Cultura organizacional

Recrutamento e fit cultural como combate às culturas tóxicas

As empresas devem ser lugares seguros e acolhedores, que contribuam para o bem-estar dos seus colaboradores
Felipe Ladislau é sócio da Organica, aceleradora de pessoas e negócios.

Compartilhar:

Os últimos meses foram marcados pelas discussões intensas acerca do “fenômeno” quiet quitting. Desde uma pluralidade de conteúdos daqueles que buscam entender a fenomenologia de um ponto de vista mais social e antropológico até os que defendiam suas opiniões a favor ou contra os novos comportamentos.

Sendo assim, entendo que o tema não precisa de mais um artigo de opinião em meio a tantas. Tenho certeza que alguma delas já te impactou e, caso isso ainda não tenha acontecido, uma rápida busca irá saciar toda a curiosidade sobre a tal demissão silenciosa.

O que me chamou a atenção e me motiva a escrever este artigo é uma questão muito maior ao quiet quitting: ao longo de 2022 já falamos muito sobre o burnout, a grande resignação e foram muitos os artigos e estudos explorando os impactos das culturas tóxicas na saúde mental das pessoas de maneira geral.

Existe algo nas relações de trabalho que não estão mais se sustentando. Não ouso usar o termo “funcionando”, porque afirmar que o modelo funcionava no passado é bastante arriscado, teríamos de qualificar e explicitar: funcionava pra quem?
No entanto, por diversos fatores, as relações se sustentavam, ainda que lhes faltassem saúde. As pessoas se estabeleceram por longas décadas nas mesmas empresas, conformadas com o que lhes era imposto.

Nos tempos atuais, as empresas e suas lideranças estão sendo cobradas por revisar todo o modelo de construção das suas relações de trabalho.

Isso porque cada vez mais as forças de trabalho deixam de ser compostas exclusivamente por colaboradores dedicados em tempo integral e passam a lidar com aqueles que atuam em período parcial ou com empresas que apoiam de forma colaborativa a execução de processos e atividades.

Sendo assim, precisamos falar – mais do que nunca – sobre fit cultural. E isso começa no recrutamento.

## O propósito em recrutar
Qual o propósito de um processo de recrutamento?

Durante décadas, acompanhamos processos seletivos que se baseavam numa lógica transacional, em que uma empresa identificava lacunas de habilidades específicas e, a partir daí, orquestrava um processo cujo objetivo era alocar o melhor custo/benefício para aquela função.

Ou seja, identificar quem melhor atendesse as necessidades técnicas pelo melhor custo, e que as alocações tivessem a menor taxa de rotatividade possível.

Essa lógica fria e industrial de como conduzir seleções, em minha visão, é o início do problema na hora de construir culturas organizacionais saudáveis.
Em um mundo onde as tecnologias e as necessidades dos clientes mudam de forma muito rápida e a estratégia do negócio tem de ser muito mais adaptável às incertezas e volatilidades, surge um novo propósito para o recrutamento.

Em minha visão, o processo de recrutamento e seleção passa a ter como propósito construir o melhor equilíbrio no ecossistema interno da empresa.

Assim como em uma floresta existe toda uma característica de quais vegetações se adequam melhor ao clima local, nas empresas também existe uma série de comportamentos e atitudes que modelam um determinado DNA.

É importante pontuar que a diversidade é fundamental para esse DNA e para tornar a cultura da empresa sólida e antifrágil.

## Compreendendo o fit cultural das organizações
Organizações são como organismos vivos, ou seja, muito complexos e dinâmicos. Portanto, cada organização dispõe de um DNA e de características únicas, que podem ser decodificadas por meio de uma régua de fit cultural que respeite a sua autenticidade.

A autenticidade dessa régua passa muito por saber estabelecer quais são as prioridades e elementos que compõem a cultura da empresa, além de avaliar as soft e hard skills.

É necessário estabelecer quais são as atitudes e comportamentos esperados do candidato para que o perfil tenha melhor aderência ao grupo de colaboradores com quem ele vai se relacionar caso seja contratado.

Compreendo que na velha economia, todo peso de avaliação de uma pessoa colaboradora se dava em aspectos técnicos relacionados à função desejada. Porém, em um mundo cada vez mais dinâmico e incerto, que exige muito mais capacidade de adaptação das pessoas, é menos sobre a bagagem que as pessoas trazem e mais sobre o potencial de se adaptar ao novo ambiente para que possa gerar contribuição.

Para construir espaços com autonomia e uma cultura de inovação é preciso que as empresas sejam capazes de fornecer ambientes de segurança psicológica, pois quando há muitos conflitos e as pessoas se colocam em posições reativas, elas deixam de contribuir e crescer.

Nesse contexto, a régua de fit cultural é uma ferramenta poderosa para solidificar a expressão da cultura e reduzir potenciais interferências entre os colaboradores.

## A importância do fit
Cada empresa tem uma maneira de conduzir os processos e lidar com os desafios do dia a dia. Algumas são mais rígidas, enquanto outras são mais flexíveis, e essas questões compõem a cultura de uma empresa.

O fit cultural serve para avaliar se o candidato tem um perfil que corrobora para os valores da corporação, pensando em estabelecer um bom clima organizacional, que é o conjunto de fatores que compõem o nível de satisfação dos colaboradores em relação às empresas.

O fit cultural é interessante para ambas as partes, a empresa deseja um candidato que esteja de acordo com o que ela acredita e quer, e o colaborador quer se sentir bem e pertencente ao lugar em que trabalha. Vejo que o recurso número um de uma empresa são as pessoas.

Seja pela minha trajetória de carreira, pelos projetos que conduzo atualmente, ou mesmo pelos diversos relatos na mídia e LinkedIn, acompanho pessoas com ótimos currículos que – por não se encaixarem na cultura da empresa – geram conflitos, não agregam valor e permanecem por pouco tempo na instituição.

## Papel da tecnologia
Dito tudo isso, é possível concluir que a contratação é o processo mais importante dos negócios: é a partir dela que você determina as pessoas que vão formar e manter uma companhia.

Plataformas de HRtech têm se mostrado cada vez mais importantes para agilizar os processos. Graças à inteligência artificial, algoritmos permitem que as empresas passem por muitos currículos e respondam a todos, além de combinar candidatos e vagas e, consequentemente, reduzir o tempo de contratação.

Quando pensamos em IA e fit cultural, observamos que ainda há muito espaço para desenvolvimento no setor, pois as plataformas ainda não criaram soluções suficientemente boas para a compreensão do que são as atitudes e comportamentos esperados em cada cultura organizacional.

A tecnologia tem apoiado muito para dar mais celeridade em análises mais básicas como, por exemplo, a seleção para desqualificação de currículos que não correspondam à área da vaga em aberto. Isso gera uma otimização do tempo do recrutador responsável.

No entanto, quando chega ao ponto de compreender se a pessoa candidata possui as atitudes e comportamentos alinhados ao código e cultura, fica a cargo da avaliação humana, que está sujeita a muitos vieses.

A tecnologia pode e deve ser uma grande aliada na construção de processos de recrutamento e na análise do fit cultural entre empresas e pessoas candidatas. Mas não devemos esquecer a participação humana no processo e assegurar que as organizações sejam, de fato, lugares acolhedores e seguros.

Isso porque as empresas que passam por cima de tudo, inclusive do bem-estar dos próprios colaboradores, ficarão para trás. Inclusive, já estão ficando.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que não pode mudar quando tudo está mudando?

Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

O Brasil no centro da próxima revolução agrícola: por dentro do caso da Biotrop

A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

A inteligência agridoce: a competência que o futuro exige das líderes

Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Acessibilidade sem inteligência cultural é inclusão pela metade

Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Organizações não mudam quando as pessoas mudam. Mudam quando os sistemas mudam.

Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Inovação & estratégia
20 de julho de 2026 14H00
Sem maturidade informacional, a IA não elimina problemas, apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de controlar.

Bergson Lopes - Fundador e sócio-diretor da BLR DATA, Vice-presidente da DAMA Brasil

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
20 de julho de 2026 07H00
Quase 80% dos trabalhadores sentem culpa ao tirar férias e muitos continuam respondendo mensagens durante o período de descanso. O artigo discute como essa cultura afeta pessoas e organizações e por que líderes precisam dar o exemplo para transformar a relação com o descanso.

Tatiana Pimenta - Fundadora e CEO da Vittude e autora do livro “Saúde mental é inegociável”

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 14H00
WhatsApp, redes sociais, chats e inteligência artificial mudaram a forma como as empresas se relacionam com seus clientes. O desafio agora não é apenas responder mais rápido, mas transformar cada interação em uma oportunidade de fortalecer confiança, reputação e valor de marca.

Edson Alves - CEO da Ikatec

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 08H00
Pensamento estratégico, julgamento humano, curadoria de ferramentas digitais, desaprendizagem contínua e construção de significado despontam como as competências que diferenciarão profissionais em uma era em que inteligência e execução estão cada vez mais distribuídas entre pessoas e máquinas.

Denis Caldeira - CEO da Caldeira Growth e autor de "Cresça ou Desapareça"

8 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Cultura organizacional, User Experience, UX
18 de julho de 2026 14H00
À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.

Aziz Camali Constantino - Idealizador e cofundador do Oxigênio Ilhabela

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de julho de 2026 07H00
Enquanto a maioria das empresas não pode se dar ao luxo de substituir sistemas críticos da noite para o dia, startups vêm assumindo um papel estratégico na construção de uma transformação tecnológica mais rápida, modular e segura.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI e líder do TQI Ventures

3 minutos min de leitura
Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de julho de 2026 13H00
Ferramentas de IA já produzem textos, avaliações, vídeos e conteúdos em segundos. Mas a transformação mais importante talvez não esteja na velocidade da produção, e sim na capacidade de redesenhar experiências de aprendizagem que desenvolvam pensamento crítico, prática, feedback e autonomia humana.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
16 de julho de 2026 14H00
Copa do Mundo, Olimpíadas, Super Bowl ou Black Friday: toda vez que a atenção coletiva se concentra em um grande evento, o mercado de mídia muda de comportamento. Entender esse movimento pode ser a diferença entre capturar demanda reprimida ou pagar, mais uma vez, o preço do improviso.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo