Uncategorized

Três fronteiras humanas do mundo movido por dados

Entenda, neste artigo, os três contextos em que o fenômeno do big data se manifesta –organizacional, acadêmico e social– e suas potenciais consequências
A reportagem é de Renato Rocha Souza, professor e pesquisador da Escola de Matemática Aplicada da FGV-RJ e da Escola de Ciência da Informação (UFMG). Bacharel em engenharia elétrica pela PUC-Rio, é mestre em engenharia de produção pela Universidade Federal de Santa Catarian (UFSC), doutor em ciência da informação pela UFMG e pós-doutor em ciência da computação pela University of South Wales, no Reino Unido.

Compartilhar:

QQuando Caetano Veloso fez essa pergunta no final dos anos 1960, não podia imaginar que aquilo ainda era notícia pouca. O que são algumas dezenas de manchetes de jornais ante o fato de que, em 2014, foram trocados mais de 500 milhões de mensagens por dia no Twitter? O que são alguns leitores de jornais quando o Facebook fechou o ano passado com cerca de 1,2 bilhão de usuários e um volume de informação ainda mais exorbitante? 

Redes sociais online como o Twitter e o Facebook são talvez a face mais aparente do fenômeno que está sendo conhecido como big data e servem para rapidamente nos dar uma ideia de como esse volume exponencial de informações vem impactando os seres humanos. Se, até recentemente, o big data era enxergado como um fenômeno principalmente tecnológico, agora isso está mudando, graças aos impactos que vem causando em nossa vida. Para que seja possível entendê-lo melhor, eu o separei em três fronts principais: nas empresas, na academia e na sociedade. Dados se referem a pessoas, são úteis para pessoas e são analisados por pessoas –de modo geral, pode-se dizer que um projeto de análise depende 70% das pessoas e 30% da tecnologia.

**NAS EMPRESAS**

De tempos em tempos, surge, nas empresas, o interesse por algum novo conceito que leva a inovação, melhor posicionamento ou maior market share, comumente acompanhado de metodologias e tecnologias. Muitas dessas novidades são efêmeras, mas a maioria traz benefícios para os negócios, ainda que nem sempre traduzidos em retorno sobre o investimento, e para as pessoas. 

Assim como foram reengenharia, 6-Sigma, TQM, design thinking e universidades corporativas, o big data analytics é a vedete da vez no âmbito empresarial. Seus benefícios? Além de atender os CIOs com preocupações em relação a compliance, performance e gestão das operações, tem feito surgir toda uma economia movida por dados (data-driven economy).

A explosão informacional observada –os poucos terabytes de dados existentes em 2012 que já são muitos petabytes hoje– fez existirem dezenas de plataformas e ferramentas que cobrem de bancos de dados de alta performance a ferramentas de visualização e análise. Não há dúvida de que o big data analytics está mudando as empresas, com os profissionais passando a usar análise tanto nos processos operacionais como nos decisórios. 

Mas o fenômeno também está mudando as pessoas dentro das organizações. Aos poucos, impõe mudanças no perfil da força de trabalho, adaptando-a a novas demandas. Devido ao alto grau de especificidade, experimentação e investigação, um projeto de big data demanda muito trabalho artesanal. Cerca de 70% do tempo e esforço gastos se destinam às fases preparatórias, quando a competência das pessoas é mais importante que a tecnologia. 

Portanto, surge e se fortalece a figura do cientista de dados. Quem é? Trata-se de um profissional híbrido, que domina as competências necessárias para tratar quantidades maciças de dados, vindas de áreas pouco representadas nas organizações –estatística, matemática aplicada, linguística computacional, inteligência artificial, ciência da computação, ciência da informação, computação gráfica e visualização de informação, entre outras. 

E, como essas disciplinas raramente são ensinadas nos currículos dos cursos de graduação de praxe, um novo tipo de negócio educacional emerge como efeito colateral do big data: os chamados nanodegrees. São cursos pontuais que visam promover o domínio de uma competência específica, em geral afinada com a necessidade do mercado, e que gera novas configurações também na academia.

**NA ACADEMIA**

O leitor deve estar acompanhando o imenso sucesso de empresas baseadas na internet como Coursera, Udacity e edX, que oferecem centenas de MOOCs (sigla em inglês de cursos abertos online), conquistando milhões de alunos em todos os continentes e proporcionando disseminação inédita de competências como o domínio de ferramentas e linguagens de programação. 

Esses cursos não teriam tanto apelo não fosse o big data analytics. E estão transformando a academia e seus integrantes ao buscar reconciliar a formação das pessoas com as demandas do mercado. A influência do fenômeno no ambiente acadêmico também é percebida nas pesquisas de ciências humanas, onde já se fala de humanidades digitais. Elas nada mais são do que as ciências sociais embarcando na onda do analytics; entre outras coisas, elas incorporam ferramentas tecnológicas para fazer suas pesquisas.

Os excessos informacionais propiciam novas e desafiadoras formas de fazer pesquisa. Tomemos como exemplo o trabalho de revisão bibliográfica e estabelecimento do estado da arte, fundamental para qualquer pesquisa. Com a explosão na quantidade de relatórios e artigos instantaneamente publicados, há que se abandonar qualquer pretensão de completude. 

São necessários recortes explícitos, e muitas vezes arbitrários, pois a quantidade de publicações e fontes disponíveis sobre assuntos específicos é frequentemente intratável. Exceto por estudos em campos de conhecimento mais perenes, como a filosofia, o fenômeno da rápida obsolescência torna o conhecimento produzido pela academia cada vez mais datado. 

Analogamente, nas ciências exatas e naturais, tem-se popularizado o processo de pesquisa dirigida por dados (data-driven research), também conhecida como e-science. Nessa modalidade, realizam-se inúmeros testes de hipóteses em grandes massas de dados como preâmbulos exploratórios e, na medida em que se encontram caminhos promissores derivados dos dados, busca-se aprofundá-los quantitativa e qualitativamente, por meio de mudanças de foco interativas. Não adianta negar: com o big data, o método científico tradicional caducou. Mais cedo ou mais tarde, os cientistas terão de incorporar as novas dinâmicas em suas metodologias.

**NA SOCIEDADE**

E quais as consequências para a sociedade e os indivíduos? Aqui há algumas perspectivas positivas e outras nem tanto. Gestores públicos antenados preocupam-se em materializar as cidades inteligentes (smart cities) –onde dados coletados em sensores como câmeras, GPS, radares e outros, presentes nas redes de transporte público, rodovias, prédios inteligentes, drones etc., podem levar a um entendimento melhor dos problemas urbanos e à melhoria da qualidade dos serviços públicos e da vida em geral. 

Percebemos também a bem-vinda democratização do acesso às informações, que pode fazer com que, por exemplo, as distorções da mídia fiquem mais explícitas e sejam bem mais facilmente contornáveis pelos cidadãos. No polo negativo, contudo, assistimos ao crescente aparelhamento de agências como a NSA norte-americana ou de gigantes empresariais como a Microsoft e o Google, em lutas com idealistas como Assange e Snowden. Ao nos espionarem, esses vilões contemporâneos lembram nossos temores sobre a evolução para uma sociedade de George Orwell, distópica, onde se garante o controle ideológico estatal. 

Afinal, assim como eu, você deve estar vendo a Coreia do Norte e o Estado Islâmico crescerem nessa direção do controle das informações. Mesmo nas comunidades construídas em torno de redes sociais, assistimos a episódios de invasão de privacidade e vazamento de dados pessoais, não é verdade? E os excessos ainda trazem outros perigos, como os da alienação e do amortecimento dos juízos de valor, à moda do que ocorre em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Na verdade, é cada vez mais difícil estabelecer parâmetros para julgar a qualidade de uma informação e, nesse sentido, os excessos podem ser tão ou mais prejudiciais do que a falta. 

**IGNORAR É PRECISO**

Para evitar os efeitos negativos aqui descritos e poder desbravar o século 21, você deve compreender as duas novas e fundamentais competências. Elas são a capacidade de ignorar seletivamente e a de reconhecer o essencial, que é invisível aos olhos –e ao analytics.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

O tempo que doamos é o futuro que aceleramos

O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

76% das organizações já têm um Chief AI Office (CAIO). E agora, qual é o papel do CEO?

Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

A NR-1 perguntou sobre o trabalho. A empresa respondeu sobre as pessoas.

A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de agosto de 2026 14H00
Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura
Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo