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Sem diversidade, sem inovação

A primeira CEO do sexo feminino na IBM Brasil diz ter vontade de dar ainda mais voz às mulheres da empresa. ela destaca entre os desafios do nosso tempo a inclusão e mais decisões baseadas em dados

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“Vários líderes em todo o mundo, e eu me incluo entre eles, estão refletindo sobre a grande incerteza que a humanidade enfrenta neste momento, e a imensa quantidade de problemas urgentes com os quais a sociedade está lutando. Em vez de adivinhar as soluções, nós, como sociedade, precisamos implementar o pensamento científico em todas as escalas: desde nossa vida diária à inovação corporativa e à formulação de políticas governamentais. Nosso processo de tomada de decisão precisa estar amparado em dados e evidências, assim como nos métodos científicos.”

A primeira mulher a presidir a IBM Brasil, Katia Vaskys, assumiu o cargo há menos de um ano, mas já mostra firmeza nas posições. Além dos dados e do método científico, ela vê o movimento de diversidade e inclusão como essencial para inovar na solução desses problemas. Em conversa com Luciana Camargo, que hoje lidera a área global de sucessão e desenvolvimento de executivos da IBM Global Business Services, Vaskys revela se apoiar bastante na cultura IBM para sua gestão, mas avisa: cultura não pode ser algo estático.

## SORORIDADE E DIVERSIDADE

__LUCIANA CAMARGO – No início de 2021, você se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente na IBM Brasil. A seu ver, qual é a mensagem simbólica e prática de uma mulher ser responsável pela estratégia dessa subsidiária tão importante da IBM?__
__KATIA VASKYS -__ A IBM é uma empresa de inovação que resolve os problemas mais difíceis dos negócios e da sociedade. Então, eu diria que a mensagem é: o que leva à inovação é diversidade. Não dá para pensar em soluções inovadoras para resolver problemas da sociedade e das empresas se olharmos para tudo do mesmo ponto de vista.

__Nossa empresa é pioneira em diversidade e inclusão. Em 1935, por exemplo, a empresa abriu a primeira escola de treinamento para mulheres nos EUA….__
Isso! E eu complemento. Em 1943, uma mulher ocupou o cargo de vice-presidente da IBM. Em 1946, em um ano em que os direitos civis para os negros ainda eram negados pelo governo norte-americano, foi a primeira empresa a contratar um vendedor negro. Aqui no Brasil, em 2004, adotou o programa Domestic Partner, iniciativa que oferece aos casais homoafetivos o direito de incluir seus companheiros no plano de saúde pago pela empresa. Essa ação ocorreu antes de a união estável homoafetiva ser reconhecida pela lei brasileira.

Atualmente, temos na IBM os BRG, grupo de afinidades de grupos minorizados formados que debatem assuntos de interesse, compartilham experiências e dificuldades e criam ações para promover o respeito e para contribuírem para um ambiente mais diverso e inclusivo. Na IBM Brasil temos seis grupos que discutem e debatem a diversidade: afro, mulheres, LGBT, pessoas com deficiência, neurodiversidade e cross-cultural. Muitas das nossas iniciativas vêm da discussão com esses grupos, com os quais eu faço questão de conversar.Temos aqui, por exemplo, o programa de mentoria reversa, em que um representante de um grupo de afinidade mentora líderes da empresa.

Eu, particularmente, acredito muito no poder da escuta. Acho que é ouvindo as histórias pessoais que conseguimos refletir sobre o tema e perceber nossa responsabilidade como agentes de mudança para promover a inclusão.

__Você pode dividir o que te ajudou a chegar até aqui?__
Tenho recebido muitas mensagens de jovens mulheres desde que assumi o cargo. Minha nomeação despertou em cada uma delas um impulso para buscar novas possibilidades, trajetórias inéditas, em que é possível atingir lugares sonhados na carreira e na vida. Vou te passar o conselho que dou a essas mulheres: que busquem sempre redes de apoio, pessoas inspiradoras com que caminhem junto, que possam fortalecê-las e ajudá-las a realizar o que elas não conseguiriam sozinhas. Gosto de um provérbio africano que diz: “Para ir depressa, vá sozinho. Para ir longe, vá acompanhado”.

Outro conselho é para seguirem se desenvolvendo, sendo curiosas, aprendendo sobre suas áreas de atuação e também sobre áreas afins. Não só pelo conhecimento aprendido, mas também porque o aprendizado traz a reboque componentes importantes como planejamento, raciocínio lógico, capacidade de síntese. Quando decide aprender, você precisa se programar, ter um objetivo, saber o que quer alcançar com o aprendizado, e isso faz com que seus passos sejam mais disciplinados.

Estou muito honrada por ser a primeira mulher a liderar a nossa empresa centenária no País. Vivemos um momento em que construir um mundo mais igualitário é alicerce para que todos e todas possam alcançar seu potencial máximo. Sinto vontade de dar ainda mais voz para as mulheres aqui, estejam elas em cargos corporativos, na tecnologia, ou em outras posições.

__Você acha que nossa atual maneira de selecionar candidatos está adequada para o momento?__
Faz tempo que diversidade é critério. Mas veja: vivemos um contexto pandêmico nos últimos tempos e o processo de contratação precisou ser revisto para se adaptar a essa circunstância. Em março de 2020, teve início o processo de atração e seleção de jovens profissionais da área de vendas e, por conta do avanço da pandemia em todo o mundo, foi necessário seguir com todo o processo seletivo e de admissão de modo totalmente virtual. Além das dinâmicas em grupo, o processo ainda contou com fases como avaliação por vídeo do discurso de vendas de cada candidato e entrevistas em painel com gerentes 100% virtuais e com tecnologias colaborativas.

O processo foi um sucesso; a partir dele, as demais contratações da IBM seguiram a trilha do onboarding digital e remoto. E, agora, chegamos à parte da adequação: o modelo de comunicação adotado pelo nosso time de recrutadores mudou. Sabendo que o momento da seleção é tenso para os candidatos e o ambiente digital dificulta a conexão mais profunda entre as pessoas, as recrutadoras passaram a adotar uma linguagem mais acolhedora, com atividades quebra-gelo para que o candidato pudesse se sentir mais tranquilo. Isso é empatia, humanização, igualdade.

## PESSOAS, CULTURA, CIÊNCIA

__Quando você pensa RH, o que te vem à mente?__
Cuidado e adaptação. O último ano foi de mudanças muito grandes e que exigiram um RH rápido e capaz de adaptar seus processos e meios de atendimento, assim como a forma de engajar os funcionários em um cenário 100% digital. Mas nada disso faria sentido se não fossem profissionais que se preocupassem com as pessoas – nosso bem maior –, que não fossem sensíveis a temas como saúde mental e ao bem-estar geral.

__Quem engaja colaboradores? O RH? Os líderes?__
Eu sou das que acreditam que, para nossa empresa ser bem-sucedida, é preciso mais do que uma boa estratégia; é preciso ter uma cultura que promova o crescimento e a inovação. E eu acredito muito na cultura organizacional da IBM. Quando cheguei na empresa, há pouco mais de dez anos, percebi isso. Não é o que está escrito, é o que é praticado pelos IBMistas. O engajamento vem da cultura da empresa. E o esforço de engajar, portanto, é o de enfatizar as várias iniciativas e programas que fortalecem a cultura: nossa opção pelo diálogo, a adoção de vias de mão dupla (o que significa escutar as pessoas), a comunicação interna informando de forma clara. O RH é muito importante nisso, propondo várias ferramentas e opções de feedback, aplicando pesquisa de clima, fazendo uma política de aprendizado contínuo etc.

Porém essa cultura não pode ser estática, bem entendido. Deve ser adaptável, mas sem perder a sua essência. Aí contar com líderes menos executivos (no sentido de executarem) e mais cocriadores e inspiradores ajuda muito.

Sem funcionário engajado fica difícil ter sucesso. E funcionário engajado é aquele que pode ser quem realmente é dentro da empresa; isso o deixa motivado e feliz. É por isso que, voltando algumas casas na conversa, D&I é tão importante.

__E que perfil de profissional o RH deveria focar?__
Um com a habilidades para trabalhar com a dinâmica do mundo de hoje e do mercado atual. Vou citar cinco: (1) mentalidade ágil com flexibilidade para lidar com formas e ferramentas diferentes de trabalho, (2) facilidade para se unir com outros profissionais e cocriar, (3) ter escuta ativa e empatia para entender o outro, seja colega ou cliente, (4) ter criatividade e inovação para buscar novas ideias sem medo de errar e (5) capacidade de aprendizado contínuo, o que significa querer sempre aprender coisas novas e estar preparado.

__Qual está sendo o maior desafio de ser líder hoje?__
Aponto dois: promover cada vez mais diversidade, o que inclui mais inovação aberta no ecossistema, e a tomada de decisão mais científica, amparada em dados e evidências.

__KATIA VASKYS__
É formada em comunicação e não é IBMista desde o estágio, como tantos lá.

__LUCIANA CAMARGO__
É engenheira e cursa um pós-MBA para formação de conselheiras.

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