Tecnologia e inovação

Os efeitos colaterais da digitalização no B2B

É fácil ver o quanto a transformação digital alterou a maneira como os consumidores interagem com marcas e empresas no dia a dia.
É regional manager da Moove e engenheiro de produção com pós-graduação em administração e com especialização em negócios pela Ohio University.

Compartilhar:

Hábitos de consumo tradicionais, que vinham mudando ao longo do tempo, foram intensificados durante a crise da Covid-19 a níveis que ninguém imaginava. Desde a maneira como as pessoas compram comida até o modo como assistem às aulas, tudo atualmente passa pelo mundo digital. 

Essa mesma transformação, antes entendida pelas empresas como parte de um futuro próximo, logo se tornou presente e fez com que vários planejamentos estratégicos fossem jogados fora e redesenhados assim que a pandemia prevaleceu.

A capacidade de adaptação das empresas B2C – business to consumer – é evidente. Aliás, como consumidores que somos, vemos, sentimos e nos conectamos com essas empresas todos os dias. Porém é importante lembrar que por trás das organizações que estão cara a cara com o consumidor, há diversas outras que operam em outro modelo, o B2B – business to business –, e, portanto, encaram a digitalização de outra maneira.

## A digitalização do B2B

Nesse sentido, para quem interage com as compras organizacionais e está imerso no B2B, percebe que o impacto desse fenômeno ainda não é muito claro para as empresas, que dependendo do segmento de atuação, podem estar sofrendo ainda mais.

Os autores J. B. Wood, Todd Hewlin e Thomas Lah, no livro [*B4B: How software and big data are reiventing the customer-supplier relationship*](https://www.amazon.com/B4B-Technology-Reinventing-Customer-Supplier-Relationship/dp/0986046205), traduzem esse fenômeno como “software is eating the world”, ou seja, um efeito que de algum modo os softwares – a digitalização – estão “comendo” o mundo, no sentido de transformação.

![](https://lh6.googleusercontent.com/DX-7C5k2VlVcV1A0t7zLgVNYkV0xCkZRixLVNVTUrb9U9qKoHy0NdJiI0DmPHtFVH-q09mepRVbRLvnEl7UcIQZ5wzd02qkCQSEiUjcp3w3e1P3fHobaH8meb7nvFzYdh9koqxA)

**A digitalização do B2B. Fonte: J. B. Wood, Todd Hewlin e Thomas Lah**

Entretanto, deixam claro que esse impulso varia de acordo com a oferta e a distribuição de produtos ou serviços que a empresa tem como parte do seu negócio. Evidentemente, organizações B2B dos segmentos de tecnologia, telecomunicações e entretenimento conseguiram evoluir mais rapidamente no sentido de produtos digitais e distribuição através da internet – exemplo: a oferta de empresas de tecnologia de softwares que antes eram comprados através de CDs (produtos físicos), atualmente são distribuídos e comprados no online por meio de assinaturas mensais.

Por outro lado, empresas tradicionais do B2B inseridas em segmentos como o automotivo e de manufatura, têm outro nível de aceleração rumo à digitalização. Ou porque seus produtos ainda estão rondando no mundo físico, ou porque as empresas não conseguiram ainda migrar sua distribuição para o ambiente online.

É um cenário desafiador, já que, como os autores ainda defendem, há um enorme distanciamento entre o que os fornecedores oferecem e o que de fato os clientes querem e têm de expectativa quanto à experiência de compra.

## Ensinamentos da pandemia

A consultoria global McKinsey publicou uma recente atualização da pesquisa [*Brazilian B2B decision maker response to COVID-19 crisis*](https://www.mckinsey.com/business-functions/marketing-and-sales/our-insights/survey-brazilian-b2b-decision-maker-response-to-covid-19-crisis), que trata das consequências da pandemia nos negócios B2B. 

A pesquisa aponta que [a grande maioria das empresas alterou o seu go-to-market](https://revistahsm.com.br/post/o-que-inovacao-aberta-e-empatia-tem-em-comum), ou seja, o modo como seus produtos e serviços são vendidos, durante a crise. Houve uma queda de 70% nas vendas presenciais – obviamente pelas inúmeras restrições – ao mesmo tempo em que houve um incremento de 74% no go-to-market via ferramentas digitais, tais como videoconferência, e um aumento de 63% via troca de mensagens online. Paralelamente, o e-commerce (vendas online sem a interação de um vendedor) também ganhou relevância, subindo 17%.

A consultoria traz à luz que não somente os fornecedores se adaptaram ao modelo, mas também os próprios compradores. Entre 70 a 80% dos tomadores de decisão entrevistados apontam que preferem interações remotas e a possibilidade de navegarem sozinhos em plataformas de e-commerce, ao invés de contatos presenciais. Além disso, 75% dos pesquisados acreditam que esse modelo é mais efetivo que o que estavam acostumados antes da Covid-19. 

E isso, podemos afirmar, é importantíssimo!

Se o objetivo das empresas fornecedoras é ajustar suas ofertas e distribuições no sentido de entregar o que realmente os clientes querem, entender as expectativas desses compradores quanto aos tipos de relações que querem ter é fundamental.

## Efeitos colaterais

Avaliando o contexto, alguns efeitos colaterais podem ser sentidos pelos fornecedores. Em primeiro lugar, surge uma necessidade imediata que pode ser traduzida como uma característica essencial para a sobrevivência no novo modelo, que é a capacidade das empresas B2B serem flexíveis. Esqueça os modelos antigos, cheios de hierarquia, com lentidão na tomada de decisão, todos típicos do antigo B2B. A velocidade com que as relações entre fornecedor e cliente estão mudando demanda – na verdade, exige! – uma habilidade organizacional em direção à adaptação rápida frente aos novos desafios, e isso pode ser um trunfo ou uma barreira gigante.

Outro efeito colateral é a [reavaliação das empresas](https://revistahsm.com.br/post/qual-a-identidade-da-sua-organizacao) em relação às habilidades internas exigidas de seus funcionários – principalmente do alto escalão – na condução dos negócios. Cada vez mais em evidência, as soft skills tomam a frente das habilidades técnicas ou específicas e lideram as novas reivindicações nas experiências dos executivos, já que falam mais diretamente a linguagem que os clientes começam a demandar.

No sentido de refletir ainda mais sobre esses e outros efeitos colaterais, algumas perguntas ainda precisam ser feitas para ajudar a nortear a condução das empresas B2B rumo à real digitalização de seus negócios. Entre elas:

1. Quais são as reais expectativas do comprador organizacional? Além da adaptação às novas interações com os fornecedores, o que mais espera?

2. Como a mudança de go-to-market afeta a estrutura organizacional das empresas? Como as organizações têm se preparado internamente – em relação às interações entre áreas e às estruturas operacionais?

3. Quais tendências ainda podem afetar o B2B? 

Pois é, enquanto de algum modo vemos o B2C avançar rapidamente no mundo digital, o B2B tem alguns deveres de casa a fazer – e não são poucos!

Compartilhar:

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Tecnologia & inteligencia artificial
18 de abril de 2026 09H00
Este é o quarto texto da série "Como promptar a realidade" e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência - mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

27 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de abril de 2026 15H00
Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater - quando a inteligência artificial vira espetáculo - e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
17 de abril de 2026 09H00
Este é o terceiro texto da série "Como promptar a realidade". Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado - e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

11 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de abril de 2026 14H00
Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Marcos Ráyol - CTO do Lance!

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
16 de abril de 2026 09H00
Este é o segundo artigo da série "Como promptar a realidade" e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia - reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

13 minutos min de leitura
Liderança
15 de abril de 2026 17H00
Se liderar ainda é, para você, dar respostas e controlar processos, este artigo não é confortável. Liderança criativa começa quando o líder troca certezas por perguntas e controle por confiança.

Clarissa Almeida - Head de RH da Yank Solutions

2 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de abril de 2026 14H00
Este é o primeiro artigo da nova coluna "Liderança & Aikidô" e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

7 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
14 de abril de 2026 07H00
Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

Victor Ximenes - Senior Design Manager do CESAR

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...