Business content, Saúde mental, Gestão de pessoas

Saúde mental: a raiz do problema

De modo geral, a liderança das empresas ainda não assumiu a responsabilidade de lidar com dinâmicas de trabalho disfuncionais por meio dos três Ps – proteger, prevenir e promover
Larissa Pessi é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Pesquisadores da Johns Hopkins University acabam de anunciar a descoberta de que a psilocibina, o composto psicodélico dos cogumelos mágicos, juntamente com a psicoterapia, pode manter os sintomas de depressão afastados por pelo menos 12 meses após a ingestão de duas doses com algumas semanas de intervalo. A ciência está fazendo sua parte na busca de novos tratamentos para a saúde mental. Será que as empresas também estão agindo?

O leitor poderia dizer que sim, uma vez que o cuidado com o [bem-estar mental](https://www.revistahsm.com.br/post/com-atencao-a-saude-mental-empresas-podem-evitar-depressao-burnout-e) dos colaboradores virou pauta mandatória na agenda da maioria dos líderes corporativos. Eles desejam aumentar a produtividade, atentos aos estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a qual cada R$ 1 de investimento no tratamento para depressão e ansiedade no trabalho resulta em R$ 4 de retorno em maior capacidade de trabalhar. Porém, mais do que isso, querem proporcionar uma melhor experiência para [reter talentos](https://www.revistahsm.com.br/post/people-analytics-ajuda-a-reter-jovens-talentos), desejam manter-se em sintonia com os valores [ESG](https://www.revistahsm.com.br/post/como-o-esg-esta-relacionado-com-a-gestao-de-pessoas) e precisam melhorar continuamente a imagem da organização perante o mercado e investidores. Mas vamos repetir a pergunta: será que as empresas estão realmente agindo?

O leitor também poderia dizer que não. Isso porque são relativamente poucas as lideranças que estão enfrentando as mais frequentes causas do fenômeno: as dinâmicas de trabalho.

## A origem dos problemas

O primeiro passo de qualquer iniciativa é identificar as causas do fenômeno. Não é segredo que as longas jornadas e a grande demanda de trabalho estão entre os principais impulsionadores da exaustão. O [sintoma](https://www.nytimes.com/2022/02/15/well/live/burnout-work-stress.html?smtyp=cur&smid=tw-nytimes) tende a ser o primeiro a surgir em casos de burnout, que frequentemente é confundido com mero cansaço.

Apesar de ter piorado com a pandemia de covid-19, a sobrecarga de trabalho não é um problema novo ou recente. Um [estudo](https://sloanreview.mit.edu/article/fixing-the-overload-problem-at-work/) de caso realizado pela MIT Sloan School of Management entre 2010 e 2014 (em uma empresa de TI listada no ranking Fortune 500) mostrou que 41% dos funcionários e 61% dos gestores não tinham tempo suficiente para dar conta de todas as demandas laborais. Foram comuns nessa amostra os relatos de ataques cardíacos, [sono](https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-60057204) desregulado, esquecimento, irritações inexplicadas na pele, falta de energia para se exercitar e preparar refeições saudáveis e aumento do fumo e do consumo de bebidas alcoólicas. E, é claro, quem trabalhou mais horas apresentou os maiores níveis de burnout, estresse, tristeza, nervosismo, impaciência, desesperança e sentimento de inutilidade.

Trazendo para o nosso tempo, os trabalhadores que migraram para o home office viram esse quadro se agravar, encontrando dificuldades para gerenciar a vida pessoal e a profissional nas suas residências. A hiperconectividade e a necessidade de aderir ao uso massivo de recursos tecnológicos (aulas e reuniões on-line, por exemplo) pioraram o que já era disfuncional nas dinâmicas de trabalho – e é claro que o luto coletivo e individual, em razão da covid-19, e o persistente medo do desemprego decorrente da crise econômica não ajudaram em nada.

Ainda vivemos em organizações, e em uma sociedade, onde o workaholic é visto como uma pessoa dedicada e comprometida. Basta ver os relatos sobre empreendedores e a romantização de seu trabalho 24 horas por dia, sete dias semana. Segundo Michele Crevelaro, psicóloga clínica e organizacional especialista em desenvolvimento humano, nossa percepção deveria ser o oposto disso. Essas dinâmicas, segundo ela, refletem organizações doentes. “E estar adaptado a uma organização doente não é sinal de saúde e bom [desempenho](https://www.instagram.com/p/CYjBF1FrN41/?utm_medium=copy_link)”, diz Crevelaro.

Sabemos que mais pessoas estão entendendo isso quando surgem movimentos como o dos pedidos de [demissão](https://www.revistahsm.com.br/post/fui-recorde-nos-pedidos-de-demissao-acende-um-alerta) em massa conhecidos como o “Great Resignation”– mais de 24 milhões de trabalhadores [deixaram](https://exame.com/revista-exame/a-grande-demissao/) seus empregos entre abril e setembro de 2021 nos Estados Unidos – e quando jovens ocupam mídias sociais como o TikTok com vídeos sob a hashtag #bigquit que mais parecem manifestos pela liberdade contra o trabalho opressivo.

### Um processo

Quando os líderes reconhecem que o ambiente de trabalho prejudica a [saúde mental](https://www.revistahsm.com.br/dossie/saude-mental-nas-empresas), devem dar o passo seguinte, que é atuar para diminuir ou até eliminar tal impacto. Para isso, precisam reduzir os riscos psicossociais ajustando a cultura organizacional. Crevelaro indica que isso exige a implementação de práticas baseadas em três Ps:

__Proteção:__ cuidado com a segurança e a integridade física no ambiente de trabalho (seja presencial e/ou home office);
__Prevenção:__ evitar doenças e acidentes, com a realização de mapeamento e análise dos problemas mais incidentes e trabalhando com ações direcionadas a cada necessidade;
__Promoção:__ oferecer ações de manutenção do bem-estar.

Os três Ps talvez sejam o campo em que as empresas mais estejam falhando hoje. Significa, entre outras coisas, passar a definir metas realmente alcançáveis, evitar a sobrecarga de trabalho distribuindo-o melhor entre as pessoas e cuidar para que haja uma comunicação assertiva entre líderes e liderados. É preciso ficar claro que os líderes são responsáveis ​​pelo fenômeno, sim, e há muitas coisas que eles podem fazer – como verificar, fazer perguntas e reconhecer limites. Restringir a quantidade de reuniões de que cada colaborador deve participar também é de grande importância; devem ser realizadas apenas as que são realmente necessárias e respeitar os horários formais de trabalho.

Por exemplo: como é, em sua empresa, o limite à resposta de e-mails e mensagens instantâneas fora do expediente? Em 2017, quando ainda nem se sonhava com uma pandemia de coronavírus, a França criou a Lei da Desconexão para proteger seus trabalhadores, que passaram a estar legalmente amparados para não responder mensagens eletrônicas de seus chefes após o expediente.

Parte desse caminho envolve enraizar o atributo da empatia e introjetar cada vez mais sensibilidade na atuação da liderança, iniciativa que terá impacto positivo não apenas sobre a saúde mental das equipes, como também sobre o desafio permanente de cultivar a cultura da empresa e manter um ambiente que estimule o engajamento dos colaboradores.

O burnout não resulta apenas do excesso de trabalho: especialistas apontam que ambientes tóxicos e relações desequilibradas – em que o diálogo seja insuficiente ou pouco transparente, em que as pessoas não se sintam à vontade para expressar seus pontos de vista e personalidade, em que não haja diversidade ou estímulo ao pertencimento, por exemplo – também induzem ao esgotamento mental e ao desenvolvimento de doenças mentais entre os funcionários. O exercício da empatia já é reconhecido por executivos de RH como elemento decisivo para a gestão de equipes neste novo tempo.

Além dos três Ps, as organizações devem continuar a fazer o que têm feito hoje, que é proporcionar uma rede de apoio. A extensão de [benefícios](https://www.swile.co/pt-br/solutions/beneficios-flexiveis), como atendimentos de psicoterapia, também contribui.

Uma boa sugestão para que os gestores tenham accountability nesse aspecto é que facilitem a possibilidade de consultar as estatísticas do Brasil em questões relacionadas à saúde mental, principalmente considerando três fatores: o burnout atinge 30% dos brasileiros, a depressão deve se tornar a doença mais comum no Brasil até 2030 e o País registra os maiores índices de ansiedade do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os líderes devem se lembrar (ou ser lembrados) continuamente de que, no microcosmo de uma organização, a desatenção de um colaborador derivada desse tipo de problema pode ter impactos negativos sobre todos os demais. É o que lembra Jennifer Moss, que faz parte do Global Happiness Council, um grupo de cientistas e economistas que apoiam as metas de bem-estar da ONU, e escreveu livro *[The Burnout Epidemic: The Rise of Chronic Stress and How We Can Fix It](https://store.hbr.org/product/the-burnout-epidemic-the-rise-of-chronic-stress-and-how-we-can-fix-it/10438?campaign_id=4&emc=edit_dk_20211029&instance_id=44081&nl=dealbook&regi_id=76086338&segment_id=72976&sku=10438E-KND-ENG&te=1&user_id=d34a214afd6c936e7d219107f5ba57ca)*.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Inovação farmacêutica brasileira: um ponto de inflexão nas análises do setor

Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento.
Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

O cliente não compra tecnologia. Compra conforto.

Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Autoridade não se mede em decibéis

Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Hyper-growth: o desafio não é acelerar, é sustentar a velocidade

O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

ESG
25 de setembro de 2026 15H00
Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Luiz Martha - Diretor de Conhecimento e Impacto do IBGC- Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e Rodolfo Fücher - Líder do Grupo Curador do 27º Congresso IBGC.

3 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance, Finanças
25 de setembro de 2026 08H00
Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

Rodolfo Takahashi - CEO da Gooroo Crédito

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
24 de setembro de 2026 19H00
Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Jorge Inafuco - Sócio-diretor da empresa LEADERS LAB Treinamento e Consultoria, Professor e Consultor HSM

7 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
24 de setembro de 2026 14H00
Enquanto grupos como Casas Bahia, Americanas e Braskem recorrem abertamente a processos de reestruturação para preservar suas operações, muitos empresários de médio porte ainda enxergam a Recuperação Judicial como um sinal de fracasso. O artigo questiona essa percepção e mostra por que, em muitos casos, o verdadeiro risco não está na recuperação em si, mas em esperar tempo demais para enfrentar a crise.

Aislan Campos Rocco - Advogado, Sócio na Barroso Advogados Associados

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
24 de setembro de 2026 08H00
As empresas acumulam volumes crescentes de dados, tecnologias e ferramentas para entender o consumidor. Ainda assim, muitos clientes continuam sentindo que não são realmente compreendidos. Nesse cenário, o papel do marketing evolui: deixa de ser apenas uma função de comunicação para se tornar um elo estratégico comportamento, experiência e crescimento do negócio.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de setembro de 2026 13H00
O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Felipe Calbucci - CEO LATAM da TotalPass

Oferecido por: TotalPass
2 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
23 de setembro de 2026 08H00
A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

Antonio Sousa - Gerente corporativo de HSE da Bravo Serviços Logísticos

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução