Sustentabilidade

Os Papéis da Crotonville Rio

No Brasil desde o final de 2014, a mais icônica das universidades corporativas, da GE, oferece cursos parceiros e constrói uma cultura comum

Compartilhar:

**Vale a leitura porque…**

… um dos maiores mitos do mundo empresarial se chama Crotonville, a universidade corporativa (UC) em que a General Electric formou todos os seus CEOs.

… com a instalação de um centro de pesquisa e desenvolvimento da GE no Brasil, o País teve direito a sua filial de Crotonville, aberta inclusive a clientes da empresa. A curiosidade sobre seus diferenciais é grande. 

Demorou, mas a icônica universidade corporativa da GE chegou ao Brasil. A Crotonville Rio – ou só “Croton”, como é chamada – foi inaugurada em novembro de 2014 com um investimento de US$ 50 milhões, na esteira do centro de pesquisas global instalado no mesmo ano e sob a lógica de que não adianta inovar os produtos sem inovar as pessoas.

Em plena crise, a Croton abriu treinando nada menos que 4 mil colaboradores, e o Brasil apenas começa a descobrir seu poder de fogo.

**O QUE ELA FAZ PELA GE**

A Crotonville Rio não veio para ser somente uma facilitadora de conhecimento e promotora de engajamento a fim de aumentar a produtividade geral dos negócios da General Electric no Brasil. A instituição funciona em um nível muito mais estratégico, em três frentes. 

**1. Mudança cultural**

“A GE está migrando para um gerenciamento do tipo ‘risco controlado’ em relação à experimentação. Então, a Croton tem de atuar para desenvolver a autonomia das pessoas em diferentes situações”, afirma Pablo Vera. Ele é o líder de treinamentos da GE para a América Latina e foi trazido da Cidade do México para o Brasil para implementar a Crotonville Rio. 

**2. Aproximação local**

Na avaliação de Vera, é função de toda universidade corporativa estar mais próxima da realidade do país e da região e, assim, ter capacidade de adaptação muito maior e entregar para a empresa um resultado melhor.

É isso que a Crotonville Rio está fazendo. “Especialmente em tempos difíceis como os atuais, temos de ficar mais perto dos colaboradores, treinando-os e desenvolvendo-os; é o único modo de conquistarmos um resultado diferente.” 

**3. Construção do ecossistema de negócios**

Também se espera da Croton que catalise o ecossistema de negócios da GE, função que fica explícita no programa “Liderança para Clientes”, em que os parceiros e seus funcionários frequentam, gratuitamente, as aulas da universidade com os colaboradores da GE, tendo acesso a sua metodologia e a suas avançadas práticas globais. 

“No curso, compartilhamos com os clientes e parceiros o que temos de bom em termos de desenvolvimento de liderança e inovação e também aproveitamos para entender seus desafios. Desse modo, podemos adaptar nosso modelo de negócio e criar uma cultura comum entre as empresas”, diz Vera. O executivo repete o mantra “o êxito do cliente é o êxito da GE” para explicar quão fundamental é essa troca entre os profissionais da GE e os dos parceiros. A combinação de educação, relacionamento, cultura e insights sobre desafios faz a Croton catalisar todo um ecossistema empresarial inteligente que tem a GE como centro de gravidade. 

Os parceiros convidados pela GE para participar do curso são selecionados cuidadosamente. Antes de formalizar o convite, Vera conversa com o responsável pela área de recursos humanos e desenvolvimento da companhia a ser convidada para entender o momento que ela vive – por exemplo, está no meio de uma transformação? 

Outro ponto importante para o fortalecimento do ecossistema está relacionado com o estabelecimento de uma linguagem de negócios comum. Por isso, o curso, de três dias de duração, tem como um dos carros-chefe a “cultura da simplificação” da GE. 

O nome remete a simplificar tudo – desde a maneira de avaliar pessoas até os processos produtivos, passando pelos princípios do relacionamento transparente com o cliente e pela adaptação a situações excepcionais de mercado. 

“A transição que todo gestor enfrenta hoje tem a ver com a simplicidade. Estamos migrando do tipo de gestor que quer controlar todos os processos para um coach, ou facilitador, aquele que não dá a resposta para sua equipe, e sim a ajuda a encontrá-la”, diz Vera.

Até o momento, o curso “Liderança para Clientes” teve 17 turmas, que totalizaram mais de 300 alunos de 15 parceiros empresariais. Uma das empresas convidadas pela GE para a Croton foi a Cemig, uma das maiores concessioná – rias de energia do País. Wagner Costa, engenheiro consultor da área de negócios da companhia mineira, que fez o curso no final de 2015, pare – ce ter entendido o recado do ecossistema. “O curso aplica os valores da GE com o foco principal no relacionamento de pessoas e no desafio de irmos além do básico”, conta. 

**10 SEGREDOS DE CROTONVILLE**

**1.** A essência da UC deve ser disseminar a cultura da empresa.

**2.** É preciso ter o apoio da alta gestão na implementação e no dia a dia.

**3.** Coaching individual é fundamental.

**4.** Os problemas podem ser gerais, mas a abordagem, local.

**5.** Os cursos devem usar casos reais.

**6.** Uso intensivo de tecnologia é bem-vindo em aplicativos, protótipos, educação a distância.

**7.** Vale a pena incentivar a socialização de experiências.

**8.** A definição clara de objetivos e expectativas é mandatória.

**9.** Os ambientes de interação presencial e online têm de ser inspiradores.

**10.** Deve haver parceria com escolas e atuação orgânica dentro da empresa. 

**SEU BENCHMARKING COM A CROTON**

O modelo de educação de Crotonville é tão elogiado que parece algo inacessível aos meros mortais, sejam eles em – presas ou gestores. Uma organização comum do Brasil conseguiria inspirar-se na Croton Rio para treinar seu pessoal? Afinal, a GE investe a estratosférica quantia de US$ 1 bilhão por ano em treinamento. 

Para Vera, os princípios da Crotonville podem inspirar qualquer companhia, independentemente de seu tamanho ou de seus recursos. E, segundo ele, é papel da Croton ajudar outras empresas nisso, abrindo-se a visitas de gestores de UCs que queiram fazer benchmarking de melhores práticas, discussão de estratégias e troca de informações. Questionado sobre o que as organizações comuns podem aprender com a Crotonville, Vera destacou dez pontos-chave.

Um dos primeiros aprendizados é o de não ter apenas o treinamento em mente ao montar uma estrutura de educação corporativa, como costuma acontecer com mui – tas empresas. “O propósito de uma universidade precisa ter a ver com a transformação da cultura organizacional”, recomenda ele enfaticamente.

Essa função fica bem clara quando a GE adquire novas companhias: a compra da divisão de energia da francesa Alstom por US$ 10,6 bilhões em 2015, a maior da história da GE, trouxe o desafio da integração de milhares de novos colaboradores. “A Croton foi fundamental para que essas pessoas novas incorporassem nossa cultura. Trouxemos muitos funcionários da Alstom para dentro do time”, ex – plica Vera.

Outro aprendizado fundamental diz respeito ao poder de socialização de uma UC. Os contatos que acontecem nas turmas da universidade são extremamente importantes para a GE, que atua em negócios distintos e dificilmente aproximaria seu pessoal de outra maneira, mas a socialização dos colaboradores é crucial para qualquer empresa que busca a competitividade. 

“Reunir experiências de pessoas e áreas distintas tende a criar uma química única para o negócio”, afirma Vera. O intercâmbio de diferentes setores, negócios e ferramentas faz com que os alunos passem a enxergar coisas que não veriam de outro modo, e esse aprendizado coletivo forma grupos organicamente, quebrando silos e, no final das contas, facilitando a inovação. 

Um terceiro aprendizado destacado por Veras tem a ver com a necessidade de um processo de coaching prévio. Boas ferramentas e um bom método educacional serão inócuos se o aluno que chega à UC não sabe o que quer desenvolver, lembra o executivo. “Para evitar que isso ocorra, fazemos um trabalho extensivo de descobrir com o aluno o que ele quer da carreira e o que espera da UC.” 

As parcerias educacionais são levadas muito a sério na GE, e deveriam sê-lo em toda universidade corporativa. A Croton trabalha com a Women’s Network da GE mundial para o desenvolvimento da liderança feminina e com instituições como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assim como nos EUA faz parcerias com Harvard e Stanford. 

Um aspecto importante da Croton é o desenho dos treinamentos. Eles levam em conta os cinco níveis de hierarquia da empresa, da base até a presidência, sendo personalizados e pensados para o que realmente importa em cada caso. São desenhados também para atender às diferentes gerações e às diferentes habilidades. Esse planejamento é um verdadeiro jogo de xadrez. “Às vezes, unimos funcionários com 2 e com 15 anos de experiência, por exemplo, e pessoas de diferentes níveis hierárquicos que têm interesses e habilidades semelhantes”, exemplifica Vera. 

Mais uma lição, frequentemente esquecida, é sobre os ambientes de aprendizado serem inspiradores e qualquer UC pode copiar a Crotonville nessa intenção. 

**O DESAFIO É DIÁRIO E CONTÍNUO**

A Croton, que desenvolveu todos os CEOs globais da GE, é peça-chave em sua jornada atual para ser uma empresa menos burocrática e mais simples, migrando para um modelo mais digital e incentivando o intraempreendedorismo. 

Isso não significa, porém, que seja fácil para ela achar o formato educacional certo para cada profissional o desafio é diário. Após os primeiros dois anos da Crotonville no Brasil, Vera avalia que o País tem bons líderes executivos locais sempre são exportados para outras unidades. Porém ele avisa: o esforço tem de ser contínuo. 

**Você aplica quando…**

… entende que uma universidade corporativa não serve apenas para treinar funcionários, mas para gerar mudanças culturais e construir um ecossistema.

… incorpora as dez melhores práticas – os segredos – da Croton em sua iniciativa educacional, do uso de casos reais ao uso de protótipos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Cargo versus competências

O futuro do trabalho não está nos cargos. Este artigo revela por que a competitividade das empresas passa a depender menos do organograma e mais da capacidade de mapear, desenvolver e combinar competências.

Para quem você escreve: pra pessoas ou pros algoritmos?

Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Confiança demais, conhecimento de menos

Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Quando a inteligência fica barata, o seu modelo de negócio entra em risco

Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.

Quando o feed não sustenta a reputação

Em um mundo onde a presença digital se estende para além das redes sociais, este artigo mostra que a reputação de um líder não é construída pelo que ele publica, mas pela coerência entre discurso, comportamento e cada interação do dia a dia.

Inovação & estratégia
7 de junho de 2026 08H00
Este artigo mostra como falhas operacionais e desintegração de sistemas ainda geram perdas bilionárias - e por que a inteligência artificial pode transformar a eficiência em vantagem estratégica no setor elétrico.

Gilson Paulillo - Diretor comercial da Pagar

2 minutos min de leitura
Carreira, Cultura organizacional, Gestão de pessoas
A longevidade deixou de ser apenas um dado demográfico para se tornar questão de governança

Fran Winandy

0 min de leitura
Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de junho de 2026 13H00
Quando bem interpretados, os sinais do comportamento das equipes deixam de ser rotina e passam a revelar o que realmente sustenta performance, engajamento e resultado.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

4 minutos min de leitura
ESG
6 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra por que a inclusão de pessoas com deficiência ainda não evoluiu de obrigação legal para estratégia de negócio nas organizações brasileiras.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

6 minutos min de leitura
Liderança
5 de junho de 2026 16H00
Organizações não estão falhando por falta de esforço, estão falhando por fazer coisas demais ao mesmo tempo. Este artigo reforça que o verdadeiro papel da liderança não é multiplicar tarefas, mas definir o problema certo e simplificar a execução.

François Bazini - CMO e Consultor

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Liderança
5 de junho de 2026 08H00
Como o Brasil chegou à NR1 e por que esta pode ser nossa última chance de acertar?

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de junho de 2026 14H00
Ao refletir sobre a evolução da indústria têxtil, o autor propõe uma mudança de lógica: mais do que investir em máquinas, a competitividade passa a depender do valor real que a tecnologia entrega ao longo do tempo.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
4 de junho de 2026 08H00
O próximo desafio da liderança não é tecnológico - é aprender a liderar humanos e máquinas na mesma mesa.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
3 de junho de 2026 15H00
Quando a IA vira solução antes de existir o problema, o resultado tende a ser irrelevante. Este artigo mostra por que o erro das empresas não está na tecnologia, mas na ordem das decisões

Osvaldo Aranha - Chief AI Strategist, Palestrante, Mentor e Conselheiro

5 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança, Marketing & growth
3 de junho de 2026 08H00
Em meio à obsessão por crescimento, este artigo propõe uma mudança de perspectiva: não é o quanto a empresa cresce que define seu sucesso, mas sua capacidade de transformar expansão em valor real e sustentável ao longo do tempo.

Alexandre Costa - Gerente de Estratégia Financeira, Pricing e Revenue Management

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão