Cultura organizacional

Sintomas de mudança cultural

Os líderes devem olhar mais atentamente para o que acontece na operação da empresa
Roberto Aylmer é médico, Ph.D. pela Rennes School of Business, França, professor internacional da Fundação Dom Cabral e consultor em gestão estratégica de pessoas.

Compartilhar:

Parece que a pandemia foi há 10 anos atrás. Mas não tem sido simples a tentativa de retomar a “vida normal”, até porque, na verdade, a gente já não estava bem: em 2019, a OMS apontou o Brasil como o país mais ansioso do mundo. Muitas palavras e conceitos novos, muita gente com o pensamento velho e um choque entre o que “deveria ser” e o que “consigo ser”. E essa distância tem um nome: frustração. Quanto maior a distância entre o ideal e o possível, maior o sentimento de fracasso e frustração. Vale lembrar que, durante o confinamento domiciliar com o home office, muitas pessoas se questionaram sobre temas que nunca tinham pensado, como, por exemplo, qual a lógica de pegar 2h de trânsito para ir e 2h30 para voltar do trabalho todos os dias se meu trabalho é em frente a um computador? Ou ainda “por que eu preciso ficar longe dos meus filhos se grande parte do meu trabalho posso fazer em diferentes horários?”. Parecem perguntas simples, mas são disruptivas.

A obrigatoriedade do retorno ao trabalho presencial criou uma desconfiança na relação com a empresa, fato explicado pelo conceito de contrato psicológico, um acordo não explícito de como o colaborador se comporta a partir de como ele vê o cuidado e o interesse real da empresa em seu bem-estar. E o retorno compulsório – que para muitos é irracional – e a busca de mais tempo com os filhos, criaram uma trinca na percepção do interesse da empresa no bem-estar do colaborador. Quem conseguiu entender essa nova lógica fortaleceu o contrato psicológico e atraiu novos talentos.

Um dos sintomas desta quebra de paradigma é o quiet quitting, a desistência silenciosa de uma massa de colaboradores (em particular, os mais jovens) e o pedido de demissão que surpreende a empresa. O grande movimento de demissão nos Estados Unidos, fenômeno conhecido como great resignation (movimento maciço de pessoas que desistem dos seus empregos) acendeu o alerta no RH e no c-level: os modelos tradicionais de promessas de salários e símbolos de status não têm mais o apelo para as novas gerações.

A pandemia levou muitas pessoas a reverem seu estilo de vida e questionar se o trabalho deveria ocupar o altar central de suas vidas. Algumas revistas especializadas como a Harvard Business Review, falam que o fenômeno tem grande influência dos impactos da pandemia na saúde mental das pessoas, disparando os índices de estresse, ansiedade e comportamentos compulsivos. Concomitante a isso, em agosto de 2022, a OMS retirou a síndrome de burnout da categoria de doenças mentais e a alocou no grupo de doenças ocupacionais. Essa mudança tem grandes implicações legais e sociais, uma vez que o burnout é equiparado ao acidente de trabalho.

Quando um grupo de pessoas se move para sair da organização, isso não significa que elas não querem trabalhar, mas sim que não querem trabalhar adoecendo. Em outras palavras, esse fenômeno fala sobre a cultura da empresa, sobre a liderança imediata e de como essas pessoas se veem no futuro da organização. As pessoas querem trabalhar sim, mas não com o preço da sua saúde e da qualidade de vida, em particular as gerações mais jovens.

Mas algumas empresas seguem na contramão do cuidado com as pessoas e aumentam o risco psicológico quando agem de maneira velada na relação com os colaboradores. Uma das formas mais faladas recentemente deste comportamento antiético é o quiet firing, processo no qual o gestor vai ”fritando” o colaborador com feedbacks intencionalmente negativos e falta de suporte para que peça demissão, ou que, com a baixa performance, seja demitido.

Este comportamento de um gestor (conhecido ou não pela sua liderança) é um indicador da cultura moral do líder e/ou da organização (nem sempre a empresa enxerga os seus psicopatas, muitas vezes os premia pelos “bons resultados”). A melhor definição do quiet firing é assédio moral, uma forma de sequestro do valor do indivíduo e um esvaziamento progressivo de sua contribuição. Pesquisas comprovam que este é um dos principais desencadeadores de burnout.

As pesquisas mostram que o chefe imediato tem um papel central nesse processo, pois é ele quem tem o papel e o poder de avaliar o colaborador. Além disso, define suas tarefas e oferece (ou não) suporte para que tenha sucesso em sua jornada.

Com a ênfase no ESG, o S (social) entrou em evidência com o tema da saúde mental. Dados da consultoria McKinsey mostraram que especialistas em ESG ouvidos afirmaram que o social é o tema mais crítico na agenda do c-level daqui para a frente. Como a saúde mental e segurança ocupacional são resultantes da equação da gestão, os sintomas psiquiátricos de um grupo de colaboradores, assim como o índice de gravidade de acidentes e incidentes, apontam para a qualidade da gestão.

Apesar de todo o custo e impacto desta série de crises, estamos aprendendo a olhar com mais profundidade e honestidade para o que acontece na vida real da operação. O photoshop organizacional – que fica entre a realidade dos colaboradores da base e o que chega de informação no c-Level – não consegue mais esconder a vida como ela é. As soluções de ontem não funcionam mais e é por isso que nós, professores, consultores e gestores, precisamos reconhecer que tratar os sintomas com cursos de liderança e cursos de comunicação não vai resolver o problema.

É preciso um novo patamar de maturidade moral e cultura moral nas organizações para entender o sistema organizacional e ajudar na construção de caminhos que ainda não conhecemos. E essa é uma nova agenda do RH e do c-level. A cultura não é o que falamos nas salas da alta gestão, mas o que acontece lá na ponta, na operação. O sistema não pode mais premiar quem bate meta, mas não constrói o futuro.

Deve-se olhar com mais atenção para o desenvolvimento de lideranças, criando contextos indutores do comportamento e não esperar que as pessoas mudem a partir de um insight. As pessoas mudam quando precisam, não quando querem. Por isso acredito que o investimento em cursos clássicos de gestão não gera mais os resultados do passado: a “Era do Tamanho Único” acabou.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que observei quando parei de apenas assistir ao Mind Summit 2026

Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de setembro de 2026 08H00
Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Marcus Granadeiro - Membro do RICS - Royal Institution of Chartered Surveyors (MRICS) e sócio-diretor do Construtivo

3 minutos min de leitura
Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Direito, Regulação & Compliance
17 de setembro de 2026 08H00
Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

João Alberto Graça - Advogado, consultor em Direito Tributário, Societário e Governança Corporativa, membro do Conselho de Contribuintes e Recursos Fiscais do Estado do Paraná

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução