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Roger Martin: Para ensinar a inovar, é preciso inovar

Segundo o especialista canadense, que comandou a aplicação do design thinking na escola de negócios Rotman School, convertendo-a em uma espécie de laboratório, os provedores de educação executiva devem abraçar a inovação e as grandes empresas precisam abraçar a educação executiva
Colaboradora de HSM Management.

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> **Saiba mais sobre  Roger Martim**
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> **Quem é:** Professor e consultor de gestão, é chefe de pesquisa em produtividade e competitividade e diretor acadêmico do Martin Prosperity institute, que realiza pesquisas sobre capitalismo democrático. De 1998 a 2013, foi diretor da Rotman School of Management, ligada à university of Toronto, Canadá, e ainda é professor de cursos de educação executiva da instituição. 
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> **Especialidades:** Estratégia, inovação, pensamento integrativo, design de negócios e competitividade dos países. 
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> **Livros:** Jogar para Vencer (ed. HSM), The Design of Business, The Opposable Mind, Fixing the Game, The Future of MBA.

“Como uma escola de negócios espera ensinar as empresas a inovar se ela mesma se mantém apegada a métodos praticados há séculos?” essa é a grande pergunta de Roger Martin, especialista em estratégia e professor de educação executiva da Rotman School of Management, da University of toronto, Canadá, escola que desde 2007 tem transformado seus cursos de gestão em laboratórios de criatividade movidos a design thinking. em seu livro The Future of MBA, publicado em 2008, Martin já apontava essa incoerência, argumentando que cursos em formato tradicional não iriam muito longe se continuassem baseados no ensino de práticas analíticas em vez de capacitar os alunos a pensar em maneiras de resolver os problemas que se colocam em sua vida profissional diariamente. 

Para Martin, a educação executiva está vivendo um momento crítico, que pode resultar em crise ou em renascimento. “as escolas terão um futuro brilhante se se propuserem a mudar certas coisas, mesmo que não saibam muito bem como. Mas, se insistirem em fazer mais do mesmo, acho que tendem a desaparecer, porque vão deixar de ter importância para os executivos.” 

Nesta entrevista exclusiva a HSM Management, Martin discute a premência da incorporação do pensamento integrativo e do design thinking no mundo dos negócios, explica o raciocínio abdutivo e garante: a educação executiva transformada pode ser um diferencial das grandes empresas na concorrência com as menores que as ameaçam. 

**O sr. escreveu seu livro sobre o futuro do mBA em 2008. O futuro desse tipo de curso e da educação executiva continua comprometido?** 

Se os cursos não mudarem, sim. o que quis dizer no livro, e continuo dizendo, é que os cursos precisam se concentrar em problemas reais de negócios, não hipotéticos –e em problemas difíceis. Um investimento não envolve apenas questões financeiras, por exemplo; é preciso pensar em seu sentido real para a empresa, e este diz respeito a marketing, operação, estratégia e talvez uma boa dose de finanças, mas não 100%. O fato é que os problemas de negócios atuais não se encaixam facilmente em um único domínio do conhecimento. Creio que o ponto central de qualquer educação corporativa deveria ser: “Qual é nossa teoria para lidar com problemas que estão em múltiplos domínios de conhecimento?”.

**O design thinking já está disseminado como metodologia nos cursos de educação executiva?** 

Eu diria que há uma minoria de programas empresariais que fazem tudo menos ensinar pensamento altamente analítico. É uma pequena minoria: nossa escola [Rotman], no Canadá, Stanford, Darden e Whetherhead [de Cleveland, ohio], nos estados Unidos, e possivelmente mais algumas escolas no mundo incorporaram design thinking a seus programas, mas não muitas. o motivo? É mais fácil ensinar métodos analíticos, nos quais os professores foram treinados e que têm mais fórmulas. não há fórmula para design thinking, e isso deixa muitos professores desconfortáveis. a realidade é que as escolas geralmente ensinam o que lhes é mais confortável, não o que é necessário. Só que focar o confortável acaba com os negócios. as empresas bem-sucedidas são as que dizem: “isso não é necessariamente fácil para nós, mas é do que os clientes precisam, então vamos atrás”.

**Se a empresa precisa de inovação, os cursos também deveriam ser inovadores, é isso?**

Certamente. esse é um dos maiores desafios da educação empresarial, pois a inovação se tornou um assunto fundamental e muito poucos cursos a abordam como um tópico importante e sério. na Rotman, temos professores, alunos e meios para inovar sistematicamente, mas somos minoria. 

**Há mudanças a destacar na educação executiva?** 

Acho que sim; há algumas mudanças positivas. Desde que escrevi o livro, mais escolas de negócios aceitaram o design e algumas até incorporaram o pensamento integrativo. Mas não creio que sejam mudanças rápidas o suficiente para proteger as escolas e a educação executiva de seu fim. na verdade, isso vale mais para o MBa do que para a educação executiva: vejo o MBa do modo como vejo o Windows. o Windows ainda é quase um monopólio na tela dos computadores pessoais e incrivelmente rentável. Só que hoje cada vez mais pessoas passam seu tempo usando um smartphone e não um computador pessoal. Querem uma experiência diferente da do Windows, como não demorar minutos para iniciar, conectar o Wi-Fi imediatamente, movimentar-se enquanto fazem coisas. e o Windows será substituído. acho que o mesmo vai acontecer com os MBas, porque, como o Windows, eles não entregam o que as pessoas querem.

**Como o sr. vê a educação executiva nos países emergentes, como o Brasil?** 

Conforme sofisticam sua economia, esses países precisam de gestores mais bem treinados. À medida que a classe média cresce, surgem mais oportunidades de negócio e melhores gestores são necessários. os Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] e outros países emergentes vão precisar expandir muito sua classe executiva para servir a essas demandas, e isso requererá educação. alguém pode argumentar, talvez, que oferecer o fundamental da educação em gestão nos mercados emergentes já será suficiente, mas, para mim, isso não é inteiramente verdade. o fundamental já fará diferença, porém esses países também enfrentam uma situação desafiadora ao ter de crescer rapidamente em um mercado global altamente competitivo; então, seus profissionais precisam de treinamento mais sofisticado. 

> **SATISFAÇÃO:  PENSAMENTO INTEGRATIVO DENTRO DAS ESCOLAS**
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> Martin está encantado com o treinamento de professores do ensino fundamental da maior escola infantil do Canadá e de outras cinco grandes escolas da América do Norte, conduzido por sua Rotman School. “Estamos levando o pensamento integrativo para o currículo escolar, do jardim de infância até o 12º ano [equivalente ao nosso terceiro ano do ensino médio]. É um campo vasto, gigante, como se pode imaginar. Estamos ensinando os professores a usar o pensamento integrativo,  e é muito emocionante. Estou mais orgulhoso com isso do que com qualquer outra coisa  que já fizemos na Rotman”, comemora. o pensamento integrativo questiona os modelos existentes, acreditando que eles não são a “realidade”, mas apenas uma forma de explicá-la, e que podem sempre ser melhorados.
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> **FRUSTRAÇÃO: CINCO ETAPAS DE SUCESSO  FORA DAS EMPRESAS**
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> Em seu livro Fixing the Game, Roger Martin explica as cinco etapas que as empresas deveriam seguir para ter sucesso no mundo complexo atual. Sua grande frustração é que a maioria dos gestores ainda não tomou conhecimento delas.  “o que eu escrevi é tão contrário às teorias ensinadas nas escolas de negócios que estas nem prestaram atenção àquilo, preferindo continuar a ensinar mais do mesmo e presumindo que estou errado. Essa é, na verdade, uma das maiores frustrações de minha vida”, afirma. 
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> As cinco etapas que ele recomenda são: 
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> 1  voltar a colocar o foco no consumidor. 
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> 2  Recuperar a autenticidade da vida dos executivos repensando sua remuneração. 
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> 3  Prestar mais atenção à governança do board. 
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> 4  gerenciar com mais eficiência as expectativas dos stakeholders. 
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> 5  Ampliar o papel das organizações sem fins lucrativos na sociedade.

**Como se conjugam o nível fundamental e o avançado?** 

Esses países precisam dar saltos. tem de ocorrer na educação executiva um salto como o que está ocorrendo na telefonia. assim como mercados sem base instalada de telefonia fixa estão indo direto para a telefonia móvel, países como o Brasil não precisam passar pelas técnicas de gestão tradicionais para só depois buscar o conhecimento-chave para a economia global do século 21. eles podem ir direto para isso. 

**Que tipo de coisa a educação executiva deve ensinar mais? O raciocínio abdutivo?**

Sim, quase todos os grandes sucessos empresariais derivam da lógica abdutiva, que trabalha com o que ainda não existe. Qual lógica disse que a apple criar um MP3 player branco com um controle circular no meio seria um sucesso, mesmo cobrando três vezes mais? não foi a dedutiva nem a indutiva. o mesmo aconteceu com a cadeira aeron, da Herman Miller. Hoje todas são parecidas com ela, mas houve um tempo em que ela era bem diferente das demais e a maioria das pessoas dizia: “isso nem parece cadeira”. tornou-se a cadeira mais vendida da história. Coisas assim não se descobrem dedutiva ou indutivamente. 

**Os gestores devem aprender a observar e investigar?** 

Sem a menor dúvida! não é trabalho dos clientes dizer que produto inovador as empresas devem produzir. os gestores é que precisam observar os clientes etnograficamente para conhecer o que os incomoda e pensar em algo que vão amar. a cadeira aeron é um ótimo exemplo. Mesmo com as costas suadas, nenhum cliente diria: “Quero uma cadeira em que meu corpo respire”. o cliente sabe o problema que tem, mas o gestor o investiga e soluciona. 

**As empresas já estão buscando uma nova educação?**

Para falar a verdade, não. ou melhor, só as grandes empresas estão fazendo isso, porém seu desempenho nessa procura ainda é ruim. Mas as grandes empresas deveriam aproveitar melhor o fato de poderem investir em educação executiva para ficar à frente dos concorrentes e não ser suplantadas por startups. Um aviso: as que não fizerem isso logo poderão ser superadas amanhã por dois garotos em uma garagem.

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