Saúde mental, Desenvolvimento pessoal

Por que sentimos culpa por não estarmos ocupados?

Saiu de férias e achou que seria desligado? Fica angustiado sem nada para fazer? Pressionado para estar sempre ocupado? A resposta está em como o seu cérebro percebe o trabalho e como você se relaciona com o julgamento social.
Saiu da periferia de Maceió e se tornou executivo do Facebook no Vale do Silício e Sócio da XP Investimentos. É o fundador da Become, empresa de educação executiva e corporativa. É professor de Neurociências, com aulas ministradas na quarta maior universidade do mundo, UC Berkeley, e Singularity University, ambas na Califórnia. Também é professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi o executivo responsável por trazer o Baidu (o Google chinês) para a América Latina. Também liderou startups chinesas de games sociais, como o Colheita Feliz, e o idealizador da ONG chancelada pela ONU e acelerada por Stanford, Ajude o Pequeno. Siga o colunista no Instagram - [@wesleybarbosa] - e ouça o podcast de Wesley Barbosa, [No Brain No Gain](https://open.spotify.com/episode/3LzGWqyWnLSo07gwUkKa6R?si=QLRGTDmPSo-1bOS5FJrdmA&nd=1),

Compartilhar:

A sugestão do darwinismo é que o sentido da vida seria sobreviver e reproduzir. Dentro destes dois sentidos há universos que direcionam e impactam nossas decisões diariamente.

Se estudarmos os estímulos neuronais para entender como tomamos decisões para nos mantermos vivos, iremos nos deparar com sentimentos bem conhecidos. Um deles é o sentimento de culpa.

Apesar da culpa estar associada ao córtex pré-frontal, a parte do pensamento lógico do cérebro, ela também pode ativar o sistema límbico. Por isso sentimos crises de ansiedade quando nos sentimos culpados.

Entretanto, se formos equacionar o problema desconstruindo os porquês de sua existência, iremos nos deparar com um outro sentimento muito mais impactante que a própria culpa. Aliás, o responsável por você senti-la.

Vamos fazer um exercício rápido: imagine-se em uma tarde de quarta-feira; você não está de férias, nem de folga. É um dia de trabalho normal, mas você escolhe se sentar ao sofá para simplesmente não fazer nada. Alguém te liga e te pergunta o que você está fazendo. Como você iria se sentir?

Veja que, a simples ideia de não fazer nada durante o seu horário de expediente já pode ter te causado aflição. O telefonema fez você se sentir culpado. Mas por que a gente se sente culpado por não fazer nada, mesmo sabendo que o que esperam de nós vai ser entregue?

### A resposta está na vergonha.

Ela é a prima tóxica da culpa, mas nos beneficiou ao longo da nossa transformação genética.

Ambas, a vergonha e a culpa, são estímulos essenciais para nossa sobrevivência, nos favorecendo dentro da seleção natural. Elas são projetadas para evitarmos atos que prejudiquem as pessoas ao nosso redor, fazendo com que nos comportemos melhor no futuro, nos estimulando a pensar duas vezes antes de agir.

O sistema de culpa é projetado para detectar imposição de possíveis danos, pará-los e tomar medidas corretivas. A vergonha nos alerta quando agimos de uma maneira que pode fazer com que o outro nos desvalorize, e não mais nos apoie.

A culpa é um sentimento que desperta uma percepção sobre ter um comportamento que esteja coerente com nossa consciência. Já a vergonha é o medo que temos do julgamento social.

A culpa e a vergonha compartilham algumas redes neurais nas áreas frontal e temporal do cérebro, mas os padrões de suas atuações são diferentes. Enquanto a culpa surge no conflito entre o pensamento e o comportamento, conhecido como dissonância cognitiva, a vergonha é desencadeada quando pensamos que prejudicamos nossa reputação.

O medo de não fazer nada surge do fato de termos uma alta preocupação com o que irão achar de nós, não necessariamente sobre a dissonância cognitiva. Ou seja, você não se sente culpado por não fazer nada, você se sente envergonhado, e a vergonha te fazer sentir a culpa.

Seria como se fazer nada fosse uma ameaça à nossa própria existência. Exagero? Então pense em um cenário onde você está desempregado e vai a uma festa. Quando alguém te pergunta “o que você faz”? Como você reagiria?

[Cientistas da Ludwing Maximilian University](https://academic.oup.com/scan/article/9/2/150/1618662), na Alemanha, através de exames de imagens feitas com a ajuda de FMRI, descobriram que a vergonha desencadeia uma alta atividade na parte direita do cérebro, mas não na amígdala. Já no estado de culpa havia atividade na amígdala e nos lobos frontais, mas menos atividade neural em ambos os hemisférios cerebrais. Conclui-se com isto que, a vergonha, com seus amplos fatores culturais e sociais, é uma emoção muito mais complexa. Enquanto a culpa está ligada aos padrões culturais aprendidos por um indivíduo.

Portanto, tratar a culpa se torna muito mais simples do que tratar a vergonha.

O estímulo maior é realmente o medo, no entanto como a culpa foca nas ações, temos um senso maior de gerenciamento ao retificar nossos erros e aliviarmos nossos sentimentos de culpa. Este senso de gerenciamento faz total diferença na química neuronal.

## Mas o que fazer com estas informações na prática?

A gente deve pensar em o que podemos gerenciar e o que devemos influenciar.

Para o cenário de culpa x vergonha, já sabemos que a culpa é gerenciável através da ampliação da nossa consciência sobre nossos atos, quando escolhemos não fazer nada, podemos refletir sobre os benefícios disto, e sobre os riscos reais, nos dando um conforto sobre a escolha. Já sobre a vergonha, só nos resta influenciar. A gente não controla o que o outro pensa da gente, nem o que sentimos sobre isto, mas podemos influenciar nossa reação ao fato, o que a neurocientista Tara Swart chama de “emoções inteligentes” em seu livro *[Neuroscience for leadership](https://www.amazon.com.br/Neuroscience-Leadership-Harnessing-Brain-Advantage/dp/1137466855/ref=asc_df_1137466855/?tag=googleshopp00-20&linkCode=df0&hvadid=379712558847&hvpos=&hvnetw=g&hvrand=7998867441678079475&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=&hvdev=c&hvdvcmdl=&hvlocint=&hvlocphy=20089&hvtargid=pla-493907965617&psc=1)*.

Algo só se torna fácil quando é socialmente aceitável, por isso devemos, enquanto sociedade, normalizar o “fazer nada”. Desta forma, quando este comportamento virar commodity, não teremos vergonha de tomarmos atitudes que nos farão melhores.

Da próxima vez que não conseguir escolher descansar e buscar estar ocupado, entenda se isto é culpa por estar deixando a bola cair ou apenas vergonha do que irão achar de você caso descubram que resolveu não se ocupar.

Vergonha devemos sentir de escolher fazer algo que não nos faz bem.

[Gravei um podcast sobre o tema](https://open.spotify.com/episode/3kiOQO8Z1tHwmgQcIJpz5k?si=d32f066651564477) com mais informações sobre como gerenciar a culpa e a vergonha.

Compartilhar:

Saiu da periferia de Maceió e se tornou executivo do Facebook no Vale do Silício e Sócio da XP Investimentos. É o fundador da Become, empresa de educação executiva e corporativa. É professor de Neurociências, com aulas ministradas na quarta maior universidade do mundo, UC Berkeley, e Singularity University, ambas na Califórnia. Também é professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi o executivo responsável por trazer o Baidu (o Google chinês) para a América Latina. Também liderou startups chinesas de games sociais, como o Colheita Feliz, e o idealizador da ONG chancelada pela ONU e acelerada por Stanford, Ajude o Pequeno. Siga o colunista no Instagram - [@wesleybarbosa] - e ouça o podcast de Wesley Barbosa, [No Brain No Gain](https://open.spotify.com/episode/3LzGWqyWnLSo07gwUkKa6R?si=QLRGTDmPSo-1bOS5FJrdmA&nd=1),

Artigos relacionados

A energia invisível da liderança – revelando a verdadeira natureza do “Ki” irradiado por Masao Ogura, da Yamato Transport

Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Ageivism: o que acontece quando as organizações envelhecem, mas suas ideias não?

Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de julho de 2026 14H00
Dados mostram o avanço da solidão no ambiente de trabalho, especialmente entre profissionais remotos. O texto propõe uma reflexão sobre como relações de confiança, segurança psicológica e capacidade de convivência se tornaram ativos estratégicos para a saúde organizacional.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de julho de 2026 08H00
Durante décadas, empresas competiram por telas, cliques e atenção. Agora, à medida que agentes inteligentes passam a interpretar intenções e executar tarefas, o valor começa a migrar para outro lugar: dados, contexto e capacidade de decisão.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
12 de julho de 2026 13H00
Durante décadas, o mercado tratou a satisfação do cliente como prioridade absoluta. Este artigo questiona os limites dessa lógica e mostra como a normalização de abusos, agressões e desgastes emocionais está afetando a saúde mental dos trabalhadores e comprometendo a própria cultura das organizações.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
12 de julho de 2026 08H00
Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

Bruno Mazanek - CEO da Zanek

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Finanças
11 de julho de 2026 14H00
O mercado aprendeu a medir estoques, fábricas e patrimônio físico. Mas como medir inteligência, dados e conhecimento? O desafio das empresas hoje não é apenas criar valor, mas desenvolver métricas capazes de reconhecê-lo.

Carolina Almeida Cruz - Cofundadora e CEO da C-MORE

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de julho de 2026 08H00
Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.

Rodrigo Santos - Psicólogo e tutor educacional na Leapy

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de julho de 2026 14h00
O futuro dos caminhões no Brasil será multienergético, e a engenharia nacional terá papel decisivo nessa transformação. Este artigo mostra por que a transição energética do transporte de cargas dependerá da combinação entre múltiplas fontes de energia, inovação tecnológica e soluções adaptadas à realidade do país.

Eduardo Oliveira - Diretor de Engenharia da IVECO para a América Latina

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo