Uncategorized

Ricardo Nunes, pela maior rentabilidade

O principal acionista da holding Máquina de Vendas, hoje com 16 negócios varejistas, conta quais são as prioridades do grupo, falando sobre seu estilo empreendedor e sobre a importância de aproveitar a crise como oportunidade
Sandra Regina da Silva é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Se o varejo dos estados unidos tem o jovem Tony Hsieh, de 41 anos, desenhando uma nova cultura organizacional, o varejo brasileiro conta com o jovem Ricardo Nunes, de 43 anos, infundindo uma cultura empreendedora em empresas estabelecidas. isso explica, em parte, por que a Máquina de Vendas, holding de várias marcas varejistas físicas e virtuais da qual Nunes é o maior acionista individual (com 47,7%), prevê bom desempenho no fim de 2014, enquanto o mercado amarga momentos difíceis, ou por que é otimista sobre 2015. 

Para o empreendedor, que fundou a Ricardo Eletro e foi o artífice de sua fusão com a Insinuante e de outras aquisições, é na crise que surgem as melhores oportunidades de crescer. desde que inaugurou sua primeira loja, aos 18 anos de idade, no interior mineiro, Nunes adotou uma estratégia de expansão bastante agressiva para os parâmetros brasileiros, com base em negociações ousadas com os fornecedores e preços baixos ao consumidor. 

Mostrou também rapidez para reagir aos rivais –por exemplo, diante da criação da Via Varejo (que inclui Grupo Pão de Açúcar, Casas Bahia e Ponto Frio), logo propôs fusão à família Batista, proprietária da concorrente Insinuante. atualmente, a prioridade da Máquina de Vendas, que reestrutura sua governança, é elevar a rentabilidade do grupo, hoje de 1,2% da receita, para 2%, o que deve fazer o lucro saltar de R$ 88 milhões em 2013 para algo em torno de R$ 200 milhões em 2015. Também estão em sua agenda reduzir a alavancagem e expandir o e-commerce, considerado estratégico. 

> **MÚLTIPLOS MODELOS**
>
> **Fatos e números da  Máquina de Vendas**
>
> **Receita bruta:** R$ 9,2 bilhões (2013) 
>
> **Colaboradores:** cerca de 30 mil 
>
> **Lojas:** 1,2 mil em 422 cidades, de todas as unidades federativas do Brasil 
>
> **Itens à venda em lojas físicas:** 4,5 mil 
>
> **Itens à venda (ativos) no e-commerce:** 30 mil
>
> **Marcas de lojas físicas:** 
>
> Ricardo eletro • Insinuante •  Eletro Shopping • City Lar • Salfer
>
> **Sites de e-commerce:** 
>
> ricardoeletro.com.br •  insinuante.com.br • citylar.com.br • eletroshopping.com.br • salfer.com.br • cipela.com.br • ecolchao.com.br • kangoolu. com.br • malamix.com.br • clubedoricardo. com.br • ricardoeletroviagens.com.br
>
> **É A 7ª MAIOR VAREJISTA DO BRASIL E A 3ª EM ELETRODOMÉSTICOS  E ELETRÔNICOS**

> **SAIBA MAIS SOBRE NUNES**
>
> **Quem é:** Maior acionista individual da Máquina de Vendas. 
>
> **Início:** Aos 12 anos, vendia mexericas nas ruas de divinópolis (MG); aos 18 (em 1989), abriu sua primeira loja, para vender bichos de pelúcia. 
>
> **Desafios-chave:** A incorporação de eletrodomésticos na ricardo Eletro, sua expansão e a fusão com a insinuante.

**A classe média emergente fez o varejo crescer no Brasil, mas entramos em uma certa recessão. E agora?** 

É exatamente nos momentos de crise que eu mais cresço. o varejo vive de promoções e eu sei garimpá-las. Dos 30 mil itens ativos em nosso comércio eletrônico e 4,5 mil nas lojas físicas, é impossível não conseguirmos 20 ou 30 grandes ofertas negociadas com os fornecedores, para impactar o resultado no mês. Também sei bem que se ganha em um negócio e perde-se em outro. alguns produtos e, principalmente, serviços geram lucro bom e compensam as perdas em outros. uso muito essas ferramentas para sair na frente do concorrente em preço. 

> **NO AMBIENTE ONLINE, O MODELO É A AMAZON**
>
> A Máquina de Vendas vem abrindo várias frentes de e-commerce, com diferentes modelos de negócio virtuais. uma das iniciativas foi desenvolver sites de nicho, como cipela (de calçados), Ecolchão (de colchões, roupas de cama), Kangoolu (de produtos para bebês), Malamix (de malas, bolsas), clube do ricardo (ofertas de oportunidade, com tempo de validade), entre outros. com exceção do último, esses sites não têm qualquer referência à Máquina de Vendas ou às redes físicas associadas, como Ricardo Eletro, insinuante, city lar, Eletro shopping e salfer. “são marcas individuais”, diz rodolpho cavadas, diretor de marketing do grupo. A empresa também oferece gestão de ambientes de lojas virtuais, como faz com a Nokia (incluindo a gestão do back office, estoques, embalagens, entrega, faturamento etc.), a l’Oréal (marcas skinceuticals e la roche-Posay), o são Paulo Futebol e a som livre. “temos também parceiros dentro do site da ricardo Eletro, na mesma linha do que a Amazon faz”, comenta cavadas. 
>
> Ele conta que a plataforma desenvolvida pelo grupo possibilita a inserção de parceiros no negócio. Há dois tipos de parceiros embarcados: os de serviços –como pacotes de viagens– e os fabricantes, estes nos modelos white label e cross docking. No modelo white label, o responsável  pelo envio direto para o cliente é o parceiro –produtos de pet shop, vinhos, automotivos, óculos entram nesse sistema. No cross docking, aplicado a produtos de pesca e suplementos alimentícios (saúde e beleza), o parceiro envia  o produto após a venda para um dos centros de distribuição da Máquina de Vendas, que cuida do envio ao cliente.

**A competição do varejo no Brasil ainda é por preço? E quanto à inovação?** 

Os eletrodomésticos são os mesmos em todo o varejo, e loja bonita e atendimento bom são obrigações. O que faz diferença é, sim, o melhor preço. outro diferencial é o ponto. Nossas lojas ficam em locais muito movimentados e são muito cheias. Nossos clientes, principalmente das classes c e d, ainda querem ir ao ponto de venda para comprar, porque sentem prazer em olhar, tocar e escolher o produto. 

Eu sei que é uma felicidade para as pessoas irem à loja, porque vou todo sábado de manhã a uma loja de rua e toda tarde a uma ou duas lojas de shopping center para conversar com o cliente, ver o que ele deseja, saber se os produtos estão adequados, se a condição de pagamento está boa, ouvir as reclamações. 

Ao mesmo tempo, temos uma pontocom que é como uma amazon dentro da Máquina de Vendas, que é uma inovação. Ali aumentamos a oferta além de nosso mix de produtos habitual, abrigando outras lojas virtuais de nicho [veja quadro ao lado]. Vendemos desde vinhos até roupas de cama, passando por lingeries, pneus, fraldas… esse incremento de itens no site aconteceu entre 2011 e 2012 e fez com que nossos sites se tornassem extremamente rentáveis. acho que o varejo brasileiro tem os dois públicos para atender: o que gosta de ir às lojas e o que faz tudo para não pegar trânsito.

**Aqui se compete por preço, mas o preço nos Estados Unidos é melhor. Por quê?** 

De fato, muitos brasileiros vão para os Estados Unidos fazer compras. eu fui lá ver isso de perto no Natal de 2013 e negociei com nossos fornecedores os mesmos preços de lá. o resultado foi a campanha “o Melhor Natal do Mundo”, um sucesso, como mostra o vídeo com 1 milhão de visualizações no YouTube. Fiz uma provocação ao mercado local: por que não conseguimos ter os mesmos preços de lá? Precisamos mudar paradigmas. 

**Que paradigmas devem ser quebrados?** 

O varejista tem de brigar a favor do consumidor –com a indústria e, se for o caso, com o governo, por conta dos impostos. como nossa carga tributária é das mais elevadas do planeta e há as dificuldades logísticas, o jeito é sermos mais agressivos e ousados nas negociações com os fornecedores e em nossas estratégias de vendas.

**A criação da máquina de Vendas é ousadia?** 

Sim, reativa. com o surgimento da Via Varejo, perderíamos competitividade nas compras de estoque se não fizéssemos uma rede forte também. a insinuante estava no Nordeste e no sudeste, então nos complementamos.

**Você dá a cara para o negócio. Isso não dificulta a relação com os sócios?**

Há rumores de que sim… Esse meu jeito ajudou os negócios. Fico muito exposto e não é fácil para mim, como pessoa física, mas percebo que o consumidor gosta da transparência, do contato, de haver uma história. agora, na Máquina de Vendas, todos os sócios se respeitam e, o mais importante, estamos sempre dispostos a debater o que é melhor para o futuro da companhia. Minha relação com a família Batista, especialmente com o Luiz Carlos, é excelente. Viajamos juntos com nossas famílias, eu me hospedo na casa dele. 

**A máquina vai ganhar um fundo de investimento como sócio? Vocês vão abrir capital?** 

A ideia, em 2013, era trazer um fundo para terminarmos de nos organizar, integrando algumas aquisições feitas, e, depois, abrir o capital. Mas o momento não é bom para isso e, como o e-commerce se valorizou muito no mundo inteiro, vale a pena esperar. 

A decisão de abrir o capital é uma estratégia de longo prazo, mas vamos aguardar o melhor momento do mercado e, enquanto isso, preparamos a governança. acabamos de colocar o Richard saunders como presidente da companhia, e ele está montando toda a sua equipe. Também estamos indo cada vez mais para o conselho de administração. com o Richard, estamos empenhados em intensificar o processo de integração de nossas operações, reduzir a alavancagem e expandir ainda mais a divisão de e-commerce.

**E-commerce é inovação para vocês? Vocês tiveram problemas de atraso na entrega de produtos vendidos online. Como evitá-lo?** 

Eu julgo que, no varejo, inovação significa a capacidade de o varejista entender as necessidades de seus clientes e criar soluções para atender a elas. A inovação pode ser identificada no tipo de mercadoria vendido, em ações de marketing, no treinamento de colaboradores, na precificação e até onde a loja é instalada. Para mim, inovamos ao investir na diversificação de produtos no e-commerce e ao gerenciar isso de modo unificado, porque geramos comodidade e agilidade para os consumidores realizarem suas compras. isso melhora a entrega.

**Como é a gestão de pessoas de vocês?** 

O varejo não é famoso por um bom RH… o varejo trabalha muito com incentivos por performance, e estes são associados a bons índices de satisfação e retenção de colaboradores. Fazemos isso também, mas acho que os melhores resultados aparecem quando os líderes dão liberdade para os subordinados e quando há confiança, algo crucial para o sucesso da remuneração atrelada a metas de desempenho. Na Máquina de Vendas, por exemplo, temos políticas que proporcionam mais envolvimento dos funcionários em decisões. Eles são treinados e estimulados a agir como donos. o vendedor tem mais liberdade do que nas outras redes –pode ligar para o meu celular, pôr o cliente para falar comigo. ele sabe que a regra é: “está proibido perder venda”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Carreira, Cultura organizacional, Gestão de pessoas
A longevidade deixou de ser apenas um dado demográfico para se tornar questão de governança

Fran Winandy

0 min de leitura
Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de junho de 2026 13H00
Quando bem interpretados, os sinais do comportamento das equipes deixam de ser rotina e passam a revelar o que realmente sustenta performance, engajamento e resultado.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

4 minutos min de leitura
ESG
6 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra por que a inclusão de pessoas com deficiência ainda não evoluiu de obrigação legal para estratégia de negócio nas organizações brasileiras.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

6 minutos min de leitura
Liderança
5 de junho de 2026 16H00
Organizações não estão falhando por falta de esforço, estão falhando por fazer coisas demais ao mesmo tempo. Este artigo reforça que o verdadeiro papel da liderança não é multiplicar tarefas, mas definir o problema certo e simplificar a execução.

François Bazini - CMO e Consultor

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Liderança
5 de junho de 2026 08H00
Como o Brasil chegou à NR1 e por que esta pode ser nossa última chance de acertar?

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de junho de 2026 14H00
Ao refletir sobre a evolução da indústria têxtil, o autor propõe uma mudança de lógica: mais do que investir em máquinas, a competitividade passa a depender do valor real que a tecnologia entrega ao longo do tempo.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
4 de junho de 2026 08H00
O próximo desafio da liderança não é tecnológico - é aprender a liderar humanos e máquinas na mesma mesa.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
3 de junho de 2026 15H00
Quando a IA vira solução antes de existir o problema, o resultado tende a ser irrelevante. Este artigo mostra por que o erro das empresas não está na tecnologia, mas na ordem das decisões

Osvaldo Aranha - Chief AI Strategist, Palestrante, Mentor e Conselheiro

5 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança, Marketing & growth
3 de junho de 2026 08H00
Em meio à obsessão por crescimento, este artigo propõe uma mudança de perspectiva: não é o quanto a empresa cresce que define seu sucesso, mas sua capacidade de transformar expansão em valor real e sustentável ao longo do tempo.

Alexandre Costa - Gerente de Estratégia Financeira, Pricing e Revenue Management

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de junho de 2026 13H00
Este artigo mostra como o agronegócio brasileiro precisa evoluir para uma arquitetura integrada de dados e gestão - transformando tecnologia em vantagem competitiva, governança robusta e valor sustentável no longo prazo.

AAdilson Martins - Sócio líder para o setor de agronegócio da Deloitte; André Ferreira - VP Global de Agronegócios da SAP; Lígia Penna - Sócia de Enterprise Technology & Performance da Deloitte e Rafael Okuda - Vice-presidente de Agribusiness & Food da SAP Brasil.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão