Dossiê 1: Disrupção

Sua organização é design-driven?

Fala-se muito em ser data-driven e, de fato, ter dados é crucial nos dias atuais. Mas está longe de bastar: a diferenciação no ambiente competitivo atual depende da inovação, a partir do design thinking. Mas isso não significa só um processo. Trata-se de ter uma organização inteira de pessoas com 11 competências-chave
Priscila Alcântara é gerente-sênior de design do CESAR, centro de inovação do Recife (PE). Colaboraram Eduardo Peixoto, Érika Campos, Gabi Boeira, Giordano Cabral, h.d. mabuse, Helda Barros e Willian Grillo – todos eles designers ou profissionais que trabalham com o pensamento do design. Este artigo reúne highlights do livro *O futuro das organizações pela perspectiva design-driven, recém-lançado pela Alta Books*.

Compartilhar:

*Selecione uma ou duas alternativas que mais representam sua organização hoje:
( ) Sabemos que não somos os usuários finais do nosso produto/serviço e que, nem sempre, nossos desejos e necessidades equivalem aos do nosso público. Por isso, buscamos adequar nossas entregas aos usuários finais e não a nós mesmos.
( ) Enxergamos a tecnologia como um meio de resolução de problemas e não como objetivo final do desenvolvimento do produto ou serviço.
( ) Temos o cuidado de não sobrecarregar as pessoas envolvidas no processo de desenvolvimento de soluções de ponta a ponta.
( ) Temos experiência em nosso segmento e sabemos o que precisa ser feito. Nossa equipe entende que sacrifícios são necessários para entregar o que foi definido pela gestão.*

Acredita-se cada vez mais que um fator crítico para o sucesso das organizações é a capacidade de conjugar eficiência e continuidade com o questionamento do status quo – primeiro passo para provocar saltos disruptivos.

Mas, de acreditar a implantar essa capacidade pode haver um abismo. Isso por pelo menos duas razões: (1) é bastante desafiadora a conjugação disso com continuidade e eficiência, e (2) ir além das boas ideias, o que é essencial, é bem mais difícil do que se pensa. (Ir além significa promover um ciclo de produção e validação, quando o produto/serviço é aceito no mercado e há retorno de investimento.)

Nós, do centro de inovação CESAR, acreditamos no uso permanente de métodos do design para uma organização alcançar esse elemento do questionamento e atingir o sucesso. É inerente ao design descobrir e redefinir problemas e, então, conceber soluções. Pelo design, estuda-se um conceito, para que, quando ele passe à fase de desenvolvimento, a proposta já esteja mais próxima da ideal, uma vez que já foi testada e validada.

Trata-se de um processo – assim como é processo, por exemplo, a linha de produção taylorista e outros tantos processos da gestão. Mas há uma grande, gritante, diferença: no centro d0s métodos de design têm de obrigatoriamente estar as pessoas – suas vivências, experiências, necessidades. Em outras palavras, é um processo, sim, mas colaborativo, com um olhar para o usuário e, mais que isso, com um olhar para questões do cuidado. Cuida-se das pessoas e também dos resultados econômicos, socioambientais e outros.

Nos últimos dois anos mapeamos as características que fazem uma organização ser design-driven. O mapeamento resultou em um teste, que você pode fazer em nosso site {[clique no link](https://livro-de-design.apps.cesar.org.br/)} e em um livro a muitas mãos.

Design thinking também não tem a ver só com jornada do consumidor; é o desenho de projetos, da corporação e de como suas ações trazem impactos à sociedade. O pensamento e os métodos do design são essenciais em um centro de inovação como o CESAR – que os empresta a clientes e parceiros – e em todas as empresas que querem inovar com mais naturalidade, que chamamos de “organizações design-driven”.

Estudos diversos confirmam que empresas consideradas inovadoras usam abordagens de design no dia a dia. Trata-se de uma forma de pensar e conduzir projetos que incentiva a atitude, promove a experimentação e impulsiona times e pessoas a expandir seus horizontes.

Chegamos, então, ao ponto crucial deste artigo: acreditamos que, mais do que o processo em si, uma organização só se torna design-driven se as pessoas e equipes tiverem um padrão de comportamento tal que se sintam impelidas de maneira natural a buscar novas oportunidades para a solução de problemas complexos.

## Processos versus pessoas
O ponto de partida para ser uma organização design-driven não é um processo linear de design ou uma receita que funcione para todos os tipos de desafios. O que diferencia as organizações design-driven é que nelas existem pessoas regidas por 11 habilidades-chave e uma liderança com características transformadoras, aberta à experimentação e disposta a estimular a contribuição dos times. Colocar em prática ferramentas, abordagens e métodos vem como consequência disso, tendendo a aumentar as chances de bons resultados.

É preciso colocar as coisas em perspectiva. Às vezes tendemos a comparar todos os processos de entrega com a linha de produção de uma fábrica, incluindo os processos de inovação. Há essa expectativa em muitas empresas para abordar inovação, quase sem querer, esquecendo que isso funciona para o que precisa escalar.

Embora se entenda que, em pesquisa e desenvolvimento, o foco é na inovação em si e a fase de escala vem só depois de avançar em experimentos, testes e entendimento, a liderança de uma empresa convencional muitas vezes já pensa na fase de escala. O líder da organização design-driven, não; ele lembra que, antes de escalar algo, aquilo precisa passar por uma fase de projeto, estudo e entendimento {veja quadro abaixo com as perguntas que ajudam nisso}.

![Thumbs HSM 160 Prancheta 1 cópia 27](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/fM5oQQGcgRb2gdn7nFqwO/b99deb41be27d7de9e007ab9852d88ec/Thumbs_HSM_160_Prancheta_1_c_pia_27.jpg)

Milhões de doses de uma medicação revolucionária não são logo fabricadas em escala, certo? Passam antes por várias fases de experimentação. Nem um carro novo. Por que se gastaria tanto dinheiro em um produto cujo resultado ainda é incerto? E se tudo der errado? Faz mais sentido aprender com o erro perdendo pouco tempo e dinheiro do investimendo pesado.

Então, repassando, apesar de ser focada na entrega de soluções, uma organização design-driven não pode ser regida por processos. Nela, precisam contar as pessoas mais do que os processos. (Até por ser focada também no desenho e redesenho da própria corporação como uma contínua adaptação a mudanças de mercado.)

Uma analogia para esse tipo de organizacão não pode ser uma esteira de fábrica, portanto, e sim um espetáculo de música em sua apresentação de estreia. Existem músicos rigorosamente selecionados para que ele aconteça. E a composição e a curadoria geralmente passam por uma pessoa responsável pela condução da orquestra – um maestro ou maestrina vai direcionar, incentivar e colaborar para que toda a equipe de instrumentistas e de produção (cenário, figurino etc.) esteja empenhada em entregar um espetáculo excepcional ao público.

Semelhante a um espetáculo de música, de depende de músicos e entendidos em música, não há como entregar inovação pelo design sem ter designers e gente com cabeça de design na organização design-driven. E se na orquestra há o maestro, na organização design-driven há que ter uma liderança letrada em design, que abraça e admite a incerteza e a ambiguidade, que é ambidestra entre presente e futuro, e entre as doutrinas de custo e riscos da inovação. Na prática, as pessoas ali devem cultivar 11 características.

## Os 11 pilares
Agora vamos ajudar você a identificar do que é feita uma organização design-driven – de pessoas e de um contexto que tenha estes pilares:
__1. Empatia e alteridade ―__ Frases como “colocar-se no lugar do outro” têm sido ouvidas frequentemente nas organizações, mas pouco fala de alteridade. Esse termo da antropologia e visa reconhecer o outro com as suas diferenças no âmbito cultural e social. Empatia e alteridade entram no processo de trabalhar com diferentes pessoas, “aprender a escutar as outras e extrair o melhor das diferenças para de fato inovar”.
__2. Colaboração e diversidade ―__ É um dos mais importantes pontos de sucesso para qualquer iniciativa. A colaboração pode ser otimizada de várias modos e deve ser enriquecida com a diversidade, amplificando a capacidade inovadora com perspectivas diferentes.
__3. Abertura para o novo ―__ Observar, questionar e experimentar são os princípios-chave aqui. Tudo isso para pensar na jornada, que requer um ambiente de segurança e autonomia para as pessoas. É algo cultural.
__4. Conhecimento dos processos de design ―__ Uma organização design-driven assimila o processo de design como parte de sua cultura corporativa, trazendo valores direcionados ao humano em um contexto no qual designers e não designers tornam-se multiplicadores desses processos. Quais as vantagens da adoção transversal dos processos de design por organizações? A possibilidade de entender contextos e atuar sobre problemas.
__5. Cultura de experimentação ―__ Quando experimentar faz parte da cultura da empresa, novas soluções para problemas (os novos e os antigos) emergem das práticas difundidas e aplicadas no dia a dia. Experimentar faz as pessoas inventivas e engajadas.
__6. Orientação para autonomia ―__ Os benefícios para as pessoas correrem riscos devem ser sempre repetidos, bem como as demonstrações de confiança e apoio que recebem.
__7. Criatividade consciente ―__ A criatividade está intimamente ligada à arte, à experimentação e ao lúdico. Como acontece no contexto corporativo do mercado de trabalho? Em geral, restrições servem como ignição.
__8. Abertura para o risco ―__ “Sem risco não se faz inovação, e sem inovação corre-se o risco de ser extinto.” Esse mantra da tolerância ao risco é fundamental em uma organização design-driven e deve ser treinado; precede ferramentas e processos.
__9. Engajamento ―__ Responsabilidade da liderança, fruto de um ambiente de trabalho seguro e colaborativo, e cultura organizacional. Sempre o líder deve dedicar tempo a engajar os times das organizações em seus mais variados tamanhos e conformações.
__10. Disposição e determinação ―__ O design pode ser uma poderosa ferramenta para construir visões de futuro compartilhadas e promover produtividade. E isso leva à criação de um ambiente de grande disposição e determinação para novos desafios.
__11. Atitude questionadora ―__ Essa é uma parte importante da personalidade das pessoas que são ou atuam como designers. Não pode haver um limite para questionamentos (educados) dentro do desenvolvimento de um projeto, produto ou serviço.

__Leia também: [Não se ganha o jogo sem o modelo de negócio certo](https://www.revistahsm.com.br/post/nao-se-ganha-o-jogo-sem-o-modelo-de-negocio-certo)__

Artigo publicado na HSM Management nº 160.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A IA aumentou a produtividade, mas quem está ganhando tempo?

Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.

A IA não está substituindo os bancos. Está mudando o trabalho dentro deles.

O que realmente importa para quem utiliza serviços financeiros é resolver uma demanda com segurança e agilidade. Em um setor cada vez mais digital, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de combinar automação e inteligência humana da forma certa em cada etapa da jornada.

A Reforma Tributária já não é um tema fiscal. É um tema de supply chain.

O artigo mostra por que a transição para o novo modelo tributário exige uma visão integrada da cadeia de suprimentos e alerta que a vantagem competitiva poderá estar menos na interpretação da legislação e mais na capacidade de adaptar processos, sistemas e operações antes que as mudanças se tornem obrigatórias.

Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Tecnologia & inteligencia artificial, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de outubro de 2026 14H00
Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de outubro de 2026 08H00
O que realmente importa para quem utiliza serviços financeiros é resolver uma demanda com segurança e agilidade. Em um setor cada vez mais digital, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de combinar automação e inteligência humana da forma certa em cada etapa da jornada.

João Pedro Brasileiro - CEO da Innovation Latam, Professor da Fundação Dom Cabral (FDC) e da XP Educação

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
9 de outubro de 2026 14H00
O artigo mostra por que a transição para o novo modelo tributário exige uma visão integrada da cadeia de suprimentos e alerta que a vantagem competitiva poderá estar menos na interpretação da legislação e mais na capacidade de adaptar processos, sistemas e operações antes que as mudanças se tornem obrigatórias.

Jade Lumi Satomi - Diretora de Indústria na nstech

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
9 de outubro de 2026 08H00
A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Maria Eduarda Silveira - Founder & CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Estratégia
8 de outubro de 2026 14H00
Da aquisição à expansão de clientes, o artigo propõe uma reflexão sobre como organizações podem substituir crescimento baseado em volume por crescimento sustentado por retenção, adoção de valor e decisões mais inteligentes.

Renata Centurión - Sócia e Diretora da Winning By Design LATAM

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Vendas
8 de outubro de 2026 08H00
Diante de metas ameaçadas, a reação mais comum é fazer mais: mais reuniões, mais pressão, mais descontos, mais cobranças. O problema é que nem sempre atividade gera resultado. À medida que dezembro se aproxima, o verdadeiro desafio pode estar menos em acelerar e mais em eliminar comportamentos que comprometem decisões, margens e o próximo ciclo de vendas.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

8 minutos min de leitura
Liderança
7 de outubro de 2026 14H00
O artigo discute por que sucessão, desenvolvimento de lideranças e fortalecimento da cultura organizacional deixaram de ser temas de RH para ocupar o centro das decisões estratégicas e da competitividade empresarial.

Renato Bagnolesi - CEO da FESA Group

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança
7 de outubro de 2026 08H00
Metade dos executivos ouvidos pelo BCG já vê a própria equipe perdendo habilidades por causa da IA, e o julgamento é a primeira a cair. Velocidade sem discernimento não é ganho, é dívida com outro nome.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
6 de outubro de 2026 14H00
Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
6 de outubro de 2026 08H00
Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

9 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução