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Quem tem medo de Stephen Wolfram?

O inventor e empreendedor famoso pelo software Mathematica inova também ao adotar um modelo de gestão muito peculiar
A reportagem é de Jimmy Guterman, colaborador da strategy+business.

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Stephen Wolfram é um homem que todo executivo deveria conhecer. para começar, ele pensa grande. aos 55 anos, o físico que se tornou inventor, empresário e gestor, famoso pelos softwares que desenvolveu, tem um histórico de grandes apostas –e de geralmente acertá-las. Wolfram é fundador e presidente da Wolfram research, empresa pela qual lançou, ainda no final da década de 1980, o Mathematica, um sistema de álgebra computacional utilizado em vários setores de atividade, como a engenharia [no Brasil, o mathematica é empregado por empresas como a petrobras e a embraer] e a pesquisa acadêmica. Com a Wolfram research, o empreendedor levou ao mercado o Wolfram|Alpha, um sofisticado sistema de busca que vai muito além de ferramentas convencionais como o Google ou o Bing: em vez de oferecer como respostas apenas links, apresenta dados sobre o objeto da busca recolhidos de diversas fontes [acesse http://www.wolframalpha.com e experimente digitar Brazil]. mais recentemente, Stephen Wolfram virou notícia com o lançamento da Wolfram programming Cloud, um aplicativo de programação em nuvem baseado na linguagem Wolfram que pode ser utilizado até mesmo por iniciantes na área. 

Empresa com dono Wolfram obteve seu ph.D. em física com apenas 20 anos, mas talvez seu maior feito tenha sido construir uma organização bem-sucedida em torno de suas peculiaridades. as práticas que Wolfram, o homem, utiliza para conduzir Wolfram, a empresa, não são das mais convencionais –apesar de ser centralizador. Isso inclui desde o lugar onde ele trabalha e os momentos em que se dedica à empresa até sua insistência em fazer da cultura corporativa algo muito parecido com seu comportamento. Para começar, a sede da empresa fica na cidade de Champaign, Illinois, estados Unidos, e há colaboradores espalhados por todo o planeta, mas Wolfram comanda seu negócio de casa, ao norte de Boston, massachusetts, fazendo raras visitas aos escritórios centrais. 

Assim, o empresário recorre a conference calls várias vezes por dia para supervisionar as atividades da Wolfram research. essas conversas podem acontecer nas etapas iniciais de um projeto, quando Wolfram exercita sua curiosidade, especula sobre inúmeras possibilidades e parece esperar que alguém acrescente algo a seus palpites. elas também podem ocorrer quando o projeto se encontra a meio caminho de sua conclusão e, nesses casos, Wolfram é direto. recentemente, durante a discussão de um recurso de um programa, por exemplo, o Ceo não deixou dúvidas sobre sua posição: “É divertido, mas não é top of mind”. De um lado, esse estilo deixa espaço para que um colaborador não tenha problemas em perguntar algo como “Você está entendendo o que acabei de dizer?”, porém, de outro, sempre fica claro quem é que toma as decisões para valer. entender o que o chefe quer é crucial para o sucesso na Wolfram Research. Afinal, ele não é só o fundador, mas a origem do nome e seu primeiro inventor. “minha abordagem, com a qual talvez nem todo mundo concorde, é ser direto, dizendo às pessoas o que penso, seja algo bom ou ruim”, define ele. “Na verdade, acho que as pessoas gostam disso; muitas vezes, quando não fazem algo muito bom e eu lhes digo a verdade, elas insistem e conseguem fazer algo realmente bom.”

> **Uma nova Ciência**
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> Em uma espécie de sabático paralelo ao trabalho, Wolfram dedicou quase toda a década de 1990 ao que talvez tenha sido sua empreitada mais ambiciosa: o livro A New Kind of Science (ed. Wolfram Media). Com quase 1.200 páginas, a obra não escondeu que seu objetivo era mudar o mundo. Seu argumento básico: a computação é o caminho para entender a complexidade da realidade a nossa volta e deve-se pensar em tudo como um programa de computador. 
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> Do ponto de vista de Wolfram, a computação não é apenas uma forma de aprender mais sobre engenharia e matemática; é a forma fundamental, e nova, de observar como a ciência funciona e, consequentemente, como o mundo funciona. em outras palavras, em A New Kind of Science ele argumenta que, do nível celular ao universo com um todo, tudo funciona como um programa de computador, com complexidade crescente a partir de regras simples. não importa quanto os  argumentos de Wolfram são aceitos pela comunidade científica; o que mais chama a atenção fora dos meios acadêmicos em relação a A New Kind of Science é sua ousadia. 
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> Wolfram desenvolveu seu trabalho, em certa medida, de maneira independente, fora dos círculos principais da pesquisa científica. em seguida, publicou a obra por conta própria e seu trabalho foi coberto pela imprensa com uma intensidade que muitos cientistas sérios têm dificuldade de imaginar. 
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> O livro deixa transparecer que seu autor não pensa pequeno logo nas primeiras páginas. “há três séculos, a ciência foi transformada de modo radical por uma ideia nova –a de que regras baseadas em equações matemáticas poderiam ser usadas para descrever o mundo natural. Meu propósito nesta obra é iniciar uma transformação da mesma proporção, por meio da introdução de um novo tipo de ciência, baseada em regras mais gerais que estão presentes em simples programas  de computador”, escreveu Wolfram.

**GESTÃO DE PESSOAS**

Os diferenciais de Wolfram não estão apenas em fazer da empresa sua imagem e semelhança ou em sua expertise técnica. Segundo Samer Diab, chefe de operações da Wolfram Solutions, a divisão de consultoria do grupo, sua capacidade de gerenciar pessoas é imbatível. “alguém como eu é capaz de gerenciar entre 20 e 25 pessoas; grandes executivos com quem trabalhei chegaram a 150 e sabiam detalhes do que estavam fazendo. para mais do que isso, é necessária uma estrutura de gestão. no entanto, com Stephen é diferente. 

Ele chegou ao ponto de conseguir gerenciar 600 pessoas de maneira razoavelmente próxima”, afirma Diab. Wolfram ainda não teria alcançado sua capacidade máxima de gestão de pessoas, na visão do líder da divisão de consultoria. “Em 5 a 15 minutos, Stephen consegue absorver o que está se passando com um grupo, tirar conclusões e oferecer conselhos e direcionamento”, explica ele. e como a empresa encontra e desenvolve profissionais que possam abarcar a diversidade de atividades empreendidas por Wolfram no longo prazo? “achar os talentos certos é importante”, reconhece o empresário. “Infelizmente, hoje, eu não faço muitas entrevistas de recrutamento. Quando estava mais envolvido nesse processo, era capaz de conversar com uma pessoa por algum tempo e saber se ela funcionaria como profissional.” Segundo ele, tudo dependia de o candidato ser articulado, dizendo o que pensava de maneira direta, ou de falar apenas besteiras. 

É possível que, no futuro, à medida que a empresa continue crescendo (hoje tem 400 colaboradores), a descrição de Wolfram como líder onisciente, intimamente conectado com todos os colaboradores, não se aplique com tanta facilidade, porque ele não é mais uma parte ativa do processo de contratação. Isso, porém, não significa que tenha expectativas menores em relação às pessoas. “Às vezes, meus executivos me dizem que alguém é bom, mas ainda não está pronto para participar de uma reunião comigo. Isso porque, em uma reunião, eu posso perguntar quem sabe sobre um assunto e, se a pessoa que deveria saber não mostra saber, a situação fica feia”, afirma Wolfram. o empresário concorda que contratar as pessoas certas pode levar a boas surpresas, mesmo que demore para que essas surpresas se materializem. 

“Uma das coisas mais bizarras que já aconteceram na história de nossa organização foi termos contratado profissionais talentosos sem ter certeza sobre o que eles fariam para nós. Isso ainda acontece e as pessoas podem ficar flutuando entre uma atividade e outra por alguns anos, até que eu, de repente, perceba que há um novo projeto em que elas se encaixam.” assim, a dinâmica de talentos de sua organização se formaliza em duas etapas. “Você, primeiro, tem as pessoas talentosas e, depois, descobre, como parte de seu papel de gestor, como conectá-las com um projeto a ser realizado”, explica o Ceo. Identificar conexões, aliás, é outro dos temas de preferência de Wolfram: entre produtos, entre pessoas e produtos, entre pessoas, produtos e a empresa como um todo. “o aspecto com que, provavelmente, eu mais posso contribuir é fazer conexões entre as coisas”, afirma ele. Wolfram também tenta ensinar as pessoas a fazer tais conexões. “Como presidente da empresa, eu coloco as pessoas em áreas diferentes da organização para que aprendam o que está acontecendo longe de casa. Funciona, embora, no final das contas, eu precise dizer às pessoas como fazer essa ou aquela conexão”, acrescenta.

**A OUSADIA DE QUEM ESTÁ  APENAS COMEÇANDO**

Embora seja conhecido por movimentos ousados, o empresário diz não ver todas as suas jogadas dessa maneira. “não me vejo como uma pessoa particularmente ambiciosa”, afirma. “Eu tenho tido sorte e capacidade de fazer algumas coisas que são razoavelmente bem-sucedidas. e, uma vez que você consegue isso, diz para si mesmo: ‘É divertido; acho que posso fazer mais’. para mim, significa fazer algo que ninguém mais fará”, explica. Wolfram pode parecer dissimulado, evitando se caracterizar como alguém ambicioso e esforçando-se para passar a imagem de uma pessoa modesta. no entanto, ele é extremamente confiante em relação ao que conquistou, não esconde a satisfação pelo trabalho que tem desenvolvido e, acima de tudo, ainda se vê apenas como “razoavelmente bem-sucedido”. 

De seu ponto de vista, ele está somente começando, ainda faminto de realizações. mais do que qualquer outra coisa, Wolfram quer estar certo: sobre seus negócios, sobre o que seus produtos podem fazer, sobre o novo tipo de ciência que ele acredita ter descoberto. E isso se reflete na empresa, que se concentra em identificar grandes questões e enfrentá-las sem restrições ou constrangimentos. “Uma das coisas positivas de nossa empresa é conseguir motivar as pessoas a trabalhar em projetos que parecem impossíveis”, afirma o empresário. “Se, em uma reunião, alguém diz: ‘Há 30 anos de literatura sobre isso e isso ainda não foi resolvido’, as pessoas aqui respondem ‘Ótimo, vamos resolvê-lo’.”

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