Transformação Digital

Para além da transformação digital

Se quisermos ampliar impactos positivos e destravar todo o potencial das empresas é preciso considerar outro tipo de transformação – a de consciência – e fazer com que elas se cruzem. é nessa intersecção que mora a prosperidade exponencial ![ART framework-02](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/1d83UJ9ACXqQ70bMdLmvIi/ed9b8c73d50c1d44dba0c177e8e7ba9f/ART_framework-02.png)
Jan Kishi Diniz é sócio do Grupo Anga e CEO da 08 Inovação Consciente. Professor Convidado da Fundação Dom Cabral e membro da rede Global Shapers do Fórum Econômico Mundial.

Compartilhar:

Outro dia uma amiga paulistana me contou que alugou um carro pelo Turbi para passar o fim de semana na praia em um apartamento alugado pelo Airbnb, com seu namorado que conheceu pelo Tinder. Saíram mais tarde do que o previsto por conta do atraso de suas compras de supermercado feitas pelo Rappi. É que o entregador teve problemas para alugar a bicicleta no app de bikes compartilhadas. Para aproveitar esses 30 minutinhos de atraso, montou sua playlist no Spotify, chamou o DogHero para passear com seu cachorro e adiantou uma consulta por telemedicina feita pelo aplicativo de seu seguro-saúde.

Eu não sei você, mas acho maluco pensar que em apenas dez anos, com um cartão de crédito e um smartphone, colocamos no bolso de milhões de pessoas hospitais, supermercados, carros etc.

Na última década, vivenciamos mudanças profundas por conta da criação e da adoção de tecnologias digitais nos negócios. Praticamente todo evento corporativo dos últimos anos tinha como principal pauta a famosa Transformação Digital (ficou tão importante que até me sinto obrigado a escrever as iniciais com letras maiúsculas).

Ano após ano, ficavam claros os benefícios de digitalizar a empresa para exponencializar suas capacidades e assim trazer eficiência, escala e precisão na geração de valor aos clientes. Nesse contexto, produtos e serviços que mudaram nossas vidas passaram a surgir em uma velocidade maior do que nossa capacidade de refletir sobre o tema. Com isso, análises importantes sobre como esse avanço tecnológico poderia servir a um propósito maior do que ter eficiência, escala ou virar um unicórnio (empresas bilionárias) acabaram ficando em segundo plano.

A transformação digital carrega o potencial de permitir às organizações resolver os maiores desafios da sociedade, e precisamos começar a questionar para além das metodologias ou boas práticas de como fazê-la. De forma macro, a transformação digital tem duas forças motrizes principais. A primeira são as tecnologias passíveis de serem aplicadas a produtos e serviços. A segunda é a força invisível do mercado que evolui e responde conforme as necessidades dos consumidores.

Apesar de ambas as forças serem importantes historicamente na evolução da sociedade, existem limitações inerentes a elas. Por exemplo, a força invisível do mercado quase sempre está de acordo com as necessidades e os gostos dos stakeholders mais ricos, que acabam sobrepondo as necessidades dos mais pobres. Ou seja, corremos o risco de criar novas tecnologias e soluções digitais incríveis, mas concentradas e servindo a poucos.
O curioso é que esse tipo de questionamento em relação a servir um propósito maior e a ser uma organização mais consciente faz parte de outra agenda que começou a evoluir na última década: a consciência nos negócios.
Da mesma forma que tivemos avanços expressivos na pauta de tecnologia e inovação, muitas lideranças começaram a perceber que existia uma maneira diferente de exponencializar resultados de um negócio por meio da consciência. O fortalecimento de movimentos como o Capitalismo Consciente, as empresas B, a agenda de ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – da ONU começaram a ganhar espaço nos fóruns e nos eventos empresariais. Pela primeira vez, tivemos posicionamentos de grandes mídias, fundos e empresas que validaram a ideia de que as organizações que incorporam um olhar multistakeholder, por meio de uma cultura e lideranças mais conscientes, trazem melhores resultados, inclusive financeiros, no longo prazo.
Temos que cruzar essas agendas e começar a questionar como a transformação digital pode ser feita para servir um propósito maior do que o lucro, ou ainda como podemos direcioná-la para criar prosperidade sócio-econômico-ambiental por meio de produtos e serviços.

## Como fazer?
Em uma tentativa de quebrar o paradoxo de se cruzar essas agendas paralelas, criei um framework (pág. ao lado) que pode ajudar a identificar a maturidade das empresas em relação a dois eixos de transformação: digital e de consciência. De forma simplificada, cruzamos os dois eixos para criar quatro diferentes quadrantes em que as organizações podem se localizar. Assim, a empresa deve questionar sua maturidade como mais ou menos digital e mais ou menos consciente.

A ideia não é aprofundar nos critérios de maturidade de consciência e digital, e sim entender arquétipos e exemplos que se encaixam em cada um dos quadrantes e questionar como é possível sair de um e chegar ao outro.
No quadrante verde estão as empresas que são altamente digitais e altamente conscientes. São organizações que usam a transformação digital como alavanca de prosperidade sócio-econômico-ambiental. São produtos, plataformas, serviços digitais que entregam valor a quem mais precisa, distribuindo poder, capital e transparência.

Já no quadrante laranja concentram-se as empresas com alto impacto, cultura forte e propósito, mas que enfrentam dificuldades de integrar tecnologias para escalar e ser mais eficientes. São cases de sucesso, que inspiram muitos outros a fazerem a transformação da consciência, mas, de certa forma, são pontuais.

O oposto é encontrado nas empresas do quadrante azul, que usam a tecnologia para servir a objetivos financeiros e de negócios, mas não necessariamente geram impacto positivo para a sociedade. Às vezes, a intenção é boa, mas as externalidades que geram são negativas. Como exemplo, é possível citar toda a discussão sobre empresas como a Uber, que inicialmente aparentam ser algo bom para a sociedade como um todo, mas logo revelam desequilíbrios como a baixa remuneração dos motoristas e o plano de descartá-los quando os veículos autônomos se tornarem populares. O problema não é a evolução tecnológica, mas a limitação do modelo de negócio que gera valor desproporcional entre motoristas, usuários e acionistas.

Finalmente, no quadrante rosa, temos empresas que estão no início ou ainda por iniciar a transformação da consciência e a digital, e seu foco principal está no lucro e na busca por eficiência sem tecnologia. Nesse estágio, percebemos que muitas empresas transformam as pessoas em máquinas, enquanto não têm estratégia ou investimentos para trazer máquinas para substituir as pessoas.

## Alguns exemplos
No quadrante verde, é comum vermos organizações como as cooperativas de plataforma. Imagine um negócio nos mesmos moldes de iFood ou Uber Eats (que estão no quadrante azul), mas que cada entregador precisa se tornar associado e adquirir uma quota da cooperativa. Além disso, o conselho de acionistas é composto pelos próprios entregadores, que possuem interesses menos arrojados e agressivos que fundos de investimento de risco tradicionais. Com isso, buscam relações mais saudáveis com os restaurantes com taxas não abusivas.

Na Espanha, a cooperativa de plataforma chamada Mensakas é um bom exemplo. Esse modelo distribui riqueza em vez de explorar o(s) recurso(s) base do modelo de negócio. Aliás, se um dia o Mensakas resolver lançar drones, como está fazendo o iFood, para substituir os entregadores e se tornar muito mais eficiente e escalável, os “sócio-entregadores” passam a participar cada vez mais como acionistas deixando a tecnologia trabalhar para eles, e não o contrário.

Outro exemplo desse quadrante é uma startup ainda em fase de piloto chamada CAIS, que busca criar uma plataforma para trazer mais acesso e coerência na oferta de atenção à saúde primária de forma virtual. A partir de um app, pode-se conectar pequenas equipes de saúde a uma carteira de pacientes, criando linhas e planos de cuidado personalizados para cada pessoa ou comunidade. A ideia é gerar acesso à saúde com baixo custo e ter equipes de saúde que se comprometam no longo prazo com os pacientes, com autonomia e remuneração também segundo o sucesso da saúde dos pacientes.

Uma grande empresa que percebo ter navegado por mais de um quadrante ao longo do tempo é o Magazine Luiza. Começou pouco digital, porém
o propósito maior para além do lucro e a busca por impacto pareciam existir desde a fundação. Já no início de seu processo de transformação digital, a narrativa de consciência nos negócios era colocada como pano de fundo, e logo vieram os primeiros exemplos práticos. Certa vez, ao observar o crescimento de seu e-commerce, em vez de demitir pessoas, o Magalu criou formas para que os vendedores pudessem entender e usar o online para ganhar ainda mais – e não competir com ele.

Além disso, recentemente a gigante varejista declarou que os esforços para consolidar a inclusão digital de empreendedores e consumidores brasileiros da base da pirâmide socioeconômica devem seguir, assim como seus investimentos em inovações tecnológicas. O compromisso com um propósito maior, a inclusão, o cuidado com diversos stakeholders e o uso de suas tecnologias para distribuir e gerar renda fazem do Magazine Luiza um bom exemplo de empresa que está saindo do do quadrante azul em direção ao verde. Mais um exemplo recente foi o chamamento para trainees exclusivo para pessoas negras feito pela rede.

Proporcional ao tamanho do nosso País, as lideranças brasileiras têm desafios imensos: são 10 milhões de pessoas passando fome, mais de 12 milhões de desempregadaos, 150 milhões sem planos de saúde, mais de 100 milhões sem tratamento de esgoto e mais da metade da população adulta não completou o ensino básico obrigatório.

Assim, faço um chamado para que as organizações que já se engajaram na transformação da consciência lembrem que estão na era digital e busquem potencializar seus resultados para não serem casos bonitos que não escalam do jeito que o Brasil precisa. E o contrário também – que empresas que já abraçaram a transformação digital lembrem que estão na era da consciência e que precisam levantar a cabeça e refletir se estão gerando prosperidade para todos em seu entorno.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Isolamento nas empresas não é só físico: é cultural

Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo