (ideia e roteiro) como as da “contação”. 

Porém, de modo geral, o storytelling requer três princípios básicos. O primeiro é entender que ele tem a ver com comportamento humano, emoções e identificação. Quanto mais você sabe o que mobiliza as pessoas, seus desejos, medos e angústias, maior será sua capacidade de criar uma história de alto impacto. 

O segundo princípio é a verdade. Uma propaganda de 30 segundos que mostra uma família feliz na praia com ursinhos dançantes e conclui que a felicidade foi causada por uma revisão programada na concessionária está longe de ser verdade. Aliás, tende a ser uma grande mentira, por conta dos problemas que uma oficina autorizada costuma gerar. 

O fato é que, sem uma história verdadeira, nós não nos conectamos com uma empresa. Ou você se conectaria com minha The Plot Company se eu dissesse que foi criada por Walt Disney e que só agora o projeto foi colocado em prática? O maior obstáculo para as empresas seguirem esses dois primeiros princípios é uma “doença” que Robert McKee, principal “guru” de storytelling do mundo, chama de “negafobia”, o medo de tudo o que é negativo. 

No mundo corporativo, tudo deve ser positivo: os cases são de sucesso, os diferenciais são os melhores possíveis, os valores são excelentes. O lado sombrio fica de fora. O problema é que, quando isso acontece, a história não reflete o comportamento humano nem é percebida como verdadeira, além de ficar chata.

Você já assistiu a algum filme em que no começo está tu do bem, no meio também e o final é feliz? Não, até o mais ingênuo dos filmes infantis tem conflito. Se decidir abraçar o storytelling, pare de mostrar cases de sucesso em suas apresentações. 

Em vez disso, conte como fez para lidar com problemas inesperados. É em seu momento mais difícil que conhecemos um personagem e nos identificamos com ele. Assim, descrevo o terceiro princípio de uma boa história: o do protagonismo e antagonismo. Um protagonista deve desejar algo e enfrentar dificuldades no meio do caminho para alcançá-lo. 

O lado negativo da vida é a alma de uma boa história. Reconhecer que uma concessionária tem problemas de prazo de entrega, preço e atendimento é essencial para que você crie uma campanha engajadora, mostrando que seu protagonista pode ser mais forte que tudo isso. A rede de fast-food Spoleto fez isso quando o coletivo Porta dos Fundos ironizou, em um quadro de humor, o atendimento em um de seus restaurantes. 

Em vez de se defender, a empresa usou o lado negativo a seu favor. Patrocinou o vídeo com a seguinte mensagem: “Isso jamais pode acontecer, mas às vezes foge ao nosso controle. Se foi mal atendido no Spoleto, conte pra gente e nos ajude a melhorar”. Seja ela qual for, quando a verdade é revelada, a audiência sente a confiança de que precisa para se conectar com a mensagem. Isso gera empatia e simpatia. Se quiserem realmente usar o poder do storytelling, portanto, os gestores têm de curar sua negafobia. 

A cura requer consciência. Recordo-me de uma empresa que queria fazer um vídeo institucional e nos passou um briefing cor-de-rosa, cheio de virtudes e adjetivos bons. Quando perguntei: “E os problemas?”, fez-se silêncio mortal na sala e a diretora soltou: “Que problemas?”. Para curar-se, essa executiva devia ter lembrado que todos temos duas certezas na vida: que morreremos e que o mundo não reagirá como queremos. Vale para pessoas, vale para empresas. 

**DIVERSOS USOS**

Histórias servem para construção de liderança – grandes líderes são grandes criadores e contadores de histórias –, negociações, gestão de mudanças, branding, marketing, endomarketing, publicidade, vendas (B2B ou B2C) e até mesmo planejamento estratégico. O storytelling será utilizado com êxito sempre que for necessário: 

•  Entender aonde se quer chegar (o clímax, na história). 

•  Definir o problema a ser resolvido (incidente incitante). 

•  Desenhar os altos e baixos que provavelmente acontecerão no meio do caminho (trama com complicações progressivas). 

•  Mostrar a mudança desejada (arco da história, comparando como o protagonista estava no começo da história e como ficou no final). 

•  Conhecer os verdadeiros “inimigos” que podem impedir uma pessoa de chegar aonde quer (forças antagônicas). 

•  Entender como se desenham as mudanças de algo negativo para positivo e também vice-versa (pontos de virada).

Pensou em uma situação em que sua empresa precise de história? Aposto que em muitas. 

> **Empresas que usam o storytelling**
>
> A comunicação tradicional não “pega” mais, por conta de uma mudança de atitude profissional que está acontecendo no mundo, vista no fenômeno dos TED Talks, nas grandes histórias do presidente dos EUA, Barack Obama. As empresas também estão aderindo ao storytelling, porque o consumidor não aceita mais mentiras, as novas gerações querem mensagens que mudem sua vida e a velha economia ficou… velha: 
>
> • A Red Bull não vende latinhas; gera experiências associadas a aventura e adrenalina, que viram histórias. 
>
> • O HSBC não fala mais sobre o banco em sua campanha nos aeroportos; conta histórias assustadoras sobre um possível futuro e questiona se você está preparado para elas. O banco está no subtexto – mais poderoso do que autoelogio. 
>
> • A Coca-Cola não tenta vender refrigerante; para trazer felicidade, ela cria um universo de histórias com o qual as pessoas se identificam. 
>
> • A Marvel não faz filmes ou HQs isolados; constrói pontes entre seus universos de história. Em uma passagem do filme do Capitão América, aparece um cenário destruído no filme do Thor. 
>
> • Como não vende softwares, e sim resolve problemas de marketing e vendas para as empresas, a Adobe conta histórias que criam conflitos para os clientes: “Você sabe o que seu marketing está fazendo? Nós podemos ajudá-lo”.

**COMO FUNCIONA**

Imagine que um canal de TV por assinatura queira melhorar seu evento anual de três dias com anunciantes e agências de publicidade por meio de storytelling. Como isso aconteceria? A The Plot fez esse trabalho, que ao todo levou dois anos, pois teve duas frentes: criamos as histórias e treinamos a equipe para que as contassem com autenticidade e domínio da técnica. 

Os três dias do evento foram permeados por uma trama repleta de conflitos reais e personagens enfrentando problemas reais, e o conhecimento desejado foi transmitido. O próprio cliente se transformou em função disso. 

**FINAL FELIZ?**

O futuro do storytelling se confunde com o futuro das marcas: toda marca vai virar publisher em sua área. 

Deixará de vender um produto ou serviço para gerar conteúdo relevante em forma de história com o qual o consumidor se envolva e se transforme. Os gestores serão “Georges Lucas de negócios”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Paralisia executiva: O paradoxo da escolha na era da IA ilimitada

Em vez de acelerar a inovação, o excesso de opções em inteligência artificial está paralisando líderes. Este artigo mostra por que a indecisão virou risco estratégico – e apresenta um caminho prático para escolher, implementar e capturar valor antes que seja tarde.

Quando a liderança encontra a vida real

Este artigo mostra que quando cinco gerações convivem nas empresas e nas famílias, a liderança deixa de ser apenas um papel corporativo e passa a exigir coerência, empatia e presença em todos os espaços da vida.

Diversidade não gera performance. O que gera é a forma como ela é operada

Diversidade amplia repertório, mas também multiplica complexidade. Este artigo mostra por que equipes diversas só performam quando há uma arquitetura clara de decisão, comunicação e gestão de conflitos – e como a falta desse sistema transforma inclusão em ruído operacional e perda de velocidade competitiva.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
2 de maio de 2026 13H00
Relações de poder, saúde relacional e o design das conversas que as organizações precisam ter. Este artigo parte de uma provocação simples: e se o problema não estiver em quem fala, mas em quem detém o poder de ouvir?

Daniela Cais - TEDx Speake e Designer de Relações Profissionais

8 minutos min de leitura
Liderança
2 de maio de 2026 07H00
Neste artigo, a figura do Justiceiro, anti-herói da Marvel Comics, serve como metáfora para discutir o que realmente define o legado de um líder: a capacidade de sustentar princípios quando resultados pressionam, escolhas difíceis se impõem e o custo de fazer o certo se torna inevitável.

Cristiano Zanetta - Empresário, escritor e palestrante TED

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
1º de maio de 2026 14H00
Se o trabalho mudou, o espaço precisa mudar também. Este artigo revela por que exigir presença física sem intencionalidade cultural e cognitiva compromete saúde mental e produtividade.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

16 minutos min de leitura
Liderança, Marketing & growth
1º de maio de 2026 07H00
Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Bem-estar & saúde
30 de abril de 2026 18H00
A nova norma exige gestão contínua de risco, mas só a inteligência artificial permite sair da fotografia pontual e avançar para um modelo preditivo de saúde mental nas organizações. Esse artigo demonstra por que a gestão de riscos psicossociais exige uma operação contínua, preditiva e orientada por dados.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
30 de abril de 2026 15H00
Este artigo desmonta o mito de que “todo mundo já chegou” na inteligência artificial - os dados mostram que não é verdade. E é exatamente aí que mora a maior oportunidade desta década (para quem tiver coragem de começar).

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de abril de 2026 11H00
O futuro não é humano nem artificial: é combinado. O diferencial está em quem sabe conduzir essa inteligência. Este artigo propõe uma mudança radical de mentalidade: na era em que a inteligência deixou de ser exclusiva do humano, o diferencial competitivo não está mais em saber respostas - mas em fazer as perguntas certas, reduzir a fricção cognitiva e liderar a combinação entre mente humana e IA.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
30 de abril de 2026 08H00
Quem nunca falou e sentiu que o outro “desligou”? Este artigo recorre à neurociência para explicar por que isso acontece - e sugere o que fazer para trazer a atenção de volta.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 18H00
Este é o primeiro artigo de uma série de cinco que investiga o setor farmacêutico brasileiro a partir de dados, conversas com líderes e comparações internacionais, para entender onde estamos, como o capital vem sendo alocado e até que ponto a indústria nacional consegue, de fato, gerar inovação e deslocamento tecnológico.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

17 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 13H00
Sua empresa tem um lab de inovação, patrocina hackathon e todo mundo fala em "mindset de crescimento". Mas o que, concretamente, mudou no seu modelo de negócio nos últimos dois anos?

Atila Persici Filho - CINO da Bolder e Professor FIAP

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão