Transformação Digital

Para além da transformação digital: um olhar para os Sistemas Sociais

Alcançar práticas mais coerentes passam por entender desafios complexos além do sistema mecânico que uma empresa possui
__Alexandre Magno__ é CEO da The Cynefin Co Brazil. Nos últimos anos, ocupou a posição de liderança no Escritório de Transformação do Itaú.

Compartilhar:

A transformação digital frequentemente é interpretada como um fenômeno estritamente tecnológico, no entanto, sua essência transcende a mera aplicação de inovações. A verdadeira transformação – dentro, e fora das organizações -, reside na reconfiguração profunda dos sistemas sociais, que impacta não apenas o cenário tecnológico, mas também as interações humanas.

O avanço da maturidade digital é, sem dúvidas, mais do que necessário para que as empresas possam impulsionar suas posições no mercado de forma mais significativa. Na pesquisa conduzida pelo Opinion Box em parceria com a Ploomes, que demostra essa realidade, os dados apontam uma notável transformação digital no cenário B2B brasileiro, em que 68% das companhias evidenciaram um aumento em sua presença digital desde o início da pandemia.

Especificamente, 73% delas incorporaram mais ferramentas digitais em suas operações, indicando uma resposta ágil e adaptativa às mudanças no ambiente de negócios. Esse dado não apenas ressalta a rápida adoção de tecnologias, mas também sinaliza uma mudança significativa na mentalidade e nas estratégias utilizadas, impactando diretamente os mais diversos sistemas sociais.

Quando nos referimos a sistemas sociais, estamos, na verdade, explorando a intrincada rede de relações, processos e estruturas que compõem uma comunidade. Esses sistemas manifestam-se em diversas formas e escalas, desde pequenos grupos até comunidades e situações mais amplas e complexas.

Aspectos cruciais incluem relações interpessoais, restrições do sistema – que podem restringir ou mesmo habilitar possibilidades -, normas e valores, influência, papéis e identidades sociais, traços culturais, adaptação, conflitos e cooperação. Compreender essa dinâmica é essencial, pois exerce uma influência significativa no comportamento humano e nas dinâmicas desses grupos.

__O framework Cynefin como uma bússola para compreender os sistemas sociais em transformação__

Há mais de duas décadas, Dave Snowden desenvolveu o Cynefin, um framework que se tornou uma ferramenta valiosa para compreender a complexidade dos sistemas sociais e agir de forma apropriada em determinadas ocasiões.

O Cynefin destaca a necessidade de uma abordagem contextualizada e menos simplificada para promover transformações positivas em situações específicas. Afinal, a resolução ou exploração dos problemas dentro desses sistemas exige o reconhecimento e a compreensão de sua real complexidade. O framework posiciona os problemas em cinco domínios distintos:

1. __Claro (Clear)__: que têm causas e efeitos claros, e a solução é evidente. Aqui, as melhores práticas e padrões podem ser aplicados.
2. __Complicado (Complicated)__: têm uma solução, mas ela pode exigir especialização ou análise mais aprofundada. Especialistas e boas práticas podem ser decisivos nesse domínio.
3. __Complexo (Complex)__: não têm uma solução clara, e as relações causais só são compreendidas em retrospectiva. Sondagem e experimentação disciplinada são necessárias para encontrar soluções.
4. __Caótico (Chaotic)__: além de não haver relação clara entre causa e efeito, a ação imediata para estabilizar a situação se faz necessário – idealmente em uma transição para o domínio complexo para que se entenda melhor a situação.
5. __Confuso (Aporetic/Confused)__: um estado intencional ou acidental de desconhecimento, onde a natureza, ou mesmo existência do problema ainda não está clara, e a abordagem apropriada precisa ser determinada.

Sendo o Cynefin um framework a ser aplicado em sistemas sociais, reconhecemos que os desafios enfrentados em interações humanas muitas vezes, para nosso desgosto, se enquadram no domínio complexo. A complexidade das relações, a diversidade de valores, e a influência de fatores culturais tornam difícil prever e controlar os resultados.

__A armadilha da transformação genérica
__

No mundo corporativo, por exemplo, é comum ver empresas adotando uma única abordagem de transformação para todos os setores como a implementação generalizada de squads, OKRs ou design.

No entanto, essa prática pode não se mostrar eficaz na dinâmica atual das organizações. Segundo a teoria da complexidade, muitos dos nossos sistemas sociais, como as empresas, operam em uma dinâmica altamente complexa, onde o que funciona em um contexto pode ser ineficaz em outro e o sucesso de ontem pode ser um obstáculo hoje.

Portanto, a transformação, seja ela tecnológica ou não, não pode ser abordada de maneira uniforme, ou puramente inspirada em uma história de sucesso, por exemplo, “se a Amazon ou a Apple fazem desta maneira, quero fazer também”.

A complexidade dos sistemas sociais exige uma compreensão profunda de cada contexto organizacional. Aqueles que buscam a inovação devem abandonar a mentalidade de “tamanho único” e adotar abordagens mais contextualizadas, flexíveis e adaptáveis.

__Empresas complexas precisam entender a complexidade, e não tentar evitá-la__

A grande maioria dos executivos que lideram uma transformação digital na sua empresa, concordam quanto à complexidade encontrada ao longo dessa jornada – aliás, pouquíssimos diriam que tem em mãos um desafio de clara e simples resolução. E é nessa contradição que temos um grande desafio comportamental para a liderança moderna: se reconhecemos que nossos desafios são complexos por que insistimos em implementar soluções simples?

Nessa linha, olhar para a empresa como um sistema social que é, e não como um sistema mecânico, ajudará a alcançar uma prática mais coerente. O Cynefin pode ajudar o executivo a não apenas entender em qual contexto social se encontra e sobre seu grau de complexidade, mas, principalmente, em como agir de forma apropriada em cada um desses contextos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
2 de abril de 2026 08H00
À medida que a IA assume tarefas operacionais, surge um risco silencioso: como formar profissionais capazes de supervisionar o que nunca aprenderam a fazer?

Matheus Fonseca - Cofounder da Leapy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de abril de 2026 15H00
Entre renováveis, risco sistêmico e pressão por eficiência, a energia em 2026 exige decisões orientadas por dados e governança robusta.

Rodrigo Strey - Vice-presidente da AMcom

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
1º de abril de 2026 08H00
Felicidade não é benefício: é condição de sustentabilidade para mulheres em cargos de liderança.

Vanda Lohn

4 minutos min de leitura
Lifelong learning
31 de março de 2026 18H00
Quando conversar dá trabalho e a tecnologia não confronta, aprender a conviver se torna um desafio estratégico.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de março de 2026 08H00
Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade - estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.

Marilia Rocca - CEO da Funcional

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de março de 2026 15H00
Números não executam estratégia sozinhos - pessoas mal posicionadas também a sabotam. O verdadeiro ganho de eficiência nasce quando estrutura, dados e pessoas operam como um único sistema.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de março de 2026 06H00
No auge do seu próprio hype, a inovação virou palavra‑de‑ordem antes de virar prática - e este artigo desmonta mitos, expõe exageros e mostra por que só ao realinhar expectativas conseguimos devolver à inovação o que ela realmente é: ferramenta estratégica, não mágica.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
29 de março de 2026 18H00
Do SXSW 2026 à realidade brasileira: O luto deixa o silêncio e começa a ocupar o centro do cuidado humano. A morte entrou na agenda do bem-estar e desafia indivíduos, empresas e sociedades a reaprenderem a cuidar.

Dilma Campos - CEO da Nossa Praia e CSO da Biosphera.ntwk

3 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de março de 2026 13H00
Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência - com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
29 de março de 2026 07H00
Este artigo revela por que entender o nível real de complexidade do próprio negócio deixou de ser escolha estratégica e virou condição de sobrevivência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...