Uncategorized

Quando você tem que acertar as contas – e se orgulha disso

Eu era criança quando a Eco-92 foi realizada. Décadas se passaram, as questões críticas ainda estão aí para serem resolvidas e já não dá mais para passarmos a bola para as futuras gerações. A boa notícia? Se mantivermos uma postura proativa, é possível, sim, acelerar as coisas e então acertar as contas com o planeta.

Compartilhar:

Eu era criança ainda, mas lembro como se fosse hoje quando a maior revista semanal do país chegou à casa da minha avó naquele domingo. Fazia sol lá fora, num dia iluminado, o que me fez pensar que as coisas podiam ser diferentes dali pra frente. Ela devia ter umas duzentas páginas. Era pesada, tinha um globo no centro da capa e tratava da Eco-92, mencionada como “a maior conferência ecológica da história”.

Vinte anos se passaram e precisamos de um novo evento – Rio+20 – para tentar resolver questões críticas. Não foi suficiente. Assim como de fato não é suficiente discutir apenas a questão de meio ambiente. Ela é mais complexa e, como tudo o que é assim, exige um olhar mais aberto, inclusivo e generoso sobre o que nos cerca. 

A sustentabilidade, como um todo, vale a pena ser discutida. E nossa geração de líderes tem uma responsabilidade extra – não parece ser possível passar o bastão para a próxima geração resolver o problema. Ele é nosso, e precisa ser resolvido agora. Ou, sendo mais específica e realista, as soluções precisam ser aceleradas agora. 

Quando vemos o tema sendo destacado em uma revista como HSM Management, esse é o chamamento. Ainda que cada vez mais tenhamos dados e fatos na mão, a nossa geração ainda titubeia quando tem que tomar decisões que sejam boas para hoje, amanhã e sempre. Por que isso acontece? Por que ainda não estamos tão convencidos de que as empresas precisam tomar partido da sustentabilidade e garantir que as suas ações não impactem o meio ambiente, como tem acontecido hoje? 

Claro que já há muitas exceções. Como vimos na matéria de capa da edição 133 desta revista, quando a discussão de sustentabilidade chega aos fóruns de investimento, a coisa começa a mudar. Larry Flink, CEO da Black Rock – a maior gestora de ativos financeiros do mundo – é um dos exemplos de líderes que começaram a olhar com mais cuidado o custo da falta de sustentabilidade. Ele é ruim para o planeta, mas também é ruim para a reputação das empresas. São passivos que se tornam cada vez maiores e passam a custar mais, quando investidores começam a ter opção de investir em outros tipos de empresa que apresentam menos riscos. 

Pelo segundo ano consecutivo, Flink reforça a importância da consciência socioambiental em sua carta aos acionistas. Quanto mais líderes tiverem essa postura, mais fácil será resolver questões relacionadas à sustentabilidade. Mas eu tenho uma má notícia: não depende só deles. Depende da liderança média da empresa, assim como dos diretores e CEOs de cada subsidiária, e também de cada CEO global. A gente já tem em quem se inspirar. Agora precisa trazer a inspiração para o movimento de transpiração. Não é fácil colocar em prática, mas é absolutamente necessário. 

Tive a sorte de trabalhar em empresas que também tinham essa preocupação – longe de serem perfeitas, tinham ações afirmativas consistentes que nos ajudavam a redesenhar o papel dos gestores. 

Aqui eu queria convidar a todos para uma conversa olho no olho, de gestor para gestor. A gente sempre fala “nas empresas” que fazem ou que deixam de tomar ações críticas para a sustentabilidade. Mas, por trás de “empresas”, o que a gente encontra é gente de carne e osso mais ou menos sensibilizada por tomar decisões que tenham impacto no longo prazo. 

Quando a gente personaliza o assunto, estamos falando de como estamos preparados para entender e tomar decisões baseados em conceitos mais abrangentes que o resultado imediato da nossa empresa. É hora de irmos além, de pensarmos em cadeia. As nossas decisões de hoje afetarão as pessoas e o planeta. 

São muitas as formas de nos engajarmos nessa temática para tomar boas decisões. Antes de qualquer coisa vale a pena dizermos o que são boas decisões: aquelas que são boas para as pessoas, para as empresas e para o planeta/sociedade. O desafio aqui é do “e” em vez de pensarmos em “ou”. Que decisões podem beneficiar a todos? Onde buscar esse equilíbrio? Como reduzir danos? 

Quando comecei a me engajar nessa temática e aprofundar meu conhecimento sobre o que é possível/necessário fazer, me vi invadida por mil pensamentos, dúvidas e aflições. A seguir, compartilho um pouco das questões que hoje me ajudam a participar mais ativamente das discussões relacionadas ao tema. 

**É PRECISO CONHECER MAIS E MELHOR**

Não só do nosso negócio, mas do impacto do nosso negócio no nosso entorno. Significa conhecer mais sobre a nossa cadeia de valor. Numa das empresas em que eu trabalhei, ainda como estagiária, conheci a dona Jandira. Ela tinha quase 70 anos e continuava trabalhando lá como copeira. Quando chovia muito, dona Jandira chegava atrasada, porque as ruas perto do bairro alagavam e ela não conseguia sequer sair de casa. Muitas vezes, ficava para evitar que a água invadisse tudo. Eu, que sempre vivi uma situação mais ou menos privilegiada, começava ali a entender o problema da minha cidade. 

**É PRECISO TER METAS E COMPROMISSO COM ELAS**

Conhecer os problemas do nosso entorno é apenas uma das coisas que a gente pode fazer para tomar uma decisão melhor (seja do ponto de vista pessoal ou profissional). Outra atitude possível, agora no âmbito da empresa, é medir o nosso impacto. Assim a gente consegue saber por onde começar. Quando tomamos essa decisão, é preciso acompanhar a nossa performance para mudar a realidade. Hoje, na Toyota, isso faz parte do meu trabalho. A empresa tem um compromisso global com o meio ambiente, que foi anunciado como Desafio Ambiental Toyota 2050. Desde que foi criado, em 2010, fazemos planos de médio e longo prazo, que são compartilhados e discutidos por toda a gestão, incluindo o presidente. 

Um dos maiores desafios é a intenção de reduzir as emissões de nossos veículos em 90% até 2050, quando comparadas com as emissões de 2010. Na prática, isso significa que, em breve, deixaremos de fabricar carros exclusivamente movidos a combustíveis fósseis. No fim de 2019 devemos ter nove modelos com tecnologia híbrida disponíveis no Brasil, ou seja, carros que geram energia no próprio motor a partir da aceleração e da frenagem, sem necessidade de fornecimento externo de energia. Ao formular o plano, as atividades ambientais foram categorizadas em seis desafios, sendo três relacionado a zero emissão de CO2 (uso do veículo, ciclo de vida e fabricação) e mais três ligados à geração de impactos positivos (água, reciclagem e harmonia com a natureza). Os avanços concretos podem ser vistos nos investimentos que resultam na redução de consumo de energia e consequente redução da emissão de CO2, na compra de energia elétrica 100% renovável desde 2015, na redução do consumo de água para a fabricação de veículos e ainda na redução de emissão de compostos orgânicos voláteis (VOC em inglês, de Volatile Organic Compounds). Mas sabemos que temos muito trabalho pela frente e estamos acelerando o processo a partir de ações que tenham a ver com a matriz de materialidade da empresa. 

**É PRECISO SER MULTIDIRECIONAL, ENVOLVER QUEM IMPORTA E CUIDAR DO QUE É ESSENCIAL**

Está aqui o desafio mais intenso. Comecemos dentro de casa. Nossos colegas sabem o quanto o tema é importante? Eles se interessam por isso? Será que a gente fez todo o esforço para que todos façam parte e ajudem a construir essa história? Agora vamos para fora, para o mundo. Num contexto em que stakeholder é quem se considera como tal, como falar com os stakeholders corretos? Há alguém que ficaria de fora de uma discussão que envolve a nossa condição de seres deste planeta? O desastre em Mariana e Brumadinho estão aí para nos ajudar a refletir. O diálogo com diferentes audiências é fundamental para entendermos o que importa e o que é possível fazer. Diálogo em si não é fácil. A empresa pode ouvir muita coisa dura, difícil de lidar. E aí? A gente tem disposição mesmo para fazer a diferença? Ações sociais são lindas, mas não adianta plantar árvore, fazer doação e voluntariado se a gente não olha para o centro do negócio para verificar se a ação fim da empresa está acontecendo da melhor forma que pode. Essa é a grande discussão. É isso que vira o jogo.

Pequenas ações contam. Pequenas experiências também.Eu me lembro de uma longa discussão em outra empresa que trabalhei sobre como trocar as latas de lixo das mesas dos empregados. Na época, acho que chegamos a trocá-las por caixas menores de papelão. Eis que eu mudo de empresa novamente e quando chego, cadê a caixa de papelão? Não tem! Mas e o meu lixo? Preciso caminhar uns 50 metros até a lixeira mais próxima. Conclusão 1: eu gero menos lixo. Em outra oportunidade, uma colega, que nada tem a ver com a área de Sustentabilidade, vem me dar de presente um copo de silicone para eu substituir pelos copos plásticos. Conclusão 2: eu não saio mais sem meu copo. Não uso mais plástico. Dispenso canudo. Evito todo tipo de resíduo que não é necessário. A mobilização da minha colega mexeu comigo. E continuo aprendendo com ela todos os dias. 

**É PRECISO DEIXAR SABER.**

Participei recentemente de um fórum com gestores de Comunicação e Sustentabilidade em que se debatia o futuro desse tema num contexto em que o Brasil parece afrouxar as regras e as obrigações. Resultado bom de se ver: as empresas fazem o que entendem que é necessário fazer. O compromisso de ser verdadeiramente um importante ator global num mundo globalizado fala mais alto do que regras específicas de um país ou outro. Ouvir essas histórias, fortalecer o coro, e ajudar outras empresas a ver que é necessária uma nova conduta (e, por que não dizer, uma nova ética?) faz muita diferença. Mostra que não estamos falando apenas de decisões isoladas. 

Os céticos perguntarão se é suficiente. Não, não é. É preciso fazer mais, é preciso fazer rápido. O bom é que há muito por fazer e cada gestor pode encontrar a sua forma de fazer. Comece pequeno, mas siga adiante. Lembro também que, na minha época de faculdade, estava lendo o jornal e vi a propaganda de um banco que dizia mais ou menos assim: “queremos ser o banco da sua vida, ainda que você não seja nosso correntista”. Está aí um bom princípio, de um banco (o finado Banco Real) que criou um novo jeito de fazer negócio, considerando novas abordagens. Ache outras pessoas para ajudar, participe de boas conversas, dê o exemplo e garanta que, quando olhar para trás, seu legado seja robusto e você tenha o prazer de contar isso a alguém e estimular mais e mais gente a fazer o mesmo. É hora de acertarmos as contas – tomamos decisões no passado que custaram muito a pessoas e ao planeta. Agora, redefinir os rumos está na força da nossa caneta. Isso não precisa significar menos lucro. Precisa demonstrar que a gente pode ter lucro, mas ele não precisa ser selvagem. #vaicomtudo

Compartilhar:

Artigos relacionados

IA como álibi das decisões não pensadas

Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

O problema não começa no canteiro. Só fica visível nele.

Atrasos, mudanças de escopo e disputas contratuais costumam ser tratados como falhas da execução. O artigo argumenta que, na maioria dos casos, os conflitos já estavam contratados desde o início, em escopos incompletos, riscos mal distribuídos e orçamentos desconectados da realidade do projeto.

Executivos estão estudando contabilidade para chegar ao C-level. Eu fiz o caminho inverso.

O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
4 de novembro de 2026 14H00
Mais do que decidir quanto automatizar, líderes e organizações precisarão aprender a desenhar processos que combinem criatividade, julgamento, validação e execução para gerar resultados melhores do que aqueles que humanos ou máquinas seriam capazes de produzir isoladamente.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

16 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de novembro de 2026
Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

Camila Besseler - Fundadora e CEO da mCMOs, ecossistema para mulheres da alta liderança em marketing, growth e receita. Tem 25 anos de experiência na interseção entre estratégia, marca, dados e receita, com passagens por Grupo Tigre e CI&T. Estuda sistemas — o marketing é um deles — e escreve sobre estratégia, mercado e melhores decisões.

0 min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
4 de novembro de 2026 08H00
Atrasos, mudanças de escopo e disputas contratuais costumam ser tratados como falhas da execução. O artigo argumenta que, na maioria dos casos, os conflitos já estavam contratados desde o início, em escopos incompletos, riscos mal distribuídos e orçamentos desconectados da realidade do projeto.

Nayron Russo - Advogado e sócio do escritório Aroeira Salles

4 minutos min de leitura
Liderança
3 de novembro de 2026 14H00
O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
ESG
3 de novembro de 2026 08H00
Velocidade, por si só, não garante melhores decisões. A partir das recentes mudanças nos processos normativos da CVM, o artigo propõe uma reflexão sobre os desafios de conciliar eficiência, excelência técnica e diversidade de perspectivas na construção regulatória.

Renata Oliva Battiferro - Diretora Executiva e Head do Investors Group do 30% Club Brazil

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de novembro de 2026 15H00
Dados não estruturados, documentos físicos e processos legados impactam a adoção da IA e por que a automação inteligente se tornou uma peça-chave dessa transformação. O texto explora por que a preparação dos dados pode ser mais importante do que a própria tecnologia.

Alexandre Cardoso - Business Development Manager da Ricoh LATAM

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de novembro de 2026 08H00
O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

Ricardo Moraes - Sócio-líder de segurança cibernética e Daniel Pacheco - Sócio-líder de consultoria em tecnologia da KPMG no Brasil

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
1º de novembro de 2026 15H00
O mercado de saúde vive um novo ciclo de fusões e aquisições impulsionado pela busca por capacidades estratégicas já consolidadas. O texto mostra como infraestrutura, conhecimento regulatório, tecnologia e acesso a clientes estão se tornando ativos cada vez mais valiosos para empresas que precisam acelerar sua expansão.

Sergio Luconi - Sócio-diretor da Zaxo M&A Partners

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
1º de novembro de 2026 08H00
O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

José Roberto Meirelles - Sócio da área de mercado de capitais e fundos de investimento do Silveiro Advogados

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Liderança
31 de outubro de 2026 15H00
A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

André Naves - Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP, Comendador Cultural, Escritor e Professor

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

CAPA_HSM_30_ANOS-1_pages-to-jpg-0001

Acesse agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #175

EDIÇÃO ESPECIAL DE 30 ANOS DA HSM MANAGEMENT