Artigo
Oferecido por:

OKRs: o caminho das pedras para salvar o mundo

Em novo livro, o investidor de risco John Doerr apresenta um plano detalhado para o planeta cumprir os desafios do Acordo de Paris e resolver a crise climática
Leandro Franz é sócio e consultor da People+Strategy. Mestre em Economia com especialização em Teoria dos Jogos pelo Insper e economista pela UFSC.

Compartilhar:

É consenso que temos um desafio socioambiental gigantesco pela frente. As conclusões da última conferência climática da ONU, a COP26, realizada em 2021, estão alinhadas com a insistência de investidores e líderes no tema ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). A era do lucro a qualquer custo terminou, os ganhos agora precisam ser buscados sem destruir o planeta, os negócios devem neutralizar e prestar contas sobre as externalidades negativas que geram. Para Larry Fink, CEO da BlackRock, maior fundo de investimentos do mundo, optar por empresas que foquem o tema “não é mais uma escolha, é um imperativo”.

Mas temos um plano? Temos um mapa estratégico, algo para comunicar e alinhar esforços, defendido por Robert Kaplan e David Norton, grandes nomes da gestão de projetos? Na rotina corporativa, trabalhamos com metas e indicadores cada vez mais numerosos e complexos para garantir esse alinhamento. Mas, então, como criar um plano com metas simples e claras para neutralizarmos nossa emissão de carbono?
É aí que entram os “objectives and key results” (OKRs). Sua criação é atribuída a Andrew Grove, húngaro que fugiu do regime socialista em seu país e se tornou o terceiro funcionário de uma então pequena firma chamada Intel. Anos mais tarde, acabou promovido a CEO e, sob seu comando, ela se tornou a maior empresa de semicondutores do mundo.

John Doerr trabalhou com Grove nos anos 1970 e depois se tornou um lendário investidor. Em 1999, ele apresentou a metodologia aos jovens Larry Page e Sergey Brin para facilitar o cascateamento de objetivos e resultados-chave por toda organização. A empresa deles, o Google, se tornou uma das mais valiosas do mundo na década seguinte (Doerr também foi um dos primeiros a investir na Amazon). Em 2013, um treinamento interno vazou na internet e popularizou os OKRs. O tema ficou tão quente que, em 2017, Doerr publicou um livro a respeito, o best-seller *[Avalie o que Importa](https://www.amazon.com.br/Avalie-que-Importa-Funda%C3%A7%C3%A3o-Sacudiram/dp/855080455X)*.

Hoje, assim como Bill Gates e outros pensadores do Vale do Silício, Doerr tem voltado suas pesquisas para a questão das mudanças climáticas. O resultado está em um novo livro, *[Speed & Scale: An action plan for solving our climate crisis now](https://www.amazon.com.br/Speed-Scale-Action-Solving-Climate/dp/0593420470)*. Lançado no fim de 2021 e ainda sem tradução para o português, o título traz histórias de gente de peso, como Jeff Bezos e Al Gore.

Atualmente, o mundo emite 59 gigatoneladas (ou 59 milhões de toneladas) de gases de efeito estufa por ano. Para combatê-las, Doerr sugere um plano que elenca dez objetivos e 55 resultados-chave que, se alcançados, garantem que a temperatura global não suba mais de 1,5 grau.

Os seis primeiros objetivos são eletrificar o transporte, descarbonizar o sistema energético, consertar a nossa alimentação , proteger a natureza, limpar a indústria e remover o carbono. Objetivos claros, mas nada simples. Complementando o mapa de OKRs, o autor lista quatro objetivos que chama também de “alavancas”, essenciais para acelerar a conclusão dos 55 resultados-chave: vencer a política com planejamento, transformar movimentos em ação, inovar e investir.

Com cada um dos objetivos, Doerr visa eliminar uma certa quantidade de emissões. O setor de transporte, por exemplo, é responsável hoje por 8 gigatoneladas de gases por ano. Até 2050, esse número precisa cair para 2 gigatoneladas anuais. A indústria alimentícia, com o metano gerado na pecuária, é uma fonte poluidora ainda maior, com 9 gigatoneladas. Mas o setor mais crítico é a matriz energética, responsável por quase 50% das emissões.

## Plano de ação
Como cada objetivo é associado a resultados-chave (KRs) bastante específicos, o plano fica mais claro para nos guiarmos. Para eletrificar o transporte, por exemplo, os veículos elétricos precisam alcançar preços iguais aos do motor a combustão até 2024 nos EUA (US$ 35 mil) e até 2030 na China (US$ 11 mil).
A lista de resultados-chave também busca apoio dos consumidores. O KR 1.2, por exemplo, diz que os veículos elétricos devem responder por metade das vendas do mercado até 2030. Já o KR 1.3 propõe que todos os novos ônibus vendidos sejam elétricos até 2025.

A letra do ESG que você não vê
Junto com as demais iniciais, É preciso incluir o “r” de regeneração

Uma das grandes novidades do plano de John Doerr é endereçar o impacto de nossa alimentação nas mudanças climáticas. A letra R, de regeneração, é talvez um dos maiores insights de sua mensagem. Buscar sustentabilidade ambiental não é mais suficiente; a urgência climática demanda regeneração ambiental, o que depende diretamente de uma mudança em nossa alimentação.

Segundo um estudo de Oxford publicado na revista Science, seguir uma dieta à base de plantas pode reduzir em mais de 70% a emissão de carbono de nossa alimentação. É algo que podemos fazer já. Além disso, a migração para uma dieta baseada em vegetais consegue manter a mesma quantidade de alimentos produzida e “liberar espaço” para reflorestar até 76% das atuais terras agricultáveis.

A mudança na alimentação é necessária para que o planeta consiga sustentar 8 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, com o crescimento populacional de mais 2 bilhões até 2050, a demanda por comida aumentará em 50% e a por proteína animal, em 70%. Não há terras agricultáveis suficientes para esse aumento sem destruir mais florestas ou colonizar outros planetas.

O modelo atual tem causado desmatamentos e perda de biodiversidade. A alimentação do futuro, focada em plantas e não na pecuária, gera um ciclo virtuoso de proteção da natureza. A própria COP 26, realizada no final de 2021, se preocupou em criar um cardápio sustentável e, principalmente, com opções locais. Existe um amplo espaço nas corporações para repensar o ESG no dia a dia, incluindo até o que é servido em seus refeitórios, workshops e o que é reembolsado nos almoços executivos.

Um passo inicial é incluir a regeneração na pauta principal. Regenerar a rotina das corporações e começar a conectá-las ao mapa de OKRs de John Doerr pode ser tão simples quanto trocar o pão de queijo do escritório por uma receita com queijo feito de plantas.

Para concluir, indico dois livros recentes sobre o tema. O primeiro é Regeneration: Ending the climate crisis in one generation, de Paul Hawken, um dos principais pensadores do tema regeneração. Ele aborda todas as possíveis ações, individuais e corporativas, para combater a crise climática em tempo hábil. O outro é Homo Integralis – Uma nova história possível para a humanidade, de Fe Cortez. Idealizadora do projeto Menos 1 Lixo, que transformou uma pequena ação em um impacto gigantesco no descarte de plásticos no Brasil, a autora traz uma visão possível para o futuro da humanidade, em que a palavra-chave também é regeneração (tanto do ambiente quanto das relações econômicas e sociais).

Com foco na matriz energética, o objetivo 2 aborda as já bastante conhecidas soluções eólicas e solares. Sigamos para o terceiro: consertar nossa cadeia alimentícia. O KR 3.5 aponta a necessidade de reduzir o desperdício de comida (hoje em 33%) para 10%, e o KR 3.3 demanda que a humanidade reduza em 50% a ingestão de leite e proteína animal até 2050, devendo focar proteínas alternativas menos poluentes.

O objetivo 4, de proteger a natureza, está muito ligado à alimentação. O KR 4.2, por exemplo, sugere proibir grandes redes de pesca, pois elas varrem os mares e destroem a biodiversidade.

Já o objetivo 5, de limpar a indústria, foca principalmente os setores de cimento e aço, os mais poluentes, que precisam se adaptar e inovar em processos. Hoje, para cada quilo de cimento produzido, a mesma quantidade de carbono é liberada na atmosfera. A soma dessas duas indústrias chega a quase 10% do desafio de neutralização de emissões.

O objetivo 6 é bastante direto: recapturar até 10 gigatoneladas de carbono da atmosfera, seja mecanicamente (por inovações) ou naturalmente (por reflorestamento). Não é nada fácil. Jeff Bezos, que lidera uma iniciativa que propõe antecipar em dez anos as metas do Acordo de Paris, chegou a dizer que o cenário é “assustador e muito difícil”.

A tendência é o cenário se complicar ainda mais. Primeiro, a população global tem cada vez mais acesso a produtos e serviços. Isso significa que o consumo de energia, alimentos e transporte aumentará para atender a mais 2 bilhões de pessoas nos próximos 30 anos.

Em segundo lugar, tanto as soluções para a mudança climática quanto os contratempos que podemos enfrentar, se não agirmos com rapidez suficiente, criarão novos desafios ao longo do caminho. Em 2050, os carros elétricos precisarão de 50 mil terawatt/hora por ano. A capacidade de produção atual está na metade disso.

É por isso que o autor coloca até pontos de exclamação nos dois últimos objetivos: “Inovar!” e “Investir!”. Somente com capital e pesquisa será possível chegar perto de todos os alvos necessários. Os KRs do objetivo “Inovar!” buscam reduzir o custo das tecnologias limpas e até da engenharia de retirar carbono da atmosfera.

Por último, o objetivo “Transformar o movimento em ação” possui KRs para governos, eleitores, economistas, educadores e empresas. Isso conecta ainda mais a necessidade de as corporações tomarem o mapa como um grande guia para suas iniciativas de ESG. Não é preciso reinventar a roda, todos os resultados quantitativos necessários estão lá. O que as organizações precisam agora é cascatear internamente esses desafios, apoiando e liderando o caminho nos OKRs em que seu negócio possa contribuir.

Dependendo do setor em que a empresa atua, ela consegue apoiar em grande parte os 55 KRs listados, desde ações menores, internas, até renegociação com fornecedores e comunicação com clientes.

Se é possível organizar com tanta clareza os OKRs necessários para frear a crise climática, desdobrá-los como pano de fundo no planejamento corporativo e nas ações de ESG não tem como ser complexo.

BARACK OBAMA DISSE QUE “SOMOS A PRIMEIRA GERAÇÃO a sentir os efeitos da mudança climática e a última que pode fazer algo a respeito”. Já passou da hora de agir, mas agora temos um plano.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A longevidade está criando o próximo grande mercado

O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Compliance virou estratégia no agronegócio

A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

O que muda na cadeia do cobre com o fim da Substituição Tributária

Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

A nova morada dos softwares são as interfaces de IA

Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

O que observei quando parei de apenas assistir ao Mind Summit 2026

Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de setembro de 2026 13H00
O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Felipe Calbucci - CEO LATAM da TotalPass

Oferecido por: TotalPass
2 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
23 de setembro de 2026 08H00
A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

Antonio Sousa - Gerente corporativo de HSE da Bravo Serviços Logísticos

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

Oferecido por:
8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução