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Papel Semente: O lixo que floresce

Andréa Carvalho, sócia-fundadora da Papel Semente, conta os desafios para empreender no Brasil um negócio que, há dez anos, era novidade por aqui: produtos feitos a partir de papel reciclado “cravejado” de sementinhas de flores, hortaliças e temperos.

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Todos os dias toneladas de lixo são descartadas no Brasil e, apesar de 30% desse volume ter potencial para ser reciclado, apenas 3% de fato é reaproveitado, segundo dados do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Andréa Carvalho decidiu fazer algo a respeito dessa realidade. Com outros dois sócios, fundou a Papel Semente e, há dez anos, segue batalhando para que um papel, que seria descartado de qualquer forma (como um folder ou um convite), possa germinar uma nova vida. Seus produtos, todos cravejados de sementes de manjericão, pimenta ou margarida, são produzidos a partir de papel reciclado e o descarte, ao invés de lixo, vira um ato de cuidado e amor: picar, plantar, regar e florescer, respeitando o ciclo da natureza e contribuindo com um futuro mais sustentável. Em entrevista para a HSM Management, Andréa conta os desafios de ser uma pequena empreendedora em um negócio sustentável no Brasil e divide conosco seus sonhos e seus planos para o futuro.

**1. Como surgiu a ideia de fundar a Papel Semente?**

Iniciei como voluntária em uma instituição que fazia papel reciclado artesanal com a comunidade em torno de um lixão, em Atibaia, cidade do interior de São Paulo onde eu morava. Com o tempo, passei a fazer oficinas para ensinar as pessoas e também coordenar projetos socioambientais. Foi nessa época que Paulo Candian, meu marido que depois se tornou meu sócio, viu uma ação da Honda na Inglaterra que utilizava o papel semente. Pesquisamos e vimos que no Brasil não tinha ninguém produzindo, e que era uma oportunidade ainda inexplorada. A ideia surgiu em São Paulo, mas, como sou de Niterói e meu filho único estava querendo se mudar para o Rio para estudar e ficar mais perto do pai, Luis Felipe, que também se tornaria meu sócio, decidimos iniciar a Papel Semente no Rio. Meu ex-marido tinha um galpão na comunidade de Guaxindiba e decidiu empreender esse sonho com a gente. 

**2. Quais foram os primeiros desafios enfrentados?**

Estávamos só iniciando e, por dia, eu já recebia cerca de 30 a 35 currículos de pessoas da comunidade sem nenhuma qualificação. Isso me assustou, mas também me fez perceber uma oportunidade de desenvolvimento que deu origem ao nosso projeto de geração de emprego e renda. Passamos a capacitar as pessoas antes mesmo de contratá-las e, mesmo quem não era admitido, obtinha ao menos uma qualificação para procurar outras oportunidades. Temos orgulho de dizer que o nosso líder de expedição, por exemplo, começou conosco nesse processo de capacitação e hoje exerce uma função importantíssima em nossa operação.

**3. Conte-nos mais sobre o seu produto**

A Papel Semente trabalha com matéria-prima reciclada, o que gera impacto zero no meio ambiente e ainda contribui para diminuir o volume de lixo nos aterros e nos lixões. Estimular o consumo de um papel fabricado a partir de material reciclado reduz a poluição do ar em 95% e utiliza 50 vezes menos água e energia. Além disso, a cada tonelada de papel reciclado, evita-se o corte de cerca de vinte árvores. Nosso produto é feito a partir de restos de aparas de papel de gráficas e de papéis jogados fora por empresas e residências. Quem coleta nossa matéria-prima é a Recooperar, cooperativa de catadores de material reciclável, que faz parte da ONG Guardiões do Mar. A parceria, além de apoiar a geração de renda e trabalho para muitos catadores, colabora para a limpeza e a preservação das praias, dos rios e das lagoas das cidades de São Gonçalo e Niterói. As mulheres da comunidade são responsáveis pelo manuseio e pelos acabamentos dos pedidos. Hoje temos uma líder da comunidade que é MEI (Microempreendedora Individual) e retira os trabalhos na fábrica repassando a outras mulheres.

**4. Com tantas ideias e oportunidades de mercado, por que vocês decidiram investir em um setor ligado ao meio ambiente, com apelo sustentável?**

Acredito que foi pela experiência na ONG lá em Atibaia. O que eu havia visto era que onde tinha lixo, tinha pobreza, e onde estava a pobreza o lixo também estava. Ter descoberto o papel semente me mostrou que era possível fazer algo para mudar a realidade das comunidades, de um jeito consciente e sustentável. 

**5. E como tem sido o desempenho da empresa em tempos de economia instável?**

Há cinco anos, estávamos com a empresa bem enxuta, os recursos eram limitados, portanto, decidimos focar em planejamento com metas claras e investir em posicionamento de marca. Esse início mais contido foi fundamental para segurar a empresa, que só não quebrou por conta da qualidade do produto. Passada essa crise, nos últimos três anos a Papel Semente registra um crescimento anual acima dos dois dígitos, e nossa expansão se dá tanto em volume de vendas quanto em número de clientes. Além de nosso empenho, credito esse resultado a alguns fatores, tais como: o consumidor está cada vez mais “antenado” e valorizando negócios sustentáveis; ele já entende melhor o valor agregado que produtos sustentáveis têm; como a concorrência aumenta e os recursos estão escassos, as empresas estão investindo em posicionamento, para se diferenciarem – aí a comunicação sustentável de nossos produtos, como convites, folders, crachás, cartões etc. fazem toda a diferença –; e, por último e não menos importante, em tempos tão difíceis no Brasil, receber um produto nosso, em que o cidadão é incentivado a plantar, colher e semear, acaba sendo um alento e uma esperança para tempos melhores.

**6. Qual o produto carro-chefe e o setor responsável pelo maior volume de vendas de vocês?**

Se falarmos em semente, nosso carro-chefe é o cravinho francês, uma semente resistente e de fácil germinação. Do sul ao nordeste, ele germina e floresce. Em produtos, o forte ainda são folders e materiais para campanhas promocionais. E, nos últimos três anos, vem crescendo o cliente de TAGs/etiquetas, o que para nós é relevante, pois é um produto que gera venda recorrente. 

**7. Como é a relação da venda no B2B? Além dos produtos, as relações também são sustentáveis?**

A parte mais difícil dessa relação ainda são os prazos de pagamento. Imagine o que significa para uma pequena empresa precisar esperar 60 a 90 dias para receber. Mas, com planejamento, dá para se organizar e manter uma relação saudável com esses clientes. São eles que fazem nossa roda girar e nos provocam a ser cada vez melhores, seja em nosso processo produtivo, seja na logística de entrega, pois atender grandes volumes é um desafio diário. Além do prazo de pagamento, eu citaria também a exigência de algumas empresas na comprovação dos benefícios dos nossos produtos. Certa vez, uma das maiores perfumarias do Brasil quis comprar da gente, mas antes nos pediu para comprovar que a semente realmente germinava. Resultado: o processo de negociação durou mais de oito meses, pois fizemos desde a produção do papel semente, o plantio, o cuidado, até que as primeiras plantinhas começassem a aparecer. Documentamos tudo em relatórios para que o projeto, que foi criteriosamente avaliado, pudesse ser aprovado. Levou tempo: nosso e da natureza, mas no fim deu certo e a conquista dessa conta foi um marco na história da Papel Semente. 

**8. Quando a sustentabilidade começou a ser pauta dentro das empresas, houve muito questionamento se não seria esse um modismo, um tema passageiro. Qual a sua opinião sobre isso? A sustentabilidade veio para ficar?**

A sustentabilidade já se estabeleceu, não tem mais volta. Temos instituições sérias e estudos que comprovam que precisamos rever nossos hábitos de consumo. Por exemplo: os oceanos do mundo estão se afogando em plástico. A Ellen MacArthur Foundation estima que, até 2050, o mar terá mais peso em plástico do que em peixes.

Em Fernando de Noronha, por exemplo, já foi proibido o uso de plástico. Temos a notícia trágica, mas também vemos vários grupos agindo, pensando e repensando. O movimento está acontecendo, não dá para voltar atrás. A consciência está sendo ampliada e, com isso, buscamos maneiras mais sustentáveis de consumo. E as empresas, que antes podiam entrar nessa onda apenas para aparecerem “bonitas na foto”, precisam mostrar que estão fazendo sua parte. O consumidor está ligado e as redes sociais fazem as notícias viajarem na velocidade da luz.

**9. Vocês são uma empresa certificada pelo Sistema B. Qual a importância de fazer parte desse ecossistema e de possuir esse selo?**

Esse selo certifica empresas que, assim como a Papel Semente, estão redefinindo o conceito de sucesso nos negócios e criando uma nova identidade de mercado, a identidade B. Para tanto, cumprem altos padrões de performance e são avaliadas por meio de um processo de certificação global que analisa cinco principais áreas: modelo de negócios, comunidade, meio ambiente, governança e funcionários.

Estar nesse ecossistema fortalece pequenos negócios, como a Papel Semente, pois nos coloca no jogo de igual para igual com grandes empresas que também têm a mesma certificação. A Natura e a Mãe Terra, por exemplo, apesar de serem muito maiores que a Papel Semente, sentam na mesma mesa conosco e com as mesmas condições de negociação. Viramos pares. Isso é sensacional para uma pequena empreendedora. Como todo selo ou certificação, ter uma instituição séria atestando o seu trabalho e reforçando que a empresa realmente entrega o que ela promete, ajuda demais no nosso relacionamento com o mercado. 

**10. Como é empreender um negócio com apelo sustentável no Brasil?**

Fácil não é, mas sempre digo: é possível. Respire fundo, planeje, seja embasado por fatos e dados, ateste, conteste; mas, acima de tudo, acredite que o que você faz pode fazer diferença neste mundo. No início, as pessoas comparavam muito o preço do papel semente com o papel comum. E eu dizia: “Como você pode comparar algo que tem vida com algo que vai virar lixo?”. E eu realmente acreditava (e sigo acreditando) nisso, mas nem por isso deixei de fazer a minha parte. Em 2011, investimos em pesquisa e conseguimos reduzir o custo do produto em 40%, e essa redução foi repassada ao mercado. Este ano completamos dez anos de Papel Semente, e continuo tendo muito prazer em atender às grandes empresas, mas também me orgulho em fornecer pequenas quantidades para quem deseja uma lembrancinha de maternidade ou um convite de casamento diferentes. Acredito que o papel semente é um grande sensibilizador para as causas ambientais e sociais, portanto, precisamos que ele chegue nas mãos de mais e mais pessoas.

**11. Como empreendedora, o que motiva você? Qual o seu propósito e que legado você quer deixar para o mundo?**

Sou uma pessoa que sempre gostou de gente, de ajudar pessoas. E o meu negócio me permite realizar isso por meio da geração de emprego. Sabe aquele ditado que diz “quem ama cuida”? Então, como viver nesta casa maravilhosa chamada Terra e não cuidar dela? Como olhar para o outro e não cuidar dele? Como olhar para as plantas e não cuidar delas? Os rios, os mares, os oceanos… Para a Papel Semente a cultura do cuidar é o grande exercício do amar. Fazemos negócios assim: com cuidado e amor. Esse é o legado que quero deixar.

**12. Para onde caminha a Papel Semente? Quais são os próximos passos e os seus sonhos para o seu negócio?**

Completamos dez anos e estamos em processo de internacionalização. Temos um projeto desenvolvido em parceria com a University of Illinois (Estados Unidos) que está saindo do papel. Vamos lançar nosso e-commerce na Europa até o fim do ano. O meu grande sonho: continuar crescendo para empregar mais e mais pessoas e poder vê-las realizando seus sonhos. Nossa fábrica fica em uma comunidade que tem a presença do tráfico; gerar emprego é fundamental para dar alternativas para a população.

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