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Os 3 segredos improváveis das melhores equipes

Thomas Malone, líder do centro do MIT que estuda a inteligência coletiva, explica os três principais fatores para o sucesso de um grupo, destacando a importância das mulheres para o melhor desempenho
A entrevista é de Art Kleiner, colaborador da strategy+business.

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É claro que pessoas mais inteligentes tendem a formar um grupo mais inteligente; a soma das inteligências individuais costuma influir na inteligência coletiva resultante. Mas “a reunião de pessoas inteligentes não necessariamente forma uma equipe inteligente”. Esse aparte foi feito pelo pesquisador da MIT Sloan Thomas Malone, com base em pesquisas, que registra, em sua experiência, equipes medíocres formadas por pessoas individualmente inteligentes. 

Então, o que torna uma equipe inteligente? Para responder a essa pergunta, Malone, como líder do centro do MIT que estuda a inteligência coletiva, conduziu um experimento com 700 pessoas, organizadas em grupos de três a cinco integrantes, e fez uma série de descobertas. Por exemplo, fatores que eram considerados indicadores decisivos de inteligência coletiva mostraram-se pouco relevantes, como a segurança psicológica e a consciência coletiva. 

Três aspectos emergiram como bastante associados à inteligência coletiva: a percepção social média dos participantes, a igualdade de contribuição e a proporção entre homens e mulheres (quanto mais mulheres, maior a inteligência coletiva). Discorrendo sobre eles, Malone explica nesta entrevista que a inteligência coletiva foi identificada há tempos, em exércitos, empresas e países, mas vem sendo valorizada recentemente nos estudos acadêmicos devido à internet, que a potencializa. 

Um dos precursores desse tipo de estudo foi o psicólogo norte-americano Will Schutz, que realizou, na época da Guerra da Coreia, nos anos 1950, um levantamento para o exército sobre o que faz um time ser imbatível. O primeiro fator, segundo ele, seria a abertura ao relacionamento, que imprime mais confiança no ambiente. O objetivo de pesquisadores como os do MIT é entender a inteligência coletiva em um nível mais profundo, para antecipar o que vai acontecer e aproveitar as possibilidades que oferece –o que tende a ser especialmente útil ao mundo da gestão organizacional. “O tamanho ideal [de uma equipe inteligente] oscila entre cinco e dez pessoas, mas, com as ferramentas de colaboração certas, é possível que um grupo fique cada vez mais inteligente com 50, 100, 500 ou 5 mil integrantes”, afirma Malone. 

**Como começou o trabalho de avaliação da inteligência coletiva?** 

Quando eu era vice-diretor do projeto “Inventing the Organizations of the 21st Century”, do MIT, estudei as formas como as novas tecnologias modificariam a organização do trabalho. No livro O Futuro dos Empregos, adiantei que as formas mais baratas de comunicação gerariam mais liberdade e descentralizariam a tomada de decisões. Depois me dediquei a outro livro, sobre como implementar essas ideias –mas, quanto mais eu pensava, mais me convencia de que deveria olhar para o que estava no horizonte: a evolução da gestão para além da descentralização. Comecei a imaginar como seria se existissem organizações de fato inteligentes e surgiu a pergunta que se tornou a questão central da pesquisa do Center for Collective Intelligence: como as pessoas e os computadores podem se conectar de modo a agir com mais inteligência? 

> **Saiba mais sobre Thomas Malone**
>
> **Quem é:** professor da MIT Sloan School of Management; fundou e dirige dois importantes centros do MIT: o Center for Collective Intelligence e o Center for Coordination Science. 
>
> **O que estuda:** as maneiras de o design organizacional e o de sistemas de informação se complementarem. 
>
> **Escreveu:** O Futuro dos Empregos (ed. M.Books), no qual defende que o aumento da conectividade conduz ao fim das hierarquias.

> **O tamanho ideal de uma equipe inteligente**
>
> * 5 a 10 pessoas
>
> **Os 4 fatores da inteligência coletiva**
>
> * Mais pessoas inteligentes 
> * Mais pessoas com percepção social 
> * Menos pessoas que dominem as conversas
> * Mais mulheres
>
> **Medidas para aumentar a inteligência da equipe**
>
> * Estimular a inteligência social na equipe atual (ou incluir nela pessoas com esse perfil). 
> * Escolher a maneira certa de organizar as pessoas em torno de tarefas e usar as técnicas de motivação certas. 
> * Priorizar formatos não hierárquicos de trabalho e ferramentas que estimulem a colaboração
>
> _Obs.: Thomas Malone enfatiza que os quatro fatores acima não são os únicos que afetam a inteligência coletiva, apenas os mais importantes identificados no estudo._

**Por que os computadores fazem parte da definição de inteligência coletiva?** 

Na verdade, não fazem. Chamo de “inteligência coletiva” os grupos de pessoas que atuam em conjunto de maneiras que parecem inteligentes. A inteligência não é algo que acontece dentro dos cérebros individuais, mas em grupos, que não dependem de computadores. Segundo essa definição, a inteligência coletiva existe há tempos, e exércitos, empresas e países são alguns exemplos.

Hoje, porém, os tipos de inteligência coletiva que evoluem com mais rapidez são os propiciados pela internet. Vejamos o Google: milhões de pessoas criam páginas, umas ligadas às outras. Todos esses dados são analisados por algoritmos, que oferecem respostas inteligentes a uma busca. Para que possamos antecipar o que vai acontecer e aproveitar as possibilidades, precisamos entender a inteligência coletiva em um nível muito mais profundo do que fizemos até agora. 

**O sr. define a inteligência coletiva como grupos “aparentemente inteligentes”. Como identificar a inteligência?**

É difícil definir a inteligência de maneira objetiva, pois a subjetividade é inevitável, em parte porque a inteligência está associada aos objetivos dos indivíduos ou grupos. Por exemplo, se eu apresentar um teste de QI na forma de múltipla escolha e você colorir os pontos de modo a gerar um resultado artístico bonito, é provável que obtenha uma pontuação baixa, mas isso porque você não estava tentando atingir o objetivo que achei que estivesse. Para avaliar a inteligência, eu preciso inferir quais são os objetivos, e isso envolve subjetividade. 

**Então minha percepção da inteligência de uma pessoa depende de como identifico os objetivos que ela tenta atingir?** 

Sim. Claro que existem outras formas, como a definição psicométrica, usada pelos psicólogos. Segundo essa linha, ser inteligente em um nível individual envolve a capacidade de fazer bem várias coisas. Muitos acreditam, por exemplo, que as habilidades em matemática e fluência verbal são excludentes, mas, quando testamos pessoas e aplicamos uma técnica estatística chamada “análise de fator”, descobrimos que alguém bom em uma tarefa mental também se sai bem em outras. 

**Trata-se da versatilidade do pensamento, certo?**

Sim. Pessoas que se revelam as mais inteligentes de acordo com os testes nem sempre são as que se saem melhor em uma tarefa mental simples, mas são hábeis para aprender coisas novas e se adaptar. Essa habilidade geral é chamada de “fator G” e dá uma medida da habilidade cognitiva associada a fatores como raciocínio lógico, habilidades verbais e aprendizado. Foi idealizada por um estudioso inglês do século 20, Charles Spearman, que criou uma análise estatística para essa pesquisa. Mas o fator G tem sido considerado incompleto e o especialista de Harvard Howard Gardner lembrou que outras habilidades não são aferidas nos testes de QI. 

**Em sua pesquisa, como o sr. promoveu o salto da inteligência individual para a coletiva?**

Partimos de uma definição básica: um grupo de pessoas inteligente é o que atua em conjunto de maneira que parece inteligente para um observador. Como no caso individual, o observador precisa capturar os conjuntos de objetivos para usar como referência. Porém, nesse caso, os objetivos podem não ser os mesmos de alguns componentes do grupo. Por exemplo, é possível availiar a “inteligência” de um grupo de pedestres pela regularidade da distância que mantêm entre si na calçada –ainda que cada um queira apenas se deslocar sem esbarrar em ninguém. O observador também precisa selecionar o grupo de indivíduos que deseja analisar –se vai se deter em uma pequena equipe de trabalho, nos funcionários de um setor ou de uma empresa inteira ou na população de um país. 

**Como aferir e comparar a inteligência de grupos diversos?** 

Começamos com a definição da versatilidade do pensamento [o fator G]. Em seguida, aplicamos as mesmas técnicas estatísticas usadas para medir a inteligência individual. O que realmente queríamos descobrir era se existe um equivalente do fator G para grupos –algo que, pelo que sabíamos, ninguém havia respondido ainda. Para achar uma resposta, reunimos 700 pessoas, em grupos de dois a cinco integrantes, e lhes atribuímos algumas tarefas, como fazer brainstorming para definir as utilidades de um tijolo ou planejar um roteiro de compras com base em especificações definidas (cada grupo levou cerca de três horas na solução das tarefas). Ao analisarmos os resultados, descobrimos que a resposta para a pergunta original era “sim”. Há um fator estatístico único para qualquer grupo (como acontece com as pessoas) que prevê o desempenho em diversas incumbências diferentes. Esse fator representa de 30% a 50% da variação da performance coletiva em tarefas diferentes, como ocorre com o fator G na avaliação individual, que às vezes chamamos de “fator C”. 

**Por favor, explique o fator C.**

Trata-se de um indicador estatístico similar ao sistema de avaliação do QI e, da mesma forma, pode dar pistas da performance de um grupo em várias tarefas não incluídas no teste. Com uma medida de inteligência coletiva em mãos, decidimos descobrir quais outros fatores poderiam apontar essa característica coletiva e encontramos quatro fatores relacionados. O primeiro é o mais óbvio: a inteligência individual dos integrantes. Só que esperávamos que a inteligência coletiva coincidisse com a inteligência média ou máxima dos membros, mas ficou claro que a reunião de pessoas inteligentes não necessariamente forma uma equipe inteligente. 

**É mais provável que pessoas medíocres formem um grupo inteligente ou que integrantes inteligentes resultem em um grupo medíocre?** 

Em termos estatísticos, as duas possibilidades existem igualmente. Por experiência, sabemos que podem surgir grupos ineficientes formados por pessoas inteligentes. Alguns fatores que considerávamos indicadores decisivos de inteligência coletiva, como segurança psicológica e consciência coletiva, não se revelaram cruciais, mas localizamos três aspectos adicionais muito associados à inteligência coletiva. O primeiro era a percepção social média dos participantes, o segundo estava relacionado com a igualdade de contribuição e o terceiro era a proporção entre homens e mulheres. 

**O que significa percepção social?**

É a capacidade de identificar as emoções das outras pessoas de maneira correta. Usamos um teste criado pelo pesquisador inglês Simon Baron-Cohen, que se dedica a estudar o autismo. A avaliação é chamada “Lendo a Mente nos Olhos” e consiste em mostrar imagens dos olhos de outras pessoas para identificar a emoção expressa em cada olhar. Existe uma resposta correta e o teste distingue com bastante êxito um autista de um não autista, além de fazer distinções variadas entre os não autistas. Assim, o teste acaba por ser útil para vários propósitos, incluindo esse estudo. Descobrimos que um grupo é mais inteligente coletivamente se seus integrantes forem, em média, mais socialmente perceptivos, ou seja, hábeis na leitura das emoções dos olhos de outras pessoas. Um aspecto fascinante surgiu quando fizemos a mesma experiência com dois núcleos. Os grupos cara a cara ficavam acomodados ao redor de uma mesa, respondendo às perguntas no computador, mas conversando entre si, enquanto o grupo exclusivamente online só podia se comunicar de forma eletrônica, por meio de um chat e sem contato visual. 

**Se os integrantes de determinado grupo têm altos índices dessa habilidade, o grupo tende a apresentar maior inteligência coletiva?**

Sim, mas esse é apenas um fator. O segundo fator é a igualdade de contribuições. Quando, em nosso estudo, uma ou duas pessoas dominaram as conversas em um grupo, a inteligência coletiva desse grupo tendeu a ser menor. Aqui também havia uma confirmação precisa do que muitos perceberam em suas reuniões. O terceiro fator é a proporção de mulheres no grupo: quanto mais mulheres, melhor o desempenho. Esse fator se relaciona com o primeiro, uma vez que é sabido que as mulheres em geral têm sensibilidade social mais apurada. Uma de nossas interpretações é a de que um grupo inteligente depende de integrantes com alta sensibilidade social, seja qual for o sexo. 

**E por que esses três fatores são tão cruciais?** 

Os três têm importância relativamente igual, mas o que parece ser estatisticamente mais significativo é a percepção social. Trata-se de pura especulação, porém pode-se concluir que o fator determinante para a inteligência coletiva é ter grupos com pessoas com inteligência social mais desenvolvida. 

**E isso pode ser aprendido?**

Não sabemos, pois essa qualidade parece ter componente genético e influência de hormônios, o que, a princípio, leva a crer que há poucas chances de ser aprendida. Mas, em um estudo publicado em outubro de 2013 na Science [“Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind”], os pesquisadores David Comer Kidd e Emanuele Castano perceberam que pessoas que liam livros de ficção antes de se submeter ao teste “Lendo a Mente nos Olhos” saíam-se melhor. 

**O que o sr. sugere àqueles que buscam equipes mais inteligentes?**

Uma medida é tentar ampliar o nível geral de percepção ou inteligência social, seja estimulando a habilidade na equipe atual ou recrutando novos profissionais com esse perfil. Elementos do design organizacional, como o modo de reunir pessoas em torno de tarefas e as técnicas de motivação usadas, também afetam a inteligência da empresa. Formas não hierárquicas, mais colaborativas, têm maior potencial. 

**Como isso se relaciona com o resto de seu trabalho?**

Basicamente temos três atividades. A primeira são os estudos científicos que descrevi. A segunda é o mapeamento do genoma da inteligência coletiva por meio de padrões organizacionais: avaliamos mais de 200 casos considerados exemplares, como o Google, a Wikipedia, o Linux, a Threadless e a InnoCentive, e tentamos criar categorias –embora os mesmos casos muitas vezes se encaixassem em mais de uma. A terceira atividade é criar exemplos de inteligência coletiva. Nosso maior projeto aí é o “Climate CoLab”, no qual aproveitamos a inteligência coletiva de milhares de pessoas para chegar a novas soluções dos problemas de mudanças climáticas. Com esses três recursos, tentamos criar organizações mais “espertas”. Esperamos desenvolver um teste a ser aplicado em grupos reais para estimar como será o desempenho de uma equipe de vendas ou de criação. 

**Há limite a essa inteligência?**

A dinâmica que se instala quando um grupo cresce é um dos fatores que afetam a inteligência coletiva. Então, acreditamos que, com os tipos certos de ferramentas colaborativas digitais, é possível que um grupo cresça e continue ampliando sua inteligência. Hoje o tamanho ideal de um grupo inteligente oscila entre cinco e dez pessoas, mas pode vir a ter 50, 100, 500 ou 5 mil com as ferramentas certas. Nossa pesquisa quer descobrir isso.

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