Diversidade

UM NEGÓCIO FEMINISTA

O aplicativo feminista de encontros Bumble está ganhando mais de 50 mil novos usuários por dia; com o lançamento de uma área voltada para o networking, a fundadora, Whitney Wolfe, amplia suas ambições – para a empresa e para as mulheres

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Como é comum hoje para muitos millennials solteiros, o primeiro encontro de Ashley e Connor aconteceu de um jeito digital: eles deram “matchs” no Bumble, o aplicativo de encontros dos Estados Unidos no qual as pessoas selecionam potenciais parceiros, mas apenas mulheres têm permissão para começar uma conversa e mandar mensagens. 

Só que, quando Ashley fez uma pergunta sobre trabalho, Connor começou uma discussão misógina e chamou-a de “prostituta” e “exploradora”. A resposta do Bumble foi um post exaltado, que ficou conhecido como “carta Caro Connor” e rapidamente viralizou. A empresa preconizava um futuro no qual Connor “participaria de conversas cotidianas com mulheres sem medo de seu poder” – e, então, em um movimento pouco comum, baniu-o de usar o serviço. 

Aos 28 anos, Whitney Wolfe, fundadora e CEO do Bumble, entende como se sente o receptor dessas mensagens. Cercada por 30 funcionários (27 mulheres e 3 homens) no escritório da companhia em Austin, Texas, EUA, ela explica que fundou o Bumble em 2014 “em resposta aos problemas femininos com encontros, nossas questões com homens, nossas dificuldades todas com a dinâmica de gênero”. 

Na época, Wolfe se recuperava de sua saída dramática do aplicativo de encontros Tinder, onde trabalhava como VP de marketing. Depois de um rompimento feio com o cofundador Justin Mateen, ela acusou seus ex-colegas de assediá-la, discriminá-la e lhe tirarem o título “cofundadora” – alegações que, oficialmente, o Tinder afirma serem improcedentes. 

Textos nos quais Mateen várias vezes ataca a vida amorosa de Wolfe e ameaça seu futuro na empresa citando o relacionamento estremecido entre os dois foram apresentados como evidências, mas o caso foi resolvido fora dos tribunais. 

**DE MULHER PARA MULHER**

Depois do Tinder, a última coisa que Wolfe queria na vida era fundar uma empresa de tecnologia. Ela teve depressão profunda e se mudou de Los Angeles para Austin, onde achou que poderia abrir uma casa de sucos. “Leio o que as pessoas estão dizendo de mim – e estou cheia”, disse ela na época. “Eu me sinto um trapo velho, a pessoa mais suja e vulgar do mundo.” 

Logo após a mudança, contudo, Wolfe recebeu um telefonema de Andrey Andreev, fundador e CEO do site de rede social Badoo, que queria saber seus planos. Em agosto de 2014, eles se encontraram na Grécia para discutir uma possível sociedade em um app de encontros focado nas mulheres. 

Três anos depois dessa primeira conversa, o Bumble já tem mais de 20 milhões de usuários e ganha cerca de 50 mil novos por dia. Está a caminho de superar os US$ 150 milhões em receitas em 2018. (O app básico é grátis, porém aproximadamente 10% de seus usuários ativos pagam até US$ 9,90 por mês de assinatura, o que lhes garante acesso a funcionalidades especiais, como uma lista de pessoas que já deram sim para eles.) 

Os usuários são encorajados pelo índice impressionantemente baixo de abusos do app. Além de banir pessoas como Connor, o Bumble bloqueia quem envia fotos indesejadas de nus e foi o primeiro app de encontros a iniciar práticas de verificação de fotos, limitando o potencial de perfis falsos. 

**NOVAS VERTENTES**

Agora o Bumble está apostando que sua tecnologia de encontros pode fazer mais do que estimular conexões românticas. Depois de lançar, há um ano, o Bumble BFF (sigla de best friend forever, ou melhor amigo para sempre), app para conectar-se com novos amigos, Wolfe reposicionou a marca para abrir espaço para o Bumble Bizz, uma linha de rede profissional que teve início em outubro – nela, os usuários podem procurar trabalho, encontrar um parceiro de negócio ou contratar um novo talento. 

O serviço original de encontros, por sua vez, terá uma nova marca, Bumble Honey. “A visão de Whitney se ampliou para muito além dos encontros desde o início”, diz Andreev, proprietário da maioria das ações do Bumble. 

Dar às usuárias mais opções de encontros do que simplesmente romance se encaixa bem na missão feminista da fundadora do Bumble. No entanto, essa abordagem também esbarra em um zeitgeist cultural crucial, já que mulheres receiam o assédio sutil e velado que enfrentam no trabalho. Enquanto companhias como Uber e Google lutam para lidar com denúncias de discriminação, um número cada vez maior de mulheres, de investidoras a empreendedoras, das executivas de finanças às de tecnologia, está determinado a redefinir o que é aceitável e o que é possível no local de trabalho. No caso de Wolfe, tudo começa com duas perguntas simples: “Por que sempre se pensa em amor quando há mulheres envolvidas?” e “Como podemos expandir nossos horizontes para além de dizer ‘Você é mulher, tem de estar casada aos 30’?”. 

Só o fato de o Bumble ter sido criado para empoderar mulheres já é uma grande transformação para Wolfe. Antes de lançar a empresa, ela não se identificava como feminista. “O feminismo não fazia parte de meu vocabulário mais ativo”, diz. “O que me parece interessante é que, quando estava cercada de homens que não acreditavam na igualdade entre eles e as mulheres, eu também não achava que as mulheres eram iguais.” 

**CONQUISTANDO CLIENTES**

Durante um coffee break no escritório do Bumble, mais de uma dúzia de integrantes da equipe, que interagem de maneira tão descontraída e casual uns com os outros quanto amigos de longa data, aglomeram-se em volta de um laptop no balcão da cozinha. 

Wolfe mostra o vídeo do primeiro anúncio do Bumble. Aparece o diretor de marketing universitário da empresa saltando de um avião pouco depois de começar a conversar com um match no Bumble (a afirmação final do anúncio: #taketheleap, ou dê um salto). Wolfe, que havia criado embaixadores universitários para fazer do Tinder um hit nos campi dos Estados Unidos afora, repetiu a fórmula com o Bumble. E agora ela está aplicando a mesma abordagem para promover o Bumble Bizz. 

O conceito do Bizz é relativamente fácil de vender para os atuais usuários: crie um perfil discreto para networking, sempre sob o princípio de que só mulheres podem iniciar o contato. Diferentemente de muitas outras redes profissionais e sociais, que existem para conectar as pessoas com quem elas já conhecem, a missão do Bizz é apresentá-las a novos contatos, com a segurança adicional dos perfis verificados. 

Uma chave para o sucesso do Bizz será criar novos segmentos demográficos de usuários para o ecossistema do Bumble. O desafio, diz a diretora de marketing do Bumble, Chelsea Cain Maclin, é convencer “alguém como minha mãe, que é casada e tem três filhos e agora quer voltar a seu trabalho na área de saúde, de que temos algo a oferecer para ela”. 

Neste final de ano, o Bumble está lançando uma campanha publicitária nos Estados Unidos para mulheres e homens de várias idades, com a ideia de que uma conexão sozinha pode transformar nossa vida profissional. Wolfe crê que a missão de empoderamento do Bumble será tão atraente no universo profissional como é no pessoal. “Várias mulheres entraram em contato conosco para reclamar que estão recebendo solicitações indesejadas no LinkedIn, que querem uma rede na qual deem o primeiro passo.” 

Não foi a primeira vez que Wolfe tentou lançar o Bumble Bizz: ele quase saiu em meados de 2016 – no último segundo, ela achou que o timing não era o certo. “Você consegue inovar quando a multidão entende seu ponto de vista singular”, analisa. “Estávamos adiantados.” 

**SACUDINDO A POEIRA**

Wolfe trabalha com a possibilidade de que o Bizz não decole como ela espera. “Vamos analisar os dados e, se não funcionar, tentaremos de novo”, afirma com simplicidade. Ela é resiliente. 

Depois da experiência do Tinder, seu mundo foi abalado de novo, quando, recentemente, seu noivo sofreu um acidente de carro. O médico a advertiu de que ele poderia morrer na cirurgia ou ficar paralisado. “Eu disse a ele: ‘É melhor o senhor me dar outra opção, porque vou me casar em seis meses’”, lembra Wolfe. O noivo lhe perguntou o que ela teria feito se ele saísse da cirurgia paraplégico. A resposta foi: “Eu teria empurrado você pelo corredor da igreja”.Wolfe contará essa e outras histórias em seu livro de memórias, Make the first move, que sairá no ano que vem.

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