Melhores para o Brasil 2022

Por uma carreira 5.0

Entenda o contexto emergente da sociedade da imaginação e as habilidades necessárias para quem quer ter um lugar ao sol no futuro do trabalho
Carlos Piazza é futurista certificado, consultor polímata e professor da ESPM - São Paulo.

Compartilhar:

Falar do futuro tecnológico é, ao contrário do que muitos imaginam, falar de gente – nunca de tecnologias. Estamos vendo tecnologias exponenciais que, combinadas entre si, vêm mudando a feição da sociedade por meio dos benefícios e das evoluções que proporcionam às pessoas. E isso inclui o trabalho dessas pessoas, naturalmente.

Desde quando o homem esfregou dois gravetos e gerou fogo, as tecnologias criadas por seres humanos no presente contribuem para moldar seu trabalho futuro. Foi assim com a segunda revolução industrial (1850-1950), em que as pessoas viraram máquinas incansáveis de alta produção, submetidas a estruturas monolíticas hierárquicas, a processos sistemáticos e fragmentados, a um conhecimento também fragmentado por um trabalho baseado em especialidades profissionais.

Também foi assim quando, no bojo do fordismo, do toyotismo e do taylorismo, as pessoas abraçaram o mantra “tempo é dinheiro” e a cultura do curto prazo, sujeitando-se a pressões extremas, virando máquinas executoras de tarefas e de processos. Foi assim com a terceira revolução industrial, dos computadores, que aprisionaram as pessoas a planilhas, com a finalidade de produzir dados.

Agora, em poucos anos, veremos a capacidade de simulação de máquinas chegar a 6 mil petaflops (ou seja, 6 mil quatrilhões de cálculos por segundo). E os sistemas cognitivos que combinam a inteligência artificial e a robótica poderão ser muito mais eficazes do que os humanos. Onde ficarão as pessoas nas empresas? Continuarão prisioneiras de planilhas? Pouco provável.

A suspeita é de que três capacidades humanas começam a moldar o trabalho neste momento: o mindset da disrupção (de romper com o status quo), o mindset do paradoxo (de convívio com ele) e a capacidade de articulação e colaboração. Estamos assistindo ao início de uma forma de trabalhar nova, que talvez tenha seu apogeu quando as máquinas chegarem à singularidade, mas essas capacidades devem ajudar na transição.

Quando chegarmos à plenitude dessa nova maneira de trabalhar, as funções nas empresas se dividirão entre máquinas e humanos, que compartilharão as tarefas em estreita colaboração. Serão máquinas criativas usando a criatividade humana, que é o que chamo de “vida 5.0”, um conceito do humano aumentado. Também poderia observar que já está se desenvolvendo a quinta revolução industrial, que coloca algoritmos e os “androrritmos” (termo cunhado por Gerd Leonhard) lado a lado, no ambiente de convergência homem-máquina.

Será um mar de rosas? Não. Mas tem chances de ser melhor do que as formas anteriores.

## As novas habilidades
Todos têm noção do que é um algoritmo; ele já está na linguagem comum de todos, tudo pode ser expresso por um algoritmo, inclusive a vida. Em contrapartida, o grande desconhecido são os androrritmos, marcando o fato de que, quando os humanos entregarem às máquinas tudo aquilo que tiveram de fazer no lugar delas, terão tempo de ser simplesmente humanos, com suas melhores capacidades e skills, adequadas para o contexto que emerge.

Qual é o contexto? Os principais stakeholders do século 21 são as pessoas e o planeta Terra, já que o habitat humano precisa ser recomposto. Essas duas coisas pautam o espírito do tempo. Mas, por conta do crescimento exponencial tecnológico, este mundo traz desafios sem fim. Isso é tão visível e doído como uma fratura exposta. A razão? As estratégias da era industrial não foram desenhadas para o contexto Vuca, que coloca tudo em escala de agilidade supersônica, com alto poder de liquefação do que está à nossa volta, de ressignificação constante, de altíssima complexidade e de ambiguidade.

Em função desse contexto, as mudanças, sejam quais forem, deverão ser rápidas, profundas e altamente imprevisíveis. Além disso, sistemas complexos não apenas mudarão de um estado para outro em alta velocidade, como também estabelecerão um novo paradigma de mudanças contínuas.

Então, quais as habilidades específicas requeridas das pessoas nesse contexto?
A primeira é a capacidade adaptativa. Ela conta muito, claro, mas não se sustenta sozinha. Atreladas a ela estão a polimatia (erudição, ou amplo repertório de conhecimentos), a visão sistêmica, a gestão rizomática do conhecimento (ou seja, o conhecimento não tem começo, fim ou centro, e sim conexões imprevisíveis entre os diferentes conteúdos), o darwinismo digital (que é a capacidade de evoluir continuamente no ambiente digital) e o futurismo estratégico (acompanhado do design do futuro).

Seguindo com a lista, podemos incluir como skills o propósito muito claro, a curiosidade, o pensamento crítico, a imaginação e o fiction thinking e, obviamente, a paixão e a intuição. Sobre paixão, o filósofo Gilles Lipovetsky reforça que o luxo do futuro será o luxo do amor irrestrito sobre o que escolhemos fazer. Sobre intuição, o escritor John Naisbitt chama a atenção para o fato de que, quando há muita informação, deve-se buscar um lastro humano para equilibrá-la, que é a intuição.

Somamos, portanto, sete habilidades, ou doze, se contabilizarmos as cinco capacidades associadas à adaptabilidade.

## A sociedade da imaginação
Basta nos determos em algumas dessas capacidades, como o pensamento crítico, a imaginação e o futurismo, para entender por que temos uma sociedade 5.0 a caminho, e a razão pela qual esta tem sido batizada de “sociedade da imaginação”.
Não é difícil deduzir que, com a abundância de soluções promovidas pelas tecnologias, se colocadas a serviço das pessoas, preserva-se a humanidade. Dito de outro modo, quanto mais tecnologia aportada tivermos, mais humanos seremos – ou, pelo menos, deveremos ser.

O pensamento crítico dos humanos, com seu poder da análise da ambiguidade, é o que forma, quando somado à enorme capacidade de simulação das máquinas, a base da quinta revolução industrial, que, por sua vez, aponta na direção da sociedade 5.0 – uma sociedade completamente centrada no ser humano e suas necessidades.
A imaginação para mudar o mundo e a criatividade para materializar o que foi imaginado são, segundo o Keidanren (a CNI japonesa), o que determina que a sociedade 5.0 será a sociedade da imaginação. Contribuem para isso não apenas o fiction thinking, como já adiantamos, como também o futurismo e o design do futuro – e essas skills ganham uma força sem precedentes.

Como sempre diz o professor e influenciador Peter Bishop, estudar o futuro será tão importante quanto estudar história. Agora, pergunto ao leitor: todos tivemos professores de história, mas você conhece alguém que tenha tido professores de futuro?

O coach de liderança e relacionamentos David Burrus (que de burro não tem nada) costuma de dizer que, agora, é imperativo aprender a nova competência de “antecipar o futuro com precisão”.

## A transição começou
O futuro mora em um lugar escuro que precisa ser urgentemente iluminado com nossa criatividade e imaginação. As respostas não estão mais no passado, e sim nas mudanças que deverão ser propostas para antecipar outras mudanças. Como chegaremos lá?

Essa transição tende a exigir muito das pessoas, e dos gestores em particular. Aí voltamos às capacidades que citamos no início deste texto: articulação/colaboração, o mindset da disrupção e o mindset do paradoxo.
Só posso terminar este artigo citando a sabedoria de dois futuristas de primeira linha. Um é o grande e pioneiro autor Alvin Tofler, para quem “a mudança é o processo pelo qual o futuro invade nossas vidas”. Outro(s) são os Racionais MCs, que cantam para a gente não “esperar o futuro mudar a vida, porque o futuro será somente a consequência do seu presente”.

Quem quiser um lugar (de trabalho e carreira) ao sol no futuro tem de fazer exatamente isso: pegar o futuro em suas mãos e moldá-lo. É esse o lugar dos humanos daqui para a frente.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Executivo, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança.

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo