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Saúde para todos com a ajuda da tecnologia

Faltam 4 milhões de profissionais de saúde no mundo e o déficit vem sendo abordado de maneira inovadora em alguns países emergentes, cujos governos apoiam o desenvolvimento de sistemas de atendimento baseados em tecnologia da informação e comunicação

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Por várias gerações, o modelo de atendimento de saúde no mundo desenvolvido era bastante previsível: o paciente chegava a uma clínica, apresentava a identificação de segurado e esperava. Quando fosse possível, uma atendente o conduzia a um ambiente estéril, verificava a pressão e a temperatura e lhe entregava um traje hospitalar feito de papel TNT. Alguns minutos depois, chegava o médico de jaleco branco, que fazia algumas perguntas durante uns dez minutos, seguidas de um exame clínico rápido. 

O doutor anunciava o diagnóstico, escrevia a receita e encaminhava para a farmácia mais próxima mais um paciente, dos cerca de 40 atendidos naquele dia. Nos países em desenvolvimento, esse roteiro era impensável. Segundo a Organização Mundial da Saúde, existe no planeta um déficit de 4 milhões de profissionais de saúde. Em 57 países, conforme as estatísticas da mesma instituição, esse déficit configura uma crise, uma vez que 30% da população mundial não tem acesso aos medicamentos básicos, as unidades de atendimento em áreas rurais são raras e mal equipadas, e, para serem atendidos em clínicas com mais recursos, os pacientes precisam atravessar longas distâncias até um centro urbano relativamente grande. 

Agora, porém, o desafio da saúde nos países emergentes está sendo abordado com o suporte de recursos tecnológicos [o que tem requerido a parceria da gestão pública com organizações não governamentais e o setor privado]. Surgem programas que utilizam celulares, computadores ligados à web e outras tecnologias da informação e comunicação (TICs) para complementar os serviços de atendimento presencial existentes ou para propor alternativas bastante inovadoras ao atendimento convencional. Essa nova fronteira apresenta cinco aspectos inovadores:

* **A reinterpretação radical do que significa “consultar um profissional de saúde”**
* **A redefinição das habilidades das linhas de frente do atendimento**
* **A ampliação da produtividade de todos os profissionais**
* **A expansão do alcance geográfico**
* **O foco nas necessidades do paciente**

Parece irreversível: a transformação do sistema de saúde com base em tecnologia começa a se disseminar pelo mundo, como provam os 1,2 mil programas de saúde, com e sem fins lucrativos, registrados no Center for Health Market Innovations (CHMI), instituição criada em 2010 que se tornou a central mundial de informações de inovação sobre saúde.

**INOVAÇÕES POR USUÁRIOS E USOS DE TECNOLOGIA**

Para entender o inovador universo do acesso à saúde com base nas TICs, é preciso guiar-se por duas linhas de raciocínio: a dos usuários dos sistemas e a dos usos da tecnologia. Isso nos faz enxergar quatro amplas categorias de inovação de atendimento à saúde baseado em tecnologia: orientação de pacientes, orientação de prestadores de serviços, empoderamento de pacientes e empoderamento de prestadores de serviços . Casos ilustrativos delas são relatados a seguir.

**CINCO CASOS PROMISSORES**

**1. Orientação de pacientes.** A mDhil, startup fundada em 2009 com recursos de venture capital e sede em Bangalore, Índia, envia por SMS, a jovens adultos de Nova Déli e Mumbai, mensagens de saúde importantes pelo equivalente a US$ 0,05 por dica ou US$ 0,60 por um mês de assinatura. No primeiro ano de atividade, 150 mil assinantes pagaram para receber tais mensagens, e sua série de vídeos educativos no YouTube já foi visualizada mais de 10 milhões de vezes. Nos vídeos, por exemplo, personalidades respondem a perguntas sobre assuntos diversos –os mais acessados são os relacionados com a saúde sexual. A mDhil segue a linha da ONG Marie Stopes International (MSI), fundada em Londres há mais de 30 anos e que mantém centros de atendimento em 40 países.

**2. Orientação de prestadores de serviços.** A sede da Narayana Hrudayalaya, também em Bangalore, Índia, é um dos principais centros de tratamento cardíaco do mundo, famoso por oferecer cirurgias coronarianas de alta qualidade a preços acessíveis, equivalentes a US$ 2 mil cada uma. Recentemente, no entanto, a instituição lançou uma iniciativa de educação médica continuada e telemedicina, por meio de uma parceria com a PAN African e-Network, que emprega satélites e tecnologia de fibra óptica para levar a expertise indiana na educação e no atendimento de saúde a toda a África Subsaariana. 

A Narayana, responsável pela parte do projeto relativa à saúde, hoje oferece serviços educacionais remotos a médicos de 16 países africanos. 

**3. Empoderamento de pacientes 1.** O Rashtriya Swasthya Bima Yojana [Programa Nacional de Atendimento de Saúde], uma parceria público-privada liderada pelo governo indiano, utiliza dados biométricos e outros métodos para apoiar um plano de seguro de abrangência nacional. O governo da Índia entra com o pagamento, vários seguradores oferecem a cobertura de risco e administradores contratados se incumbem de gerenciar as inscrições e a utilização dos serviços (o governo federal responde por 75% do custo dos prêmios, enquanto 25% cabem aos governos estaduais). 

Na adesão, cada família participante paga uma taxa única de 30 rúpias, o que equivale a cerca de US$ 0,70. O chefe de cada domicílio e mais quatro integrantes registram suas impressões digitais e tiram uma foto em um terminal de computador, que envia os dados imediatamente para uma base central e gera um cartão com chip. Em seguida, todos podem usar o cartão para utilizar o equivalente a US$ 600 em serviços médicos. Entre as explicações para não haver, nesse programa, os atrasos de atendimento tão comuns, está o fato de os processos de autenticação, pedidos e autorizações estarem registrados no cartão e dispensarem a emissão de papéis. 

O plano também oferece preço pré-aprovado e fixo para 750 procedimentos e usos. Para participar, os hospitais precisam contar com uma confiável conexão com a internet e instalar um sistema de leitura de cartões e de impressões digitais. Os hospitais são acompanhados de perto para evitar fraudes e quem descumpre o estabelecido é descredenciado. O programa já ajudou a levar atendimento acessível a mais de 34 milhões de famílias pobres.

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/17c8de91-24ea-47cc-a05e-07a81cb727e7.jpeg)

**4. Empoderamento de pacientes 2.** A seguradora Changamka Microhealth, de Nairóbi, capital do Quênia, em atividade desde 2008, atende pessoas que têm alguma renda, mas não conseguem manter uma conta poupança em uma instituição bancária convencional. Com o cartão inteligente da Changamka, os usuários podem consultar um médico ou comprar remédios em mais de 30 locais credenciados nas cidades de Nairóbi, Kikuyu, Mombasa e Naivasha –a seguradora negociou descontos com todos os fornecedores.

Os pacientes podem usar os cartões para pagar tratamentos e serviços de saúde diversos, incluindo maternidade. Os cartões estão à venda em supermercados e outros pontos de venda, podem ser carregados com créditos em terminais ou por telefone celular, e não expiram. A Changamka firmou uma parceria com a GA Insurance, empresa queniana que atua como garantidora e gestora de fundos da organização.

**5. Empoderamento de prestadores de serviços.** A World Health Partners (WHP), fundada em 2008 em Nova Déli, na Índia, oferece atendimento básico remoto. Ela recruta farmacêuticos, profissionais de saúde e outros fornecedores informais que não sejam médicos e os instala em clínicas franqueadas com sua marca que prestam sobretudo atendimento básico, mas incluem programas preventivos e tratamentos como o de tuberculose, entre outros. 

Os pacientes consultam um franqueado da WHP, e ambos conversam por telefone ou videoconferência com um médico situado a distância sobre o caso, após a consulta. Este, se for o caso, envia uma receita para a clínica por SMS. Os pacientes pagam menos de US$ 1 por consulta, dos quais 60% seguem para o franqueado e 40% para a WHP. A rede tem 250 centros de telemedicina, que já atenderam mais de 750 mil pessoas e atuam em 4 mil pequenas localidades do estado de Bihar. O sistema, que vem crescendo em um ritmo de 400 vilarejos por mês, tem o objetivo de chegar a 20 mil locais até 2015. A WHP mantém também laboratórios de análises clínicas, raios X e outros exames, além de farmácias da marca. 

> **Programas do Brasil também inovam**
>
> Todo mês, o Hospital das clínicas de São paulo fornece medicamentos para uma média de 110 mil receitas médicas, tanto para pacientes ambulatoriais como para pessoas em tratamento em suas unidades. como cerca de 50% desses pacientes têm mais de 60 anos de idade e condições sociais e de saúde precárias, eles têm dificuldades de locomoção para retirar os medicamentos no hospital, ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São paulo. Somando-se a isso, a central de medicamentos, que ocupa uma área de 1,2 mil metros quadrados, com 25 guichês e 423 lugares para espera, estava com sua capacidade de atendimento próxima ao limite, gerando um elevado tempo de espera para os pacientes. 
>
> O problema começou a ser solucionado de maneira gerencial, em setembro de 2012. Foi contratada uma operadora logística para entrega dos medicamentos nas casas dos pacientes, sem ônus para eles, e alterado o procedimento interno de emissão de receitas, adotando-se a prescrição eletrônica –a tecnologia entra também nesse caso. isso possibilitou que cerca de 60 mil receitas médicas passassem a ser entregues na residência dos pacientes e que o tempo médio de espera para retirada presencial dos medicamentos no Hospital caísse de 101 minutos em outubro de 2012 para 23 minutos em dezembro de 2013. 
>
> O custo do serviço de logística é de cerca de 3% do valor médio mensal gasto pelo hospital com os medicamentos distribuídos. Outra inovação recente em gestão pública de saúde que nasceu no Hospital das clínicas foi o mapeamento genético de colesterol elevado em famílias na grande São paulo, visando aumentar a taxa atual de detecção disso no Brasil, que é de menos de 10% dos casos. A iniciativa está inserida no Sistema Único de Saúde (SUS) e tem reconhecimento internacional.
>
> **Sílvio Anaz, com pesquisa na Escola Nacional de Administração Pública e nos projetos vencedores do Prêmio Mario Covas de inovação.**

**MUDANÇA MENTAL**

Não há alternativa em um mundo com população crescente: inovar em saúde requer o fim da crença –ou do preconceito– de que o atendimento de alta qualidade exige presença física. As tecnologias da informação e comunicação precisam ser bem-vindas se quisermos realizar o sonho do atendimento de saúde para todos.

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