Tecnologia e inovação

Startups são o passaporte para o “velho novo normal”

Para elas, o “novo normal” não parece tão novo assim. É um "velho novo". Já para grandes organizações a jornada para esta nova civilização pode ser mais tortuosa
Sócio da Redpoint eventures, Co-Fundador do Buscapé, Stanford GSB, Poli-USP.

Compartilhar:

“A necessidade é a mãe da invenção.”

A frase atribuída a Platão resume bem o que o mundo está vivendo desde que a Covid-19 chegou para colocar nossas vidas de cabeça para baixo com um ingrediente adicional – o inesperado.

Parece inconcebível que a humanidade, em pleno século XXI e depois de ter atravessado diversas pandemias, tenha sido surpreendida por um vírus que, da noite para o dia, nos obrigou a catalisar nossa capacidade única entre as espécies de criar, recriar e reinventar quantas vezes for necessário.

Foi justamente por não termos nos preparado para a crise que, querendo ou não, ativamos nossas habilidades de inventores, inovadores e transformadores.

O tamanho do estrago na economia mundial é imensurável. O PIB global, prevê a OCDE, pode cair 7,6% este ano se tivermos uma segunda onda de infecções. É difícil olhar a metade cheia do copo, mas é inegável que a crise trouxe lições que seguirão como um legado destes tempos difíceis.

A primeira e principal delas é que nada é para sempre. Inclusive, graças a Deus, a própria pandemia.

Como estamos nessa há mais de 4 meses, já é possível notar quantas transformações fomos obrigados a fazer para manter nossos negócios imunes, ou ao menos em condições de sobreviver, por causa do maldito coronavírus.

Não há como não maldizer um vírus que está causando tanto sofrimento e já ceifou mais de meio milhão de vidas, mas no mundo corporativo é perceptível que a Covid-19 deixará muitas heranças positivas.

Não, não estou deixando de enxergar a metade vazia do copo, para seguir com a analogia. É absolutamente lamentável o extermínio de empresas e de empregos em todo o mundo. De acordo com o IBGE, mais de 522 mil empresas fecharam no Brasil somente na primeira quinzena de junho. É de cortar o coração assistir todos os dias os índices de óbitos e novos infectados. Nada irá reparar estas perdas de amigos e entes queridos.

Meu ponto aqui é sobre os aprendizados que os empreendedores já incorporaram e irão adotar para sempre na gestão e governança de suas empresas. No que tange à administração de negócios trago uma indagação (ou várias).

O que estamos começando a viver é mesmo um “novo normal” ou é um normal que já deveríamos praticar há muito tempo e só não o fazíamos por dogmas seculares de um estilo de gestão esculpido lá atrás na revolução industrial?

E aí digo sem medo que as startups de ponta são as que reúnem as melhores condições de não só se adaptar, mas de liderar nosso ingresso no “velho novo normal”.

Afinal, são elas que, desde o início dos anos 2000, fundamentaram novas metodologias e filosofias de gestão. As startups são mais ágeis, resilientes, flexíveis, criativas, conectadas e focadas em métricas e resultados. Para elas, o “novo normal” não parece tão novo assim. É um “velho novo”. Já para grandes organizações a jornada para esta nova civilização pode ser mais tortuosa.

A rápida adoção do home office e a possibilidade de contratar talentos de qualquer lugar do mundo; as videoconferências no lugar das reuniões intermináveis com muita conversa jogada fora; o fim das horas desperdiçadas no trânsito; o aceite de transações e contratos digitais no lugar de milhares de rubricas, carimbos e filas nos cartórios; o uso mais intenso da computação em nuvem e de softwares como serviço.

A lista de novos modelos de trabalho e negócios com o suporte das ferramentas digitais é extenso. Só não dá para entender: por que só agora?

Por que não antes da pandemia?

Por que antes “de jeito nenhum” e agora “não tem outro jeito”?

Por que não contratar os melhores profissionais de qualquer lugar do mundo?

Por que não simplificar processos e digitalizar a burocracia?

Por que não usar mais a nuvem em vez de investir milhões em infraestrutura física?

Por que não tornar tudo mais ágil e definir processos que potencializem a produtividade?

Em nosso ecossistema de startups vimos um grande número de empresas que já estavam bem preparadas para o trabalho remoto, especialmente as que tinham uma cultura forte, ritos bem disciplinados e metodologia ágil.

Quando a pandemia nos forçou ao isolamento, a aceleração da gestão remota foi um caminho natural para muitas startups, mas há setores que dependem de operações físicas e tiveram que ir além para garantir a segurança de quem estava na ponta.

Com a entrada de vários novos lojistas nos canais digitais e o aumento da demanda de pedidos, as startups que atuam no ecommerce precisaram rapidamente adotar protocolos sanitários para não comprometer as entregas, como encontrar alternativas de transporte para os colaboradores por meio de aplicativos e até mesmo incentivando o uso de bicicletas compartilhadas.

Assim como o varejo, muitos outros setores que ainda não tinham se virtualizado tiveram que se aliar com as startups de tecnologia para anabolizar a transformação digital e não baixar as portas.

Academias foram para as plataformas digitais; os supermercados e restaurantes para os aplicativos de delivery; o pequeno comércio aderiu ao WhatsApp como canal de venda; os médicos e terapeutas passaram a fazer consultas online; as escolas levaram as aulas para as salas virtuais; casamentos e aniversários foram celebrados pela Internet; clientes dos bancos que nunca tinham feito uma TED pelo celular provavelmente nunca mais voltarão a visitar uma agência física.

Um levantamento do Ibre/FGV concluiu que 90% das empresas brasileiras realizaram alguma mudança no modo de operação e 56% afirmaram que irão incorporar parcialmente ou totalmente o que foi implementado no período de pandemia. E outros 18% ainda desenvolveram novos produtos ou serviços.

Muita empresa se virou, pivotou, criou, inventou, inovou, deu seu jeito para se manter no jogo. E agora é vida que segue. Ou você acha que tudo isso vai voltar a ser como antes depois que dermos adeus ao maldito?

Não tenha dúvida. São organizações com um time engajado no mesmo propósito, disciplinado, focado em performance e rápido para tomar decisões, as que conseguem não só navegar melhor, mas tirar proveito da crise. São empresas que estão na vanguarda da gestão.

São assim as startups. Invista nelas. Feche alianças e parcerias. Participe do ecossistema. Elas serão seu passaporte para o “velho novo normal”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão – e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Marketing
14 de maio de 2026 15H00
Executivo tende a achar que, depois de um certo ponto, não é mais preciso contar o que faz. O case da co-founder do Nubank prova exatamente o contrário.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de maio de 2026 08H00
À luz do Aikidô, este artigo analisa a transição da liderança coercitiva para a liderança que harmoniza sistemas complexos, revelando como princípios como Wago, Awase e Shugi‑Dokusai redefinem estratégia e competitividade na era da incerteza.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Liderança
13 de maio de 2026 15H00
Em um mundo dominado pela urgência e pelo excesso de estímulos, este artigo provoca uma reflexão essencial: até que ponto estamos tomando decisões - ou apenas reagindo? E por que recuperar a capacidade de pausar, escolher e agir com intenção se tornou um diferencial crítico para líderes e organizações.

sabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

7 minutos min de leitura
Finanças, Inovação & estratégia
13 de maio de 2026 08H00
Entre pressão por resultados imediatos e apostas de longo prazo, este artigo analisa como iniciativas de CVC podem sobreviver ao conservadorismo corporativo e construir valor além do retorno financeiro.

Rafael Siciliani - Gerente de New Business Development na Deloitte

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
12 de maio de 2026 14H00
O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.

Bell Gama - Sócia-fundadora da Air Branding

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
12 de maio de 2026 08H00
Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
11 de maio de 2026 15H00
A troca no comando da Apple reacende um dilema central da liderança: como assumir um legado sem se tornar refém dele - e por que repetir o passado pode ser o maior risco em qualquer processo de sucessão.

Maria Eduarda Silveira - CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de maio de 2026 08H00
Vivara, Natura, Blip, iFood e Endeavor já estão usando o Open Talent para ganhar agilidade e impacto. Este artigo revela por que a liderança por projeto e o talento sob demanda estão redesenhando o futuro do trabalho.

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de maio de 2026 15H00
Em certas empresas, estar certo não basta - é preciso ser relevante na sala onde as decisões realmente acontecem. Este artigo revela por que, em estruturas de controle concentrado, a influência do CFO depende menos da planilha e mais da capacidade de ler pessoas, contexto e poder.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela como contratações executivas mal calibradas - ou decisões adiadas - geram custos invisíveis que travam crescimento, atrasam decisões e comprometem resultados no longo prazo.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão