Uncategorized

#RoleModel: Economia Criativa

Editora-executiva da HSM Management

Compartilhar:

Asumir a cadeira de diretora geral de uma instituição com mais de 90 anos de história não assustou Patricia Cardim. Afinal, ela já respirava os ares do Centro Universitário Belas Artes desde os 14 anos, onde começou como aprendiz.

Susto mesmo foi o problema de saúde do pai, Paulo Cardim, que ocupava a posição e precisou se afastar do dia a dia da escola. Desde que assumiu, Patricia luta para que o Brasil seja cada vez mais reconhecido por gerar valor econômico a partir da indústria criativa e ganhe ainda mais espaço no cenário mundial. 

Quer saber mais sobre a trajetória de Patricia? Então confira a entrevista que a nossa editora executiva, Gabrielle Teco, fez com exclusividade para a Revista HSM eXtra.

__________________________________________________________

A história de Patrícia Cardim se mistura com a do Centro Universitário Belas Artes. Fundado em 1925, com o nome de Academia de Belas Artes de São Paulo por Pedro Augusto Gomes Cardim, a instituição quase centenária sempre teve um Cardim na liderança. Depois de Pedro, veio Carlos e na sequência Paulo, pai de Patrícia. Quando tinha apenas 26 anos, Patrícia se viu no comando da organização, após o afastamento de seu pai por motivos de saúde. 

Apesar da pouca idade, ela já acumulava mais de dez anos de experiência de trabalho na Belas Artes quando tudo aconteceu. Do começo, quando ainda tirava grampos de papéis, até se tornar uma líder que levanta a bandeira da economia criativa do país, muita coisa se passou. Conheça um pouco mais sobre a trajetória dessa executiva que acredita que o Brasil pode ser role model para o mundo. E ela está fazendo a parte dela.

**Gabi: Quando começou a sua trajetória profissional na Belas Artes (BA)?**

**Patrícia:** Quando eu entrei, com 14 anos de idade, a BA já era uma empresa consolidada, mas carregava um aspecto acadêmico muito forte. E eu comecei debaixo mesmo, trabalhando em diferentes departamentos: secretaria, biblioteca, contabilidade, tesouraria, entre outros, passando de seis meses a um ano em cada um deles. 

**Gabi: Era uma coisa que você queria ou rolou uma pressão familiar para você trabalhar lá?**

**Patrícia:** Eu quase precisei implorar para trabalhar porque meu pai não queria ninguém atrapalhando seu dia a dia. Sou de uma família de quatro irmãos, que tiveram passagens rápidas pela BA. Então, achando que eu seguiria os passos dos meus irmãos e não me interessaria pelo trabalho, meu pai não fez a menor questão de facilitar minha vida.

**Gabi: Seu pai te testou então?**

**Patrícia:** Isso. Nos primeiros seis meses que eu fiquei lá ele me colocou organizando o arquivo morto. Eu passava horas olhando pra baixo, tirando grampo de papéis antigos, arquivando. Hoje são documentos históricos, que ficam em nosso museu. Mas naquela época eram só uma montanha de papéis que ficavam na secretaria. Acho que ele pensou em me dar qualquer tarefa pra eu não atrapalhar. O fato foi que eu fiquei meses desempenhando essa função e o resultado foi uma paralisia no pescoço. Quando ele viu que era sério, me deixou mudar de área e eu fui pra tesouraria. A partir disso, as coisas foram evoluindo.

**Gabi: Desse job rotation até assumir a direção geral, como foi?**

**Patrícia:** Em algum momento eu comecei a me envolver muito com a área acadêmica, que é minha grande paixão. Eu não tinha a menor pretensão de ser a sucessora ou assumir a escola. Fazia por paixão mesmo. Também destaco a importância de ter me graduado em moda pela Belas Artes, pois a grade já contemplava essa formação voltada para a economia criativa, gestão, design. Meu TCC, por exemplo, trouxe a ideia de uma incubadora na Belas Artes, para que os estudantes de moda pudessem pesquisar e lançar novos materiais, tecidos tecnológicos, etc.

Foi nessa intersecção entre a BA, minha experiência como aluna e o exercício da gestão, que eu fui me formando como profissional. Nessa época outros departamentos, como o marketing, foram surgindo e eu assumindo novas responsabilidades. Fui me preparando de uma forma mais intuitiva, sem imaginar que assumiria a diretoria geral tão cedo. Até porque esse cargo não veio de forma fluída. Meu pai, que sempre foi um gestor bastante centralizador, adoeceu e os médicos recomendaram que alguém assumisse o lugar dele. Fiquei um tempo fazendo a ponte entre ele e a empresa, ali no hospital mesmo. Hoje ele está bem, é o nosso reitor, mas aquela fase não foi nada fácil.

**Gabi: Você lembra dos seus principais dilemas nesse momento? O que mais te tirava o sono nessa época?**

Patrícia: Eu lembro exatamente o me tirava o sono: a falta de empreendedorismo do artista. Eu sentia que faltava um entendimento da realidade do mercado. Artista tem essa coisa da paixão, da arte pela arte, mas eu repetia aos alunos que eles tinham que pensar em suas carreiras, tinham que movimentar o setor de economia criativa. Como o mercado ainda era imaturo no Brasil, eu enxergava a oportunidade de ajudar amadurece-lo, preparando nossos alunos para operar nele. 

**Gabi: O que você acredita ter sido sua principal contribuição do ponto de vista de gestão do negócio e quais foram seus primeiros passos nessa jornada?**

**Patrícia:** Modéstia a parte, eu tive o privilégio de ajudar a construir essa ponte que existe entre a Belas Artes e o mercado. E os primeiros passos, que não foram nada fáceis, foram no sentido de colocar a BA no circuito das grandes feiras internacionais, que sempre reservam espaço para universitários. No início a gente bancava o espaço para que o aluno experimentasse como um laboratório comercial. Fomos, por exemplo, a primeira escola a ser chamada para representar um país na SXSW, expondo um trabalho de um aluno do curso de arquitetura. O projeto, que previa uma residência em Marte, era espetacular. O aluno buscou pelo linkedin o contato de um arquiteto da NASA, que acabou orientando o trabalho, que ficou impecável. 

Então, no início foquei nessas grandes feiras, que trouxeram pro aluno essa visão de mercado. Hoje em dia a gente está muito mais voltado para o mercado nacional mesmo, porque a gente quer esse reconhecimento interno, e deseja que os nossos alunos tenham mais oportunidades de emprego e de ascensão na carreira. 

**Gabi: De maneira prática, como os alunos estão sendo preparados para movimentar a economia criativa no Brasil?**

**Patrícia:** A formação está muito multidisciplinar e continuada. Apesar desse mercado ter nichos, a gente vê profissionais transitando entre áreas, então, acho que hoje nosso grande esforço é ter matrizes curriculares que sejam muito generalistas para que elas possam possibilitar ao aluno visitar vários ambientes dentro do nicho dele. É preciso empreender. Por isso, temos aula de empreendedorismo desde o primeiro dia de aula. Hoje em dia eles acham a coisa mais comum do mundo colocar preço em obra de arte, mas quando começamos isso era um tabu. 

Outra grande corrida foi pela capacitação em habilidades intelectuais e emocionais. Antes estávamos muito mais preocupados com o lado técnico. Mas hoje precisamos igualmente habilitar os alunos para que eles desbravem o desconhecido, lidem com dados complexos, trabalhem bem em equipe, tenham um pensamento humanista, olhem para a sustentabilidade do mundo, sejam éticos, saibam se promover, falem bem em público. Enfim, um profissional muito mais completo. 

**Gabi: Por que a bandeira da economia criativa é importante para você?**

**Patrícia:** Porque eu acho que o Brasil tem um potencial enorme para construir uma área de economia criativa que possa representar metade do PIB do país. Tenho alunos usando nossos recursos naturais, que são vastos e diversificados, para desenvolver novos materiais, criando novos produtos a partir de matérias primas pouco exploradas. Nosso país tem dimensão continental, nossa cultura é rica, mas do ponto de vista de exportação, ainda exploramos pouco essa riqueza cultural. Além disso, do ponto de vista econômico, esse setor pode ajudar o Brasil a atravessar as crises mundiais com mais tranquilidade. Ao contrário do que aconteceu com a indústria automotiva, o setor criativo não sofreu tanto com as oscilações do mercado. As pessoas continuam empreendendo, criando.

**Gabi: E você tem um role model para o Brasil? Em qual país** **podemos nos inspirar?**

**Patrícia:** Não e acho que não precisamos. Acredito que o Brasil precisa ter um modelo próprio, que seja a nossa cara. Vou te dar um exemplo pra ficar mais claro esse ponto de vista. Em quase todas as universidades de economia criativa do mundo existe uma biblioteca de materiais que detalha materiais de revestimento, de objetos, materiais de obra, etc. E existe muitos materiais que são criados no Brasil, como a fibra de açaí ou o couro feito de casca de melão, e que não estão dentro dessas bibliotecas do mundo. Ninguém tem os nossos recursos e ninguém tem nossa capacidade criativa de solucionar, de viver com escassez, e de, ao mesmo tempo, ter essa criatividade pujante, alegre. Isso é tão nosso que eu sempre falo: o melhor modelo é o nosso modelo.

**Gabi: E quem são os seus role models? Em quem você se** **inspira?**

**Patrícia:** Toda vez que eu tenho dúvida sobre o que fazer dentro do ambiente de trabalho, eu consulto os registros do fundador da escola. Ele deixou uma memória documental gigante e é dali que eu espremo o que vai ser a Belas Artes para os próximos 100 anos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Como promptar a realidade

Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento – e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Na era da AI, o melhor talento pode ser o maior risco

Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Por que os melhores líderes não lutam para vencer

Este é o primeiro artigo da nova coluna “Liderança & Aikidô” e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

De UX para AX: como a era dos agentes autônomos redefine o design, os negócios e o papel humano

Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

User Experience, UX, Marketing & growth
20 de março de 2026 14H00
Entenda como experiências simples, contextualizadas e humanas constroem marcas que duram.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de março de 2026 08H00
Este artigo provoca uma pergunta incômoda: por que seguimos tratando o novo com lentes velhas? Estamos vivendo a maior revolução tecnológica desde a internet - e, ainda assim, as empresas estão tropeçando exatamente nos mesmos erros da transformação digital.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

6 minutos min de leitura
Lifelong learning
19 de março de 2026 17H00
Entre escuta, repertório e prática, o que conversas com executivos revelam sobre desenvolvimento profissional no novo mercado.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de março de 2026 08H00
Enquanto as empresas correm para adotar IA, pouquíssimas fazem a pergunta que realmente importa: o que somos quando nosso modelo de negócio muda completamente?

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de março de 2026 13H00
Nada destrói uma empresa tão rápido - e tão silenciosamente - quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

Sylvestre Mergulhão - CEO e fundador da Impulso

3 minutos min de leitura
Estratégia
18 de março de 2026 06H00
Sua estratégia de 3 anos foi desenhada para um ambiente que já virou história. O custo de continuar executando um mapa desatualizado é mais alto do que você imagina.

Atila Persici Filho - COO da Bolder

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de março de 2026 17H15
Direto do SXSW 2026, surge um alerta: E se o maior risco da IA não for errar, mas concordar demais?

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Empreendedorismo
17 de março de 2026 11H00
No SXSW 2026, Lucy Blakiston mostrou como uma ideia criada na faculdade se transformou na SYSCA, um ecossistema de mídia com impacto global.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
17 de março de 2026 08H00
Neste artigo, exploramos por que a capacidade de execução, discernimento aplicado e proximidade com a realidade estão redefinindo o que significa liderar - e por que títulos, discursos sofisticados e metodologias brilhantes já não bastam para garantir relevância em 2026.

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
16 de março de 2026 15H00
Dados apresentados por Kasley Killam no SXSW 2026 mostram que a qualidade das nossas conexões não influencia apenas o bem‑estar emocional - ela afeta longevidade, risco de doenças e mortalidade. Ainda assim, poucas organizações tratam conexão como parte da operação, e não como um efeito colateral da cultura.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...