Reportagem – Planejamento tático-operacional

Prepare-se para a emergência climática

A definição de “crise climática” foi atualizada; o que vivemos hoje é uma emergência global. Veja os caminhos possíveis para sua empresa agir, começando por planejar
Colaboradora da __HSM Management__

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Já não é possível dissociar as mudanças climáticas do aumento na frequência e na intensidade dos eventos extremos. O que o gestor tem com isso? Tudo. Não há resiliência nem eficiência quando o contexto é desfavorável. Práticas sustentáveis já são adotadas por grande parte das organizações, como mostra a pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças em São Paulo (Ibef-SP), com apoio da consultoria PwC Brasil, que revelou que 64% das companhias declaram ter ações ESG atreladas à gestão.

No momento de traçar os planos, algumas miram as diretrizes dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, cujo item 1 é, não por acaso, a erradicação da pobreza. Quem mais sofre os efeitos das mudanças climáticas são, afinal, os mais pobres.

__Leia também: [O relato de quem estava na COP27](http://revistahsm.com.br/post/o-que-a-cop27-tem-a-ver-com-voce)__

Outro termômetro do crescimento da adoção de estratégias ESG pelas empresas da América Latina está no estudo “Sustentabilidade na Agenda dos Líderes Latino-Americanos”. Segundo o levantamento, o número de empresas brasileiras com programas ESG saltou 26 pontos percentuais em um ano. Além disso, 69% dos executivos disseram que suas empresas já adotaram estratégias de sustentabilidade – em 2021, eram 46%.

A tendência é de alta, pois 30% acrescentaram mais pilares relacionados aos ODS nos últimos 12 meses, e 40% esperam aumentar os investimentos em sustentabilidade em 2022 em relação a 2021. “O Brasil é o país que apresenta o maior volume de organizações que afirmaram conseguir colocar em prática estratégias de sustentabilidade, com 20%. Depois vêm Colômbia (15%), México (14%) e Argentina (9%)”, diz Pedro Pereira, diretor de sustentabilidade da SAP para América Latina e Caribe. Ele crê que houve um avanço nos últimos anos, e boa parte das empresas não age apenas para manter a reputação. “Enxergamos uma maior conscientização de executivos sobre a importância da pauta ESG, o que vai significar uma maior procura por soluções tecnológicas.” Cristina Palmaka, presidente da SAP para América Latina e Caribe, vê que as organizações cada vez mais associam a busca por resultados à sustentabilidade. “Consumidores e investidores estão inclinados a escolher empresas responsáveis”, afirma.

## Tecnologias de captura de gases
Uma das iniciativas promissoras avança sob a batuta do empreendedor Paulo Pietrobon. Entre outras empresas na área ambiental, ele é diretor de projetos e de relações institucionais da startup DeCarb, que desenvolveu uma tecnologia para a captura dos gases de efeito estufa (GEE), diretamente de tubulações industriais. “Há uma corrida mundial pelas tecnologias de mitigação dos GEE. O diferencial da nossa é ser preventiva, ela faz uma espécie de logística reversa do gás carbônico”, diz o empresário.

Uma mineradora transnacional é a principal investidora e cliente da DeCarb. O plano é que o equipamento entre em operação entre 2025 e 2026, primeiramente para atender a essa companhia. A ideia é adotar três estratégias de monetização: venda do próprio equipamento para indústrias, comercialização do gás carbônico (para fábricas de bebidas, por exemplo) e venda de créditos de carbono.

## Parcerias sustentáveis
Ser a ponte para a criação de parceiras sustentáveis é o negócio da Greentech. A startup, fundada em 2019 por Tiago Brasil, foi criada para funcionar como um hub digital que reúne projetos e iniciativas de corporações, investidores e governos. O Greentech Business, evento anual promovido para conectar desenvolvedores com tomadores de decisão e empresas em busca de soluções ESG, chegou à 4ª edição em 2022.

A plataforma agrega mais de 800 soluções, como a tecnologia inventada pela Um Grau e Meio, que usa inteligência artificial na redução de incêndios florestais. O equipamento, apelidado de Pantera, envia alertas aos brigadistas e já está sendo usado na Serra do Amolar, local de difícil acesso no Pantanal (MS), onde um incêndio pode demorar dias até ser reportado.

O videomonitoramento do Pantera detecta pequenos focos e cobre uma área maior que a do Sergipe. A ideia é evitar devastações como a de 2020, quando 26% do bioma foram queimados. “Nós temos o orgulho de ter estabelecido essa ponte”, diz Brasil. “A empresa Um Grau e Meio cresceu acreditando na própria ideia, hoje tem 30 clientes.”

O evento *Greentech Business*, que já contava com o apoio de nomes como 2W Energia e Heineken, recebeu convite para integrar a plataforma da aceleradora americana Global Ventures, que já estabeleceu mais de 50 conexões para soluções nas áreas de eficiência energética, consumo de água, limpeza do ar e finanças verdes, entre outras.

## Soluções baseadas na natureza
Mais de 1.100 cidades, que representam um quarto das emissões globais de gás carbônico, juntaram-se à iniciativa “Cities Race do Zero”, na COP26. Ao fazer isso, esses municípios se comprometeram com ações locais para derrubar pela metade as emissões de GEE até 2030. Na COP27, o número de signatários aumentou para 1.143 membros, incluindo 49 cidades brasileiras. Entre as ações em curso estão a eletrificação de 30% da frota de ônibus BRT em Salvador (BA) e os projetos de parques lineares em Campinas (SP), entre outras soluções baseadas na natureza (SBN), termo criado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) para definir um conceito que inclui abordagens para a restauração e conservação de ecossistemas, serviços de adaptação climática e gerenciamento de recursos naturais, entre outras.

Entre as SBNs sendo implementadas, estão os telhados verdes de prédios de São Paulo. Eles captam água da chuva e ajudam a reduzir o gasto de energia e os níveis de ruídos nos edifícios. Os benefícios não ficam limitados ao prédio. Os topos de edifícios convencionais refletem a radiação solar, devolvendo calor para a atmosfera. Com plantas, eles absorvem essa energia.

Sem contar o conforto térmico. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que a amplitude térmica, a diferença entre as temperaturas máxima e mínima, em um dia de verão nesses edifícios é 6,7ºC menor do que em prédios convencionais.

Algumas cidades já incentivam financeiramente a prática. Na Argentina, há desconto de impostos para quem implanta a solução. Chicago, nos Estados Unidos, passou a pagar para empreendedores incluírem essas áreas no topo de novos edifícios, o que ajudou na redução de 36% dos alagamentos na cidade, segundo o World Resources Institute (WRI). Chicago viu até surgir uma empresa especializada em cultivar alimentos nesses jardins. Para São Paulo, é uma óbvia medida que pode ajudar a evitar os alagamentos.

## Um exemplo prático: Malwee
O que uma fábrica de roupas tem a ver com descarbonização? Muita coisa. Para começo de conversa, essa é uma das indústrias que mais consomem água e energia. Buscando mitigar esses efeitos, em 2019, o Grupo Malwee foi a primeira empresa brasileira do setor a assinar o compromisso global “Business Ambition for 1.5°C: Our Only Future”, lançado pela ONU para unir esforços para limitar o aumento da temperatura média global em no máximo 1,5ºC.

Em 2021, durante a COP 26, a empresa lançou seu Plano ESG 2030, com meta de reduzir em pelo menos 50% a emissão de GEEs na operação. “São 15 metas, e tivemos resultados positivos em todas, superamos a meta em nove delas, dando destaque para a redução de 75% das emissões de gases de efeito estufa na troca de matriz energética e investindo em eficiência de processo”, afirma Renato Martins, gerente de projetos ESG do Grupo Malwee.

COMO DISSE ANTÓNIO GUTERRES, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na sessão de abertura da COP 27, que aconteceu em novembro de 2022: “Rumamos para o inferno climático com o pé no acelerador. É preciso descarbonizar se quisermos continuar vivendo neste planeta de modo razoavelmente confortável”. Essas aspas mereciam estar nas paredes dos escritórios; empresas têm influência enorme no que vai acontecer.

Uma má notícia

Uma das medidas concretas e imediatas que poderiam ajudar bastante a limitar o aumento da temperatura terrestre já estava prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em 2010 e determinada para ocorrer até 2014: a erradicação dos lixões. Mas até hoje não efetivada.

Luiz Gonzaga, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), lembra que os resíduos sólidos foram responsáveis, em 2021, pela emissão de 60,04 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). Se somados aos efluentes líquidos também presentes no lixo urbano, chegam a 91,12 milhões de toneladas. Isso representa cerca de 5% do total de gases de efeito estufa do território nacional, de acordo com dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Embora haja melhora nos últimos anos, a situação está longe de ser animadora. Nas contas da entidade, ao final de 2018 existiam no Brasil 3.257 lixões, número que caiu para 807 em setembro de 2022, mas a demanda tem aumentado. Seria necessária a construção de 490 novos aterros sanitários para atender a ela, ao custo de R$ 2,6 bilhões, de acordo com estudo da Abetre. É preciso mais empenho do governo e da legislatura.

Uma reciclagem-chave da era digital

Isso precisa estar na agenda dos gestores – no curto prazo

As empresas de tecnologia que definem a atual era competitiva podem dar uma ajuda e tanto para a descarbonização. Mas também são um obstáculo. Sergio de Carvalho Mauricio, presidente da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree), explica o porquê e o que fazer a respeito.

O que essa quantidade imensa de eletrônicos gera de efeitos?
Quando os eletroeletrônicos são descartados de modo inadequado, contaminam o meio ambiente, comprometem aterros sanitários e podem trazer sérios problemas à saúde humana. Eles têm vários materiais de difícil degradação, e alguns têm metais pesados e gases refrigerantes, que geram muitos gases de efeito estufa.

Eletrônicos podem ser prejudiciais desde o início de sua produção, não?
Sem dúvida. Porque, segundo a Ellen MacArthur Foundation, 75% de toda a energia gasta pela indústria é consumida na extração e refinamento de matéria-prima. Isso torna o descarte consciente de eletroeletrônicos e eletrodomésticos em final de vida útil ainda mais importante, porque precisamos fazer tudo para compensar esse início.

O descarte adequado compensa isso e evitam os efeitos citados antes?
Sim, é uma forma simples com a qual todos podemos contribuir. Permite a transformação dos materiais de sua composição em matérias-primas recicladas, que podem ser reinseridas na cadeia produtiva.

É possível calcular os ganhos da reciclagem?
Por enquanto não, mas será. O cálculo correto depende de diversos fatores, como alta demanda energética também na reciclagem, dependência do uso de combustíveis fósseis no processamento, tipo de tecnologia usada, distâncias percorridas na destinação dos resíduos, nível de aproveitamento da matéria-prima reciclada.

(L.H.C.)

__Leia também: [O que a COP27 tem a ver com você ](https://revistahsm.com.br/post/o-que-a-cop27-tem-a-ver-com-voce)__

Reportagem publicada na HSM Management nº 155

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