Diversidade

Quase 50% das vagas para PcDs no Brasil estão desocupadas

Além de multas, empresas que não cumprem lei de cotas perdem muito mais, incluindo impacto negativo de imagem entre seus funcionários
Sandra Regina da Silva é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Em 24 de julho de 1991, a lei nº 8.213 foi promulgada. Conhecida como lei de cotas, ela determina que empresas com mais de cem funcionários reservem um pequeno percentual (entre 2% e 5%, dependendo do porte) para pessoas com deficiência (PcD). Já se passaram 31 anos, mas, segundo o último levantamento divulgado pelo Ministério do Trabalho, apenas 53% das pouco mais de 700 mil vagas reservadas a PcD no Brasil estavam ocupadas em 2019.

O que a falta de oportunidades a essas pessoas soa para os funcionários de sua empresa? Será que eles se dão conta? A resposta é que os trabalhadores estão atentos e, pior, conscientes quando as empresas não estão alinhadas à inserção de PcD em seus times.

Essa é uma das conclusões da pesquisa global “People at Work 2022: A Global Workforce View”, feita pelo ADP Research Institute. O estudo indicou que apenas 37% dos trabalhadores consultados entendem que pessoas com deficiência estão igualmente representadas em seus respectivos ambientes profissionais.

A pesquisa ouviu 33 mil pessoas em 17 países, incluindo o Brasil. Pela primeira vez, ela abordou o tema da inclusão de pessoas com deficiência em seu levantamento. “Esse percentual (de 37%) mostra que ainda temos um longo caminho pela frente quando falamos sobre igualdade no trabalho”, diz Mariane Guerra, vice-presidente de RH para a América Latina da ADP.

Guerra percebe que as empresas já entenderam que a diversidade, em todas as possíveis frentes, traz valor importante, visões diferentes e crescimento cultural relevante. “Elas somente não sabem ainda como colocar isso em prática.”.

## Como fazer?
“O primeiro passo é não tratar os iguais como diferentes. Causa-me muito espanto ainda termos vagas que são para PcDs e vagas que são para não-PcDs. É verdade que para determinadas vagas é fundamental que a pessoa tenha uma audição perfeita ou agilidade corporal. Mas, para a imensa maioria das oportunidades, não tem qualquer importância”, analisa Guerra.

Afinal, qual a diferença, para um cargo de analista administrativo, por exemplo, em que a pessoa terá atribuições de escritório, se ela é PcD ou não? Na opinião da VP, não há diferença, só é preciso se qualificar – o que vale para todos os profissionais. “Não é necessário recorrer a pesquisas. Trabalhadores com melhores capacitações são aqueles que recebem os melhores salários, que ocupam as melhores vagas. Ser ou não PcD, nesse movimento, é secundário”, diz.

Para as pessoas que querem se qualificar, mas não dispõem de condições financeiras para tal, ela indica cursos de curta duração, muitos deles oferecidos gratuitamente na internet ou em instituições como Sesi, Senai e afins. Já no âmbito corporativo, foi preciso a Lei de Cotas para consolidar os direitos dessas pessoas no mercado de trabalho.

Possivelmente, só a criação de uma política de capacitação direcionada exclusivamente a PcDs fará com que mais empresas invistam em treinamentos para que profissionais estejam aptos a ocupar os espaços reservados. “As vagas existem e as empresas pagam multas por não preenchê-las”, lembra Guerra.

Ela cita dados da instituição ADD International: 15% da população mundial é constituída por pessoas com deficiência, ou seja, são cerca de 1 bilhão de indivíduos. “Se pensarmos exclusivamente no Brasil, estamos falando de um número próximo a 32 milhões de cidadãos. Não se pode virar as costas para essas pessoas, sob pena de desperdiçarmos um volume sem precedentes de talentos”, explica.

Comparando ao passado, porém, houve avanços. Gestores sabem dos ganhos que podem obter quando têm pessoas com perfis variados nas equipes. Só que “as empresas, guardadas exceções que merecem destaque, ainda olham mais para as deficiências físicas dos candidatos do que para suas qualificações profissionais.

O mesmo vale, infelizmente, para a cor da pele ou a orientação sexual do candidato”, afirma a executiva. Em última análise, segundo ela, a falta de diversidade em uma empresa significa deixar “de ganhar dinheiro por contratar sempre o mesmo perfil de profissional”.

## Além da inclusão
O estudo vai muito além da questão de inclusão. Ele explora as atitudes dos colaboradores em relação ao mundo corporativo e o que esperam do local de trabalho no futuro. Mariane Guerra conta que a pesquisa confirmou um movimento gerado pela pandemia, que é o das pessoas repensando suas vidas como um todo.

“Creio que momentos de ruptura como o que enfrentamos nos últimos dois anos geram tais reflexões. ‘O que é mais importante para mim’ resume bem este momento”, diz. De fato, ainda segundo a pesquisa, quatro em cada cinco brasileiros estariam dispostos a trocar de profissão em nome do sucesso na carreira.

“Isso mostra que as pessoas estão focadas em buscar a sua satisfação pessoal. E o mundo do trabalho nunca fez tanto sentido para a busca desse objetivo. Não digo apenas pelo home office, que trouxe o trabalho para dentro de nossas casas. Mas entender que o meu dia de trabalho é apenas parte do meu dia é hoje uma agradável constatação”, explica Guerra.

O recorte latino-americano da pesquisa indica que os trabalhadores locais dão mais valor às oportunidades de progressão na carreira do que nas outras partes do mundo. Isso é ainda mais pronunciado no Brasil (35% apontaram como fator importante). Na Argentina e no Chile o índice ficou em 27% e 25%, respectivamente.

As empresas precisam estar atentas e corresponder às expectativas de seus talentos. Se todos estivessem satisfeitos, talvez os brasileiros – e demais latino-americanos – não expressariam a vontade de empreender com tanta intensidade. “Nos três países latino-americanos estudados, o desejo dos trabalhadores de montar seu próprio negócio é muito mais forte do que em qualquer outro lugar do mundo”, conclui a executiva.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura
ESG
30 de dezembro de 2025
No dia 31 de dezembro de 2025 acaba o prazo para adesão voluntária às normas IFRS S1 e S2. Se sua empresa ainda acha que tem tempo, cuidado: 2026 não vai esperar. ESG deixou de ser discurso - é regra do jogo, e quem não se mover agora ficará fora dele

Eliana Camejo - Conselheira de Administração pelo IBGC e Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Aprendizado
30 de dezembro de 2025
Crédito caro, políticas públicas em transição, crise dos caminhões e riscos globais expuseram fragilidades e forçaram a indústria automotiva brasileira a rever expectativas, estratégias e modelos de negócio em 2025

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de dezembro de 2025
Automação não é sobre substituir pessoas, mas sobre devolver tempo e propósito: eliminar tarefas repetitivas é a chave para engajamento, retenção e uma gestão mais estratégica.

Tiago Amor - CEO da Lecom

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança