Business content

Sucesso é colaboração

A clareza de que ninguém consegue resolver nada sozinho nos tempos atuais faz com que o CEO do Grupo Bayer Brasil defenda unir forças com pessoas e instituições – e que priorize a diversidade

Compartilhar:

Catalão de Barcelona, o engenheiro agrônomo Marc Reichardt assumiu o comando do Grupo Bayer Brasil em agosto de 2018 com o desafio de consolidar a fusão, aprovada seis meses antes, das operações da empresa com as da Monsanto. Levando em conta que a subsidiária do Brasil, com 125 anos de existência, é uma das unidades mais importantes para a Bayer global, foi um desafio e tanto. Neste bate-papo com Elisabete Rello, head de recursos humanos da empresa no Brasil, ele aborda as mudanças na gestão de pessoas.

Essa conversa foi especial: foi a última que Rello teve com Reichardt, porque ela acaba de se aposentar. Rello conseguiu fazer o CEO quebrar sua regra de “falar menos, ouvir mais” – ele falou bastante.

## Atenção às tendências

__ELISABETE RELLO: O que é ser líder de empresa hoje?__
__MARC REICHARDT:__ Um CEO deve continuar a liderar pelo exemplo, como antes, porém estando muito mais aberto a ouvir as pessoas que lidera e acompanhando tudo o que acontece na sociedade e dentro da empresa.

Falar menos e ouvir mais é crucial por, no mínimo, duas razões. A primeira é que, diante de problemas cada vez mais coletivos, não resolvemos nada sozinhos. Precisamos unir forças com outras pessoas e instituições – outras empresas, startups, consultorias, universidades, representantes da sociedade civil como um todo. Para isso, reforço, ter escuta ativa é essencial.

Percebemos, em segundo lugar, que o líder também assume hoje um novo papel social. Os novos cenários sociais estão constantemente exigindo de nós novas posturas e competências. Agora, a transformação digital e o compromisso com a sustentabilidade de nossas operações nos impulsionam a promover práticas ligadas à preservação do meio ambiente e às preocupações que afligem a sociedade. Entendemos que o sucesso do nosso negócio esteja intimamente ligado a essas mudanças socioambientais de que nosso mundo precisa.

__Mudou o que leva uma empresa a ter sucesso?__
Somos uma empresa líder em saúde e nutrição cuja visão é “saúde para todos e fome para ninguém”. Assumimos o compromisso de ajudar a transformar esses setores contribuindo para a solução dos grandes desafios do nosso tempo e que, por isso, está repensando a forma como as coisas são feitas. Para lidar com isso tendo chance de sucesso, precisamos ter um time diverso que seja engajado, preparado e criativo.

Em nossa estratégia reformulada, os três pilares de negócio – sustentabilidade, inovação, pessoas e cultura – aparecem de forma intrinsecamente conectada. Inclusão e diversidade geram um ambiente de trabalho sustentável e um terreno fértil para a inovação, que, por sua vez, deve levar em conta os desafios socioambientais coletivos que a humanidade enfrenta.

Permita-me acrescentar que nossas metas para 2030 são alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e ao Acordo Climático de Paris. Até 2030 pretendemos, entre outras coisas, ser uma empresa carbono neutro, reduzir as emissões de poluentes em toda a cadeia de valor e reduzir o impacto ambiental dos nossos produtos de proteção de culturas em 30%.

__Se o segredo do sucesso são funcionários diversos e engajados, pergunto: a receita para engajar mudou?__
Ter uma visão inspiradora e que conecte os diferentes negócios em torno de um objetivo comum sempre foi importante, assim como ter nos líderes o exemplo dos valores da organização.

Mas há, sim, novidades na receita: ter uma cultura em que as pessoas possam exercer o seu pleno potencial e, ao mesmo tempo, tenham o direito de ser quem são; oferecer desafios que favoreçam o desenvolvimento e o crescimento profissional; líderes que sejam centrados na humanização das relações e no desenvolvimento das pessoas; moldar o ambiente organizacional de forma que seja tolerante ao erro, estimule a experimentação e favoreça a inovação; genuinamente cuidar de si mesmo para poder cuidar bem do outro.

__Nosso RH faz isso bem feito? Você o considera suficientemente estratégico e próximo do negócio?__
Sim! Você percebe que nossos três pilares estratégicos envolvem o RH? No pilar “pessoas e cultura”, o RH estabeleceu as prioridades de forma bastante integrada com o negócio, montando grupos multidisciplinares que incluíram representantes dos negócios e áreas de suporte. Planos de curto, médio e longo prazo foram definidos em conjunto e contemplam tudo o que é preciso: desenvolvimento de líderes que possam conduzir as transformações que a empresa necessita, desenvolvimento de uma cultura inclusiva, gestão integrada de talentos, transformação cultural e digital.

Em relação a sustentabilidade, o papel do RH também é fundamental – por exemplo, para ressignificar como a alta liderança toma decisões; agora o processo decisório deve incorporar riscos, oportunidades e impactos relacionados a ESG. Simplesmente não dá para mudar mentalidades sem o RH – e, na Bayer, estamos mudando o mindset de sermos “os melhores do mundo” para “os melhores para o mundo”. É o RH que impulsiona essas mudanças, com treinamento e muitas ações, e ajuda as pessoas a superar as barreiras para mudar. O mesmo vale para inovação. Na Bayer, o RH está em contato direto com equipes de sustentabilidade, HSE (saúde, segurança e meio ambiente), transformação digital e gestão de mudança.

__Se você tivesse de escolher uma palavra para descrever o RH da Bayer no último ano, qual seria?__
Inclusão. Um grande avanço para nós em 2020 se deu com o lançamento do Programa de Trainees Liderança Negra Bayer, maior edição já realizada do nosso programa de trainees e feita exclusivamente para talentos negros. O programa somou mais de 25 mil inscrições e selecionou 19 profissionais, sendo 16 das vagas preenchidas por mulheres. Os profissionais têm entre 22 e 30 anos de idade e, por um ano e meio, terão contato com a alta liderança da companhia, sendo preparados para assumir posições de liderança no futuro. Também em 2020, desenvolvemos o Programa de Mentoria Bayafro para estagiários e profissionais juniores negros, que passaram por uma trilha de desenvolvimento de três meses, oferecida por mentores escolhidos por eles e focada em questões raciais. Além disso, no nosso programa de estágio de 2020, mais de 60% dos candidatos selecionados se autodeclaravam negros.

__E incluir é inovar, como você costuma dizer. Você acha que a experiência de trabalho no meio digital veio para ficar?__
Sim, definitivamente. Tanto que anunciamos para os colaboradores o BayFlex, nosso modelo de trabalho para o pós-pandemia, que combina trabalho presencial e remoto; e há total flexibilidade para líderes e seus times estabelecerem isso.

Rapidamente nos adaptamos a processos digitais: assinaturas de documentos, folha de pagamento totalmente virtual, inteligência artificial na área de aquisição de talentos etc. Fazer contatos com clientes no modo virtual passou a ser o novo normal. E os funcionários, eu incluído, se acostumaram muito com as ferramentas digitas para trabalhar – apesar de que, até hoje a frase mais ouvida nas reuniões online é “você está no mute” [risos].

## O futuro dos talentos

__Como você vê os líderes e os profissionais do futuro? É uma preocupação sua reunir essas pessoas?__
Totalmente. Considero meu maior desafio de 2022 termos líderes transformadores, que abram caminho para um amanhã mais forte. Eles são focados em pessoas e resultados, em vez de impulsionados por políticas, procedimentos e resultados financeiros. Eles dedicam tempo ao aprendizado e ao coaching e são obcecados em construir uma cultura inclusiva. Eles encorajam a experimentação e aprendem com os erros.
Quanto ao profissional do amanhã, espero pessoas autênticas que desafiam o status quo, acolhem perspectivas diferentes das suas e as transformam em vantagem competitiva, valorizam a aprendizagem, abraçam a sustentabilidade e focam o coletivo, sendo empáticos. É importante que os líderes da empresa se apropriem dos talentos e assumam plena responsabilidade pela sua identificação, desenvolvimento e retenção.

__… e o RH fornece ferramentas e programas de desenvolvimento e reconhecimento para apoiar o papel de desenvolvedores de talentos dos líderes. O que o RH deve parar de fazer? O que deve começar a fazer?__
Se ainda tiver foco em processos burocráticos e que não aportam valor direto ao cliente e ao negócio, o RH deve parar com isso. E para começar a fazer, sugiro agir de maneira mais visível em relação à agenda de sustentabilidade.

__MARC REICHARDT__
Fez carreira na Polônia, na Alemanha e na Argentina e é investidor no BR Angels.

__ELISABETE RELLO__
É psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e acaba de se aposentar.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de maio de 2026 14H00
Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT e membro do Conselho de Administração da IMA

13 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
27 de maio de 2026 08H00
A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.

Tiago Amor - CEO na Lecom

3 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.

Luiz Costa - Gerente de Inovação da Dome Ventures e Lincoln Ferdinand - Gerente de Marketing da Dome Ventures

3 minutos min de leitura
Estratégia, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de maio de 2026 07H00
Ao criticar abordagens superficiais e reativas, este artigo mostra por que cumprir a norma não basta - e como organizações precisam ir além do diagnóstico de risco para construir, de fato, ambientes que sustentem o florescimento humano.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

11 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
25 de maio de 2026 17H00
Diante da crescente complexidade dos negócios, este artigo propõe uma mudança estrutural: sair de modelos organizacionais fragmentados para desenvolver a nexialidade - a capacidade de conectar inteligências, integrar decisões e operar como um sistema coletivo em rede.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

7 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
Quando a inteligência deixa de ser centralizada, a criatividade deixa de ser limitada - e a organização inteira passa a responder melhor ao mundo real.

Marcos Brabo - Chief Strategy Officer (CSO) e sócio da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia
25 de maio de 2026 08H00
Ao olhar para o fitness como laboratório de comportamento, este artigo revela por que engajamento real não nasce da atração inicial, mas da capacidade de transformar intenção em rotina por meio de conveniência, personalização e pertencimento.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de Pessoas
24 de maio de 2026 12H00
Quando a energia do Mundial entra no cotidiano corporativo, o humor, empatia e pertencimento se modificam; e quem ganha é a corporação, com o incremento do comprometimento de colaboradores e impactados

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

0 min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de maio de 2026 08H00
Este artigo propõe uma nova lógica de liderança: menos controle, mais calibração - onde a inteligência artificial não reduz a agência humana, mas redefine a forma como decidimos, pensamos e lideramos em contextos de incerteza.

Carlos Cruz - Pesquisador, Escritor e Consulting Partner Executive na IBM

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão