Desenvolvimento pessoal

Os mercados de dados do futuro não venderão dados

O professor Munther Dahleh, do MIT, sugere que se comercializem os insights que os dados geram, pois seu valor financeiro é mais facilmente estabelecido

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O Institute for Data, Systems, and Society (IDSS), do Massachusetts Institute of Technology (MIT), garante: os dados são ativos importantes para toda a sociedade – incluindo os negócios. No entanto, há um desafio a enfrentar na esfera empresarial: existe uma carência de modos adequados de auferir o valor dos dados – e, nos negócios, medir é crucial. Já há mercados de dados, mas são ineficientes, segundo o diretor do IDSS, Munther Dahleh. Para ele, então, é preciso construir um mercado melhor. A boa notícia? A tecnologia para isso está em desenvolvimento.

Nesta entrevista, Dahleh conta que o IDSS está criando um “laboratório de dados baseado na nuvem”. Ele armazenará conjuntos de dados de maneira segura e oferecerá serviços de processamento para indivíduos que queiram usar tais conjuntos de dados. E essa estrutura de data lab poderá ser aplicada para criar os futuros mercados.

**O sr. afirma que o mercado para dados existente hoje é inadequado. O que seria um mercado de dados eficiente?**

Um mercado tem dois lados: compradores e vendedores. Os preços são decididos com base em demanda e oferta, um equilíbrio de algum tipo. Quando o mercado é bem concebido, há confiança em sua maneira de precificar. Hoje, não existe isso. Não há um mercado de dados que opere como o de ações, ou como o de anúncios online, baseado em estratégias de leilão. Hoje, nos mecanismos existentes, as pessoas têm de compartilhar seus dados em determinado mercado e confiar que seu gestor de fato vai remunerá-las apropriadamente pelos dados.

**Como uma empresa que precise de dados para tomar decisões usaria o mercado de dados que vocês vislumbram?**

Vamos dar um exemplo. Você chega ao mercado porque é varejista e está tentando predizer seu estoque. Descreve o que quer, escolhe os algoritmos de que necessita e coloca uma oferta. O mercado avalia seu pedido e informa quais dados relevantes estão disponíveis. Conforme o valor que você oferece, ele diz a quais dados você terá acesso e fornece a taxa de predição que você solicitou.

**Então, se sou um varejista, compro a predição do estoque, sem ter acesso aos dados realmente usados nessa predição?**

Correto. Os compradores acessam o benefício dos dados, mas não os dados em si. Se você quiser usá-los em outra análise, terá de voltar ao mercado e fazer sua oferta novamente.

**De que modo insights de vendas (como essas predições, por exemplo) resultam em avaliações melhores de dados?**

Neste momento, as empresas que estão entrando no negócio de comercializar dados estão comprando e vendendo conjuntos de dados a preços fixos. Os compradores não sabem qual o valor financeiro que os dados gerarão, ou se lhes entregará algum valor. Se você não sabe que valor um conjunto de dados oferece, não sou capaz de dizer quanto você deve pagar por ele.

Mas é possível, isso sim, colocar preço no valor da predição. Voltando ao exemplo do varejo, se você está tentando estimar seu estoque, cada parcela de aperfeiçoamento se traduz em dinheiro para sua empresa. Se eu lhe disser: “Esta é quantidade de calças jeans que eu predigo que venderá”, você saberá exatamente em quanto dinheiro isso se converte na linha final do seu balanço. Você sabe precisamente quanto uma predição precisa beneficia seu negócio e isso determina quanto você está disposto a pagar por ela. Quando você coloca uma oferta justa que reflete o valor dos dados, o mercado pode precificá-los apropriadamente.

**Que outras vantagens uma companhia obteria ao comprar uma predição no mercado de dados, em vez de comprar diretamente um conjunto de dados potencialmente útil?**

A vantagem é a precisão. Um mercado centrado no valor dos dados incentiva as pessoas a coletarem dados cada vez melhores e mais úteis. O mercado pagará mais aos vendedores cujos dados contribuíram mais à tarefa de predição. Eu, como vendedor, vou ganhar mais se contribuir com melhores conjuntos de dados. Isso estimula as pessoas a oferecer dados importantes e úteis para um trabalho de predição.

Hoje, inúmeras empresas estão armazenando toneladas e toneladas de dados, e esperam que eles se traduzam em lucros. Acredito que será uma surpresa, para muitas, constatar que grande parte desses dados é inútil. Sua obsolescência é rápida.

**Como vocês vêm trabalhando no sentido de lançar esse mercado?**

Os mercados de dados terão domínios específicos, tais como varejo, transporte ou publicidade. Desenvolvemos uma estrutura teórica e computacional para criar um mercado de dados online. Estamos no processo de construir o protótipo da plataforma a testar, com um software específico, e planejamos abri-lo a empresas para experimentarem e verem se funciona. Estamos considerando várias opções desse software e trabalhamos em parceria com empresas de tecnologia. E temos conversado com as companhias a esse respeito também, para conquistar sua adesão mais rápido. Afinal, levou muitos anos para o Google consolidar o mercado de publicidade online.

Realmente acredito que estamos nos dirigindo à adoção dos mercados de dados. Mas não diria que se trata de uma mudança de paradigma.

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