Liderança

Seja um herói cada vez mais humano

A pandemia tem ajudado a moldar o líder que as empresas sempre buscaram, mas que nunca deram a chance de se apresentar
Global CHRO da Minerva Foods e Board Member das startups DataSprints e Leo Learning. Sócio Fundador da AL+ People & Performance Solutions, empresa que atuo como Coach Executivo de CEOs formado pela Columbia University, Palestrante e Escritor. Conselheiro de Empresas certificado pelo IBGC, Psicólogo com MBA pela Universidade de São Paulo e Vanderbilt University com formação em RH Estratégico Avançado pela Michigan University. Executivo sênior com passagens em posições de Liderança Global e América Latina de áreas de Pessoas, Cultura, Estratégia e Atendimento ao Cliente em empresas como Neon, Dasa, Itaú Unibanco e MasterCard. Professor de Gestão de Pessoas do Insper e Professor convidado do MBA da FIA/USP. Colunista das revistas HSM Management e da Época Negócios.

Compartilhar:

Quantos novos heróis passamos a conhecer de um ano para cá? São personagens de nosso dia a dia que nunca mereceram, na grande maioria das vezes, nossa atenção. Estavam escondidos não sob capa, ou com a sunga vestida por cima de uma calça justa. Muitos desses personagens que passaram a nos inspirar – e a quem começamos a devotar mais admiração e respeito – usam jalecos brancos em alguns casos.

Eles estão nos hospitais, cuidando de pessoas acometidas pela covid-19; outros, em pequenas unidades de saúde espalhadas pelo país lutando contra um inimigo mortal, invisível ao olhar humano.

Em síntese, são médicos e toda uma grande equipe de enfermagem que em muitos casos arriscam suas vidas para manter a nossa e a de quem amamos em dia. São heróis anônimos, antes escondidos na rotina do trabalho, mas que agora, com a pandemia, mostram seu valor. E mais do que isso, sua humanidade. São heróis humanos, de carne e osso, com seus medos, receios e forças.

Nas empresas, também passamos a ter uma visão sobre quem eram nossos heróis. Até algum tempo atrás, o líder era o cara. Era quem sabia todas as respostas. Era nosso oráculo corporativo para quase todos os males. Se ele não soubesse uma resposta, com certeza era pelo fato de a pergunta não ter sido bem feita ou endereçada.

No líder, espelhávamos todo um extenso rol de competências digno de um super-homem. O líder não chorava. Não se abatia. O líder seguia na frente e formava seus seguidores. Ele sabia separar as coisas: deixava o que era de casa em casa, e o que era do trabalho, no trabalho. Quer dizer, nesse último ponto, ele até levava o trabalho para casa, pois ele era líder e tinha de dar exemplo: quem era bom funcionava 24×7.

## Perfeitinho e completo

Claro, existem traços caricatos nessa descrição. No entanto, muita coisa que parecia absurda podia ser encontrada em muitas empresas. Esse herói do passado, para muitos chamado de líder, para outros de chefe, ou de boss ou chefia, vinha se mantendo em várias empresas. Em muitas, era ele mesmo, pois poucas mulheres chegavam a essa posição. E, se chegassem, tinham de assumir uma postura mais masculina. Tinha de se enquadrar no figura da liderança, no traje daquele super ser corporativo.

Sim, muita coisa vinha mudando – e ainda bem. A imagem clássica do ser perfeito e completo, vestal da empresa, vinha ganhando alguns contornos. E a pandemia veio para mudar completamente esse cenário, veio alterar o roteiro do mundo corporativo, as falas do pessoal de liderança e vai moldando esse novo personagem.

A covid-19 forçou quem somos. Fez com que nos despíssemos de nossas fantasias. Aprendemos que as coisas mudam de forma rápida, da noite para o dia. Vimos empresas sólidas quase se desmancharem no ar. Muitas aprenderam a lição e embarcaram no mundo digital, existindo por ondas entre vários devices de seus clientes.

Descobrimos que, assim como as empresas, somos vulneráveis. Se muitas organizações ficaram para trás, muitos profissionais também pararam no tempo, em uma era pré-covid. E nesse grupo temos vários líderes. Por outro lado, os líderes que entenderam a situação que vivemos aprenderam que nada sabem, e que de nada entendem. Paradoxo? Não, humanidade.

Entendemos que a gestão mudou e que não sabemos mais as respostas para quase nada. Na verdade, nunca soubemos. Nós apenas repetíamos uma fórmula tatuada em nossa alma que dizia que, para ser bom, era preciso sempre dar a resposta certa. Nossas notas tinham de ser as mais altas. A cobrança era interna e externa.

Entendemos que o ser humano é único. Não dá para dividir uma pessoa: uma que vai para o trabalho; outra que fica em casa e cuida da família; até porque o trabalho invadiu a casa de muitos. Além disso, num mesmo espaço físico, uma pessoa se diverte e outra faz um curso. Nós nos separamos há muito tempo, seja dos demais e de nós mesmos.

E a tecnologia se firmou como a ponte para nos juntarmos. É ela quem aproxima, agora, as pessoas. Os aparatos tecnológico nos ajudam a colocar cada uma de nossas facetas. E pensar que muitos achavam que a tecnologia só ia nos distanciar, não? Ela ajuda a provocar distanciamentos quando estamos nos distanciando. Ou seja, ela é meio, nós é que damos o sentido e a função para ela.

Nessa junção de todos os nossos lados, pessoal e profissional, em meio a tanta dúvida, incerteza e dor, [descobrimos que temos medo, que choramos, que sangramos](https://www.revistahsm.com.br/post/o-ceo-que-lava-louca-e-a-importancia-da-vulnerabilidade). Sentimos na pele o peso do silêncio diante de uma simples pergunta: “chefe, o que vai ser de nossa empresa?”. Muitas vezes não sabemos. Em suma, caímos em nós mesmos.

### A coragem é?

Em muitos, a queda veio como depressão ou ansiedade. E a [saúde mental ganhou a importância que sempre merecia ter nas empresas](https://www.revistahsm.com.br/dossie/saude-mental-nas-empresas), mas que nunca teve – a não ser em ações pontuais, na semana da Cipa ou em datas específicas. Falar que se sentia deprimido era admitir que não sabia separar as coisas, era sinal de fraqueza. Quantos amigos e amigas sucumbiram a esse tormento por medo – ainda mais quando em posições de liderança?

Mas a pandemia desmascarou esse falso super-herói. O líder que emerge é aquele que sabe usar a coragem. Coragem não é a ausência de medo, é fazer as coisas apesar dele. Esse novo herói humano não tem medo de assumir que não está bem. Ele tem a coragem de ser o exemplo para pedir ajuda. Ele não teme em admitir que não sabe. Ele busca incessantemente o autoconhecimento. Ele sabe até onde pode ir e, daquele ponto em diante, como buscar união com outros para seguir a viagem.

O [líder que vamos descobrindo busca se colocar no lugar do outro](https://www.revistahsm.com.br/post/ceo-diga-adeus-a-solidao). Não apenas para entender as necessidades de alguém, mas, sobretudo, para entender as dele, como ele lê e sente o mundo que o rodeia.

Esse profissional que vai ganhando mais espaço assume riscos e compartilha suas alegrias e dores. Ele constrói um novo ambiente, cria laços mais humanos com humanos por inteiro. Ele agora entra na casa das pessoas via plataformas tecnológicas, descobre com quem a pessoa vive e como vive. Ele procura entender mais as preocupações de quem volta para os escritórios e mantêm olhos e ouvidos bem atentos.

Mas, sobretudo, ele cuida de si, pois, assim, ele mostra o caminho para outros também cuidarem de si. Ele busca ajuda junto aos demais, para que os demais busquem ajuda entre si. Ele não esconde o que sente, o que sabe e o que não sabe. Ele não esconde que é humano.

## Novos heróis
Em síntese, procuro mostrar aqui o surgimento de um novo humano, de um novo super-herói. É esse herói que se junta a tantos outros heróis. A imagem do herói clássico, que resolvia tudo sozinho, vai caindo por terra.

Quem me conhece sabe que curto muito esse universo Marvel, DC Comics, etc. E vejo esse movimento também nas novas tramas. Agora, os heróis se juntam. Somam e criam sinergia. Alguns sangram. Outros até morrem. No entanto, eles não escondem seus dilemas e medos. Mas têm a coragem de buscar no outro seu complemento.

Esses novos super-heróis lideram as bilheterias. Só para ter um exemplo, a série da Marvel com Os Vingadores ultrapassou a marca de bilhão de dólares em arrecadação.

O mundo é desses novos heróis. Daqueles que são anônimos e daqueles que lideram sem medo de dizer que têm medo. O mundo, e em especial o das empresas, é de líderes cada vez mais humanos.

*Gostou do artigo escrito por Adriano Lima? Saiba mais sobre novos perfis de liderança assinando [nossas newletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

A procuração algorítmica que desafia os conselhos

À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Por que entender o orçamento hospitalar se tornou estratégico para as operadoras

O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Onde a inteligência artificial realmente gera dinheiro no varejo alimentar

Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Ou você constrói um ecossistema de parceiros ou será engolido por um

Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Mudar para continuar o mesmo

Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo