Carreira

Um possível novo mundo do trabalho

Jornalista, com MBA em Recursos Humanos, acumula mais de 20 anos de experiência profissional. Trabalhou na Editora Abril por 15 anos, nas revistas Exame, Você S/A e Você RH. Ingressou no Great Place to Work em 2016 e, desde Janeiro de 2023 faz parte do Ecossistema Great People, parceiro do GPTW no Brasil, como diretora de Conteúdo e Relações Institucionais. Faz palestras em todo o País, traçando análises históricas e tendências sobre a evolução nas relações de trabalho e seu impacto na gestão de pessoas. Autora dos livros: *Grandes líderes de lessoas*, *25 anos de história da gestão de pessoas* e *Negócios nas melhores empresas para trabalhar*, já visitou mais de 200 empresas analisando ambientes de trabalho.

Compartilhar:

A expressão “novo normal” passou a fazer parte do vocabulário da sociedade – tanto a ocidental quanto a oriental. De março para cá, temos especulado como será a vida pós-pandemia. 

Especulamos e não prevemos, porque ainda estamos na fase de ter mais perguntas do que respostas, o que nos coloca mais na condição de adivinhadores do que de previsores. 

Primeiro, porque ninguém sabe exatamente quando a pandemia irá acabar. Segundo, porque não temos comparação histórica suficiente para prever novos comportamentos da sociedade e da economia após a doença. 

Qualquer comparação com a peste negra ou a gripe espanhola, talvez as epidemias mais mortais da história, seria errônea, uma vez que a ciência, a tecnologia e o modelo de vida do início do século 20 (gripe espanhola) e principalmente do século 14 (peste negra) em nada se comparam ao que temos disponíveis hoje. 

Por tudo isso, o que nos resta é gerar hipóteses em cima dos dados que temos no presente (e não no passado) e de acordo com as novas rotas e comportamentos que já tivemos de adotar de março para cá. 

Alguns deles podem ser que chegaram para ficar e irão moldar um novo comportamento da sociedade (há quem arrisque a dizer, por exemplo, que apertos de mãos e beijos não estarão mais na nossa etiqueta de cumprimentos); outros podem ser que desapareçam ao primeiro sinal de um antiviral ou de uma vacina eficientes. 

Sendo assim, com base nesta história recente que estamos vivendo e olhando para dados de algumas pesquisas e conversas com executivos, trago aqui três possibilidades (e não previsões) de como a pandemia irá afetar o mundo do trabalho e suas relações. 

1. Planejamento
————

Se por um lado, o apetite ao risco e o estímulo ao erro difundido pelo sucesso de algumas startups vinham provocando um novo modelo mental no mundo corporativo, a pandemia pode despertar um senso de cautela maior na tomada de algumas decisões. 

O “e se” pode ser indagado mais vezes nas discussões estratégicas sobre produtos, pessoas e até mesmo processos. 

O livro O Ambiente de Trabalho de 2020 – como as empresas inovadoras atraem, desenvolvem e mantém os funcionários do futuro nos dias de hoje – escrito por Jeane C. Meister e Karie Willyerd em 2013 – previa uma série de situações, ferramentas e modelos que deveriam ser adotados pelas organizações até 2020. 

Numa das passagens, as autoras são categóricas ao afirmar que empresas inovadoras devem planejar agora potenciais eventos futuros. “E se uma série de eventos globais mudar dramaticamente o caminho daqueles que estiverem trabalhando no ambiente de trabalho de 2020? Você e sua organização estão pensando em que ações e que alterações farão no modo pelo qual traz, atrai, recompensa, desenvolve, engaja e retém funcionários? …. o que [você] fará se os seguintes cenários ocorrem: há uma década global perdida nos Estados Unidos; há um levante político na China ou na Índia; ocorrem desastres, como pandemias, terrorismo e mudanças climáticas massivas que criarão um foco ainda maior no teletrabalho; há uma mudança na longevidade; há mais ênfase no aumento da inteligência.” 

Para alguns, a sentença pode soar como premonição, mas na verdade não passa de uma provocação. Planejamento com base em dados e análises sempre nos ajudaram a minimizar as crises, por maiores que sejam. 

Talvez nunca pudéssemos imaginar uma pandemia como essa (talvez?), mas aqueles que no início da década passada souberam desenhar cenários futuros, puderam antecipar algumas medidas (como o próprio trabalho remoto) e hoje sentem um impacto menor diante da incerteza. O que fazemos hoje definirá nosso trabalho amanhã. 

Talvez a pandemia coloque mais “e se” nas falas dos líderes, forçando-os a desenhar cenários futuros, estocar planos B e criar rotas alternativas para os negócios e as pessoas em caso de uma nova catástrofe. Não estaremos apenas mais fortes após essa tempestade, mas provavelmente estaremos mais preparados para novas tormentas. 

2. O coletivo vem antes do individual
———————————-

“Espécies que cooperam são mais bem-sucedidas. Das abelhas aos humanos. Quando os humanos decidem colaborar, há grande benefício e, espero, que isso que estamos vendo nesta fase possa se estender pelo planeta”, disse Jonathan Haidt, autor e investigador na área de psicologia social da Universidade de Nova York sobre o momento atual que vivemos. 

Nos quatro meses de pandemia, assistimos não apenas a uma boa dose de solidariedade, mas há um aumento significativo de parcerias para fazer o negócio continuar funcionando ou para fazer novos negócios prosperarem em meio ao caos. 

O legado desse coletivismo pode se estender para o mundo pós-Covid e, se assim for, irá impactar na forma como nos organizamos em trabalho – os squads, que já avançavam no cenário corporativo – podem ganhar mais força e relevância – e até na forma como compomos nossas metas, derrubando os OKRs individuais para uma única OKR coletiva. 

Isso tudo irá colocar ainda mais em xeque um conceito que já vem sendo criticado há alguns anos: a tal meritocracia. 

Num momento em que o negócio passa a ser verdadeiramente ameaçado, vemos times se unirem por um único objetivo: o de salvar a empresa. 

Nessa hora, não existe departamento, área, indivíduo. Existe a organização. 

Nessa hora, derrubam-se as metas e desempenhos individuais, mirando apenas o resultado final. 

Nessa hora, assumimos nossas e outras funções (aprendendo e fazendo na mesma hora) para garantir empregos. 

Se funcionar e o negócio estiver a salvo e, mais ainda, se empregos forem mantidos, a possibilidade de repensar as metas e a organização dos times será grande. 

Trabalhando juntos somos melhores e mais fortes, mas talvez fosse preciso uma pandemia para nos mostrar isso. 

3. Liberdade x status e remuneração
——————————–

Se o propósito e o significado do trabalho já vinham se sobressaindo à salários, benefícios e estabilidade na busca pelo “emprego” ideal, a pandemia tem convidado muitas pessoas a refletir sobre um outro conceito: a liberdade. 

A busca pelo propósito e pela chamada qualidade de vida sempre foi atribuída mais à geração Millenium, hoje a maior representação do mercado de trabalho – dentre as 150 Melhores Empresas para Trabalhar, 37% dos funcionários têm entre 26 e 34 anos e 21% têm até 25 anos. 

O que o isolamento social e a necessidade de home office fizeram, no entanto, foi mostrar não apenas para os mais jovens – mas para todos – que é possível misturar os papéis da vida (antes dividida entre pessoal e profissional) e isso pode ser muito bom. 

O isolamento tem nos forçado a parar para analisar o que, de fato, devemos valorizar em nossa vida e o que passa a ser desprezível. 

Há quem esteja questionando se faz sentido manter sedes corporativas ou escritórios físicos regionais. Há quem já tenho adotado jornadas mais curtas com ou sem redução de salário. Há quem tenha redirecionado ou suspendido seus benefícios. 

E toda essa flexibilidade e adaptabilidade faz com que repensemos nosso retorno ao trabalho. 

Será que vamos abrir mão das coisas boas que conquistamos no período da quarentena, como pular o trânsito, dormir mais (afinal, todos precisamos acordar mais cedo para estar presencialmente nos escritórios nos compromissos agendados, independentemente de bater ou não cartão de ponto), fazer reuniões remotas mais eficientes e, principalmente, ter mais família no seu dia? 

A Owl Labs, uma empresa americana que produz dispositivos de videoconferência, divulga anualmente uma pesquisa sobre trabalho remoto nos Estados Unidos. 

No ano passado, a pesquisa contou 1202 trabalhadores, com idade entre 22 e 65 anos, dos quais 62% trabalhavam de forma remota. Dois números chamaram atenção no resultado da pesquisa: 55% dos que trabalham remotamente procurariam outro emprego se não pudessem mais fazer home office e 61% esperariam um aumento de salário caso não pudessem trabalhar de casa. 

Em 2021 suspeito que esses números sejam ainda maiores. A pergunta: posso fazer home office ou preciso vir ao escritório todos os dias? fará parte dos rituais de entrevistas de emprego. 

As empresas que souberem oferecer a melhor flexibilidade e traduzirem seu propósito de forma clara sairão na frente.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Inovação farmacêutica brasileira: um ponto de inflexão nas análises do setor

Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento.
Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

O cliente não compra tecnologia. Compra conforto.

Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Autoridade não se mede em decibéis

Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Hyper-growth: o desafio não é acelerar, é sustentar a velocidade

O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de outubro de 2026 09H00
Inclusão não se resume ao acesso ao emprego. Ela envolve reconhecimento, desenvolvimento, representatividade e perspectivas reais de carreira. O artigo reflete sobre os avanços conquistados, os desafios que persistem e o papel das organizações na construção de ambientes onde todas as pessoas possam prosperar.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
17 de outubro de 2026 15H00
Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
17 de outubro de 2026 09H00
O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

6 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
16 de outubro de 2026 15H00
Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de outubro de 2026 09H00
Entre previsões apocalípticas e promessas de produtividade ilimitada, os dados mais recentes sobre inteligência artificial publicados pela Gartner, MIT e Frontiers contam uma história mais complexa.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
15 de outubro de 2026 14H00
Inspirado pela trajetória de Rafael Nadal retratada no documentário Rafa, o artigo propõe uma reflexão sobre a forma como empresas constroem seus planejamentos estratégicos.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
15 de outubro de 2026 08H00
Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução