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Quatro erros evitáveis (e três insights) na retomada da carreira

Com o relativo controle da pandemia e a volta maciça das atividades econômicas, é preciso atenção para não tropeçar em si mesmo na retomada da carreira

Colunista Davi Lago e Augusto Jr

Davi Lago e Augusto Jr

20 de Agosto

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Artigo Quatro erros evitáveis (e três insights) na retomada da carreira

Muita gente não entende o motivo de, mesmo trabalhando tanto, não conseguir atingir grandes resultados. Em diversas casos, não é uma questão externa no mercado, na própria empresa ou no chefe, mas na própria conduta do profissional.

Neste texto, refletiremos sobre aspectos que estão ao alcance de cada pessoa, independente de fatores não controláveis. Evidente que há muitos erros evitáveis na carreira, mas gostaríamos de apontar quatro erros comumente identificados em nossas consultorias profissionais nos últimos meses.

1. Evite o descontrole emocional

Ninguém pode se controlar emocionalmente em seu lugar. Na retomada econômica após a pandemia, recrutadores afirmam que a capacidade de administrar as próprias emoções é um fator diferencial na análise do histórico de candidatos às vagas de emprego. Após um longo período de incertezas e mudanças bruscas no mercado profissional, há maior receptividade aos profissionais habilidosos em seus relacionamentos, empáticos, que não criam problemas desnecessários.

Assim, é importante compreender que o descontrole emocional pode afetar sua carreira de modo contundente. Em 2017, a revista Bloomberg divulgou um vídeo em que Travis Kalanick, então CEO da Uber, discutia com um motorista do aplicativo. Após o acontecimento, o executivo escreveu uma nota aos seus colaboradores: “meu trabalho como líder é liderar e isso começa com um comportamento que deixe a todos orgulhosos. Não foi o que fiz. As críticas que recebemos são um lembrete de que eu preciso mudar como líder e crescer. Esta é a primeira vez que admito que preciso de ajuda para liderar e pretendo obtê-la”. Daniel Goleman, escritor pioneiro sobre carreira e emoções, comentou o episódio(https://www.linkedin.com\pulse\what-ubers-ceo-needs-emotional-intelligence-daniel-goleman\): “o executivo não precisava crescer, ele precisa de inteligência emocional”.

Portanto, seja inteligente, evite chegar ao ponto de estourar. Ao perceber o aumento da ansiedade, irritabilidade, impaciência, seja humilde. Pare um pouco, procure terapia, respire, repense seu comportamento e suas prioridades. Jean Greaves, no livro Inteligência emocional 2.0, chega a afirmar que 58% da performance profissional depende da sua inteligência emocional.

2. Evite a complacência

Nos anos pandêmicos, muitos negócios faliram por completo pelo desdém de seus empreendedores pelas mídias sociais. Apesar de inúmeros estudos, consultorias e publicações afirmarem a importância da presença virtual, muitos gestores simplesmente fizeram pouco caso da tarefa. Hoje, amargam prejuízos enormes que poderiam ser, ao menos, mais leves. Sem uma estrutura eficiente de e-commerce, sem inteligência de mercado virtual, sem setores ativos de inovação e tecnologia, muitas empresas encerraram as atividades com a irrupção da pandemia.

A complacência cobra seu preço. Um antiexemplo notório nos últimos anos foi a derrocada da Nokia. O grupo estagnou na inovação. O telefone Nokia 3310 já foi reconhecido como o melhor já produzido, pois nunca ficava sem bateria e era praticamente indestrutível. Contudo, o modelo foi completamente superado por outros aparelhos produzidos por empresas como Apple e Samsung. Hoje, a Nokia é uma história de sucesso – mas também a história de uma empresa que perdeu seu mojo – passando de 50% do mercado global para 3% em menos de cinco anos.

Rasmus Askersen, empresário no futebol europeu, afirma: “quando uma organização se torna bem-sucedida, ela não luta contra os concorrentes. Ela luta contra si mesma”. Não há dúvida de que no centro do sucesso está a razão do fracasso. A complacência muitas vezes segue como uma sombra do sucesso. Portanto, evite este erro. Os desafios impostos ao mercado de trabalho pela pandemia não podem ser superados com uma atitude acomodada e complacente.

3. Evite o supérfluo

Uma das principais discussões na pandemia ocorreu em torno da questão “o que é essencial?”. Nesta retomada de carreira, o tema não sairá de moda. Diante de tantas incertezas políticas e financeiras, não atire para todos os lados. Autores especialistas em minimalismo comportamental, como Leo Babauta, Carl Newport e Greg McKeown, são unânimes em ensinar que uma carreira relevante não é aquela que faz todas as coisas, mas sim aquela que faz as coisas essenciais.

O desespero em fazer tudo ao mesmo tempo simplesmente não leva a lugar algum. Com tempo, energia e oportunidades limitadas, os profissionais contemporâneos precisam investir no planejamento das atividades, separando o que é essencial para o desenvolvimento da carreira. Aqui vale um ensinamento de liderança atemporal: uma vez identificados e estabelecidos seus objetivos essenciais, é necessário manter a disciplina na execução dos projetos.

Há um exemplo marcante no célebre duelo entre os desbravadores modernos Roald Amundsen e Robert F. Scott. Em 1911, os dois pioneiros empreenderam uma corrida rumo à conquista do polo sul, no inóspito gelo antártico. Amundsen estabeleceu um alvo de percorrer 20 milhas por dia, independente do clima e da situação. A estratégia de Scott foi agressiva e errática, pois percorria o dobro de milhas em um dia, mas recuava em condições adversas.

O resultado é conhecido: Amundsen chegou primeiro, voltou vivo para contar a história e recebeu todas as honras. A condução irregular de Scott não só levou sua equipe ao polo sul depois, como terminou em tragédia. Infelizmente todos na equipe de Scott morreram de exaustão, fome e frio na volta para as embarcações. A disciplina naquilo que é essencial faz toda a diferença. Mais do que alcançar marcas pioneiras, Amundsen preservou o essencial, sua própria vida.

4. Evite o cinismo

Popularizou-se, no período pandêmico, o termo “positividade tóxica” para definir o comportamento de pessoas completamente alienadas do sofrimento real da sociedade. É óbvio que este tipo de otimismo infantilizado, vazio e infundado não é levado a sério por recrutadores. Contudo, o outro extremo é igualmente problemático.

Os profissionais que envenenam ambientes com cinismo são plenamente dispensáveis. Machado de Assis disse que o “cinismo é a sinceridade dos patifes”. Assim, evite uma atitude cínica, pois ela mina não só sua equipe, mas sua própria carreira. A psicologia social associa o cinismo e a desmotivação com a incapacidade de lidar com os desafios de modo emocionalmente saudável.

Vale ressaltar que, em 2018, a OMS declarou que o Brasil sofre uma epidemia de ansiedade. É necessário prudência, pois alimentar a ansiedade com cinismo pode tirar o sono, causar diversas fobias e chegar a incapacitar a pessoa para as tarefas do dia a dia.

Insights para sua carreira

Não perca energia com mudanças que não dependem de você: é fundamental na carreira entender o que depende exclusivamente de você, o que depende parcialmente de você e o que não depende de modo nenhum de você. Quanto mais rápido você identifica o que simplesmente não depende de modo algum de você, mais rápido você deixa de drenar energia com atividades inúteis.

Identifique quais destes erros você tem cometido: cultive autoconsciência, converse com sua liderança, colegas de trabalho, pessoas de confiança, conselheiros, familiares, amigos, consultores para identificar quais desses sintomas eventualmente estejam atrapalhando sua carreira.

Defina uma prioridade e crie um plano de ação para se desenvolver nesse ponto: não esqueça que hábitos arraigados não são imediatamente removidos do nosso dia a dia. Portanto, entenda que é um processo e viva, passo a passo, o processo de eliminação dos erros evitáveis na carreira.

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Colunista

Colunista Davi Lago e Augusto Jr

Davi Lago e Augusto Jr

Perspectivas de carreira

Davi Lago é professor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP e autor do best-seller em produtividade "Formigas" (Editora MC). Augusto Jr é diretor executivo do Instituto Anga e professor convidado da Fundação Dom Cabral. 

Eles escrevem mensalmente para a coluna Perspectivas de carreira.

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