Liderança, Times e Cultura

Uma metodologia de “ambidestria organizacional”

Há algo de profundamente contraintuitivo na ambidestria organizacional, uma abordagem que, de diferentes modos, prevê gerenciar o presente e o futuro ao mesmo tempo. Ela, mais do que nenhuma outra até hoje, é que permite a empresas e gestores se olharem no espelho e se enxergarem como sistema. Por isso, pode ser considerada o booster nº 1. Entre os caminhos da ambidestria, este artigo explora um dos mais amigáveis.
__Lilian Cruz__ é cofundadora da Ambidestra. Especialista em estratégia, inovação e transformação de negócios. __Andrea Dietrich__ é cofundadora da Ambidestra. Especialista em posicionamento de marcas, cultura e transformação

Compartilhar:

Se usa a mão direita para escrever, você pode desenvolver a mesma habilidade com a mão esquerda. E vice-versa. Mas imagine-se escrevendo simultaneamente com as duas mãos. Parece desafiador? Impossível?

Ambidestria organizacional é a capacidade de uma organização escrever simultaneamente com as duas mãos – no caso, atingir eficiência operacional com uma e buscar a inovação que constrói o futuro com a outra. Em um cenário de grandes transformações e rápida evolução tecnológica, as empresas garantem um desempenho sustentável quando idealmente (e paradoxalmente) combinam a flexibilidade e o poder de inovação de uma startup com um modelo de gestão de empresa madura, capaz de garantir resultados consistentes e escalabilidade. Como isso se traduz? Num planejamento 70:20:10, que preveja 70% do orçamento e dos esforços para o core business, 20% para áreas de crescimento e 10% para áreas de exploração.

Mas como conseguir chegar até esse ponto? Eis a pergunta que o presente artigo vem responder.

## Um princípio

Tudo começa por entender que uma transformação organizacional, qualquer que seja, é um processo sistêmico. E que, como tal, envolve uma mudança também no nível dos indivíduos. Não estamos falando somente do famoso “mudar o mindset”, e, sim, de se dar uma permissão. Trata-se de uma licença para que pessoas e organizações possam alcançar seu potencial máximo. Estamos nos referindo ao “estado de fluxo”, ou “estado de flow”, como se diz no jargão corporativo, como chave para alcançar o alto desempenho.

Em sua teoria do estado de fluxo, o psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi descreve o “flow” como um estado de total engajamento, em que as pessoas ficam 100% presentes e focadas, se sentem bem e fazem o seu melhor. Em seu best-seller, A Arte do Impossível”, Steven Kotler define o fluxo como “o código-fonte da motivação intrínseca” e defende que a produtividade aumenta 500% durante esse fluxo.

As pessoas entram em flow quando encontram motivação e inspiração nos desafios da organização, demonstram foco e determinação para questionar a situação atual – e para implementar mudanças significativas –, e conseguem explorar a sua criatividade no dia a dia e manter uma abordagem de aprendizado contínuo.

Organizações também entram em flow. Isso acontece quando saem de sua zona de conforto e ajustam suas competências internas de acordo com os desafios do mercado. Esse é o estado de fluxo organizacional.

## três pilares

A metodologia Ambidestra, que é o nome da nossa consultoria, estimula ativamente os comportamentos, com base em três pilares.

### DIREÇÃO E TRANSFORMAÇÃO – Propósito e foco para a transformação

A clareza de direção e visão da organização é construída a partir de diferentes processos de planejamento estratégico. No entanto, é essencial afastar-se da abordagem meramente analítica, lógica e linear, que busca preservar ou só aprimorar produtos ou modelos de negócio existentes.

É preciso evoluir para uma abordagem de estratégia centrada em inovação, na qual a tomada de decisões se baseia em colaboração e interações constantes. Isso abre espaço para o desenvolvimento e, também, para o teste de um portfólio de inovações e novos modelos de negócios. Para isso, sugerimos três passos:

1. Começar definindo o MTP da organização (sigla em inglês de propósito transformador massivo), ou seja, o porquê de sua existência. O MTP deve ser altamente ambicioso, buscando resolver desafios significativos da sociedade e estar em sintonia com crenças e valores da empresa.

2. Construir uma visão de planejamento estratégico através de uma abordagem ambidestra, ou seja, que contemplem a evolução do negócio e que busquem também oportunidades em áreas desconhecidas pela organização.

3. Garantir que todos os esforços estejam alinhados e que haja compreensão e engajamento sólidos dos colaboradores, promovendo clareza e motivação em relação aos pontos definidos acima.

### PESSOAS E CULTURA – Molde que garante coerência e conexão

Estratégia e cultura são duas frentes-chave para equilibrar o resultado e a eficácia dos negócios. A estratégia oferece a visão e as prioridades que trazem orientação. Por outro lado, a cultura serve como alicerce dos comportamentos, valores e crenças que sustentam a execução dessa estratégia. As normas culturais determinam o que é aceitável ou rejeitado dentro de um grupo; e, com frequência, observamos desalinhamentos acontecendo no dia a dia. Recomendamos seguir três passos neste processo:

1. Examinar os valores, comportamentos, ritos e símbolos que regem a organização e avaliar se estão congruentes com o propósito e a estratégia da empresa. A partir desse diagnóstico, é necessário considerar a necessidade de reformular esse sistema de crenças.

2. Com base nesse novo pacto cultural, é essencial avaliar quais pessoas estão em sintonia com os objetivos da organização, especialmente a liderança. É amplamente reconhecido que a cultura organizacional reflete o perfil de suas lideranças, e, para que a cultura seja percebida e disseminada, os líderes devem estar alinhados com o propósito da transformação e demonstrar os comportamentos desejados. Durante essa jornada, identificamos oito virtudes fundamentais do líder ambidestro: adaptabilidade, autorresponsabilidade, criatividade, determinação, eficiência, generosidade, sensibilidade e vulnerabilidade. Além disso, é importante estabelecer os rituais e símbolos que sustentarão essas mudanças na prática, como formatos de reuniões, sistemas de reconhecimento, celebrações e o ambiente de trabalho – seja físico ou virtual.

3. Como suporte ao desenvolvimento das equipes, além de ampliar repertório técnico (hard skills) como inovação e digital, as habilidades comportamentais (soft skills) são tão importantes quanto. Entre elas, o desenvolvimento do equilíbrio das energias femininas e masculinas – inatas do ser humano. É importante ressaltar que a mudança de comportamento e de hábitos requer persistência e disciplina.

### ESTRUTURA E PROCESSOS – Sistema que suporta a operação

A estrutura organizacional também precisa de adaptações para facilitar a transição entre os dois mundos. Dependendo da dinâmica e da diversidade da organização, diferentes formatos podem ser considerados, para que a transição seja leve e responsável para todos que fazem parte dela.

Algumas empresas optam por separar as equipes que estão explorando novos negócios ou conceitos. Outras estabelecem parcerias com aliados de fora da organização, a fim de implementar modelos diferentes daqueles om que estão acostumados. Há as que preferem adotar princípios de agilidade, formando equipes com base em desafios específicos, não presos a estrutura do organograma.

Em todos os casos, o objetivo central deve ser o de reforçar a resiliência da organização, aprimorando habilidades com agilidade e criatividade, para responder de modo adequado às transformações externas. Para isso, recomendamos três passos:

1. A estrutura e os processos devem refletir a estratégia, e as equipes devem se organizar levando em consideração as competências de cada indivíduo e as ferramentas adequadas.

2. Ter clareza quanto às responsabilidades para que as pessoas possam ter autonomia ao desempenharem suas funções da melhor maneira.

3. Desenvolver um “jeito de operar”, ou seja, uma comunicação que traga transparência, clareza e estimule a curiosidade e a criatividade das pessoas em um ambiente de aprendizagem contínua.

__ESSA METODOLOGIA__ não é um modelo de gestão, mas um caminho para a transformação organizacional. A busca constante para atingimento do flow pessoal e organizacional é a chave para enfrentar os desafios do mundo em constante mudança.

COMO FLUI UMA PESSOA AMBIDESTRA
VP DA FESA TEM SEMPRE UM PLANO B E BUSCA CONTROLAR SEU FUTURO

Na década de 1980, Miguel Monzu era um jovem estudante do último ano de medicina. Hoje, aos 57 anos, é um C-level de uma companhia que nada tem a ver com a área da saúde – é sócio e vice-presidente do Grupo Fesa, que, mais do que uma empresa de executive search, posiciona-se como um ecossistema de soluções de pessoas. Mais do que isso, tornou-se uma pessoa ambidestra, que aprendeu a fluir.

Sua história mostra isso. Apesar de querer ser médico desde os 6 anos, foi no fluxo quando um executivo da farma Boehringer Ingelheim o abordou após uma palestra que, ainda estudante, fez para pais sobre métodos anticoncepcionais para que orientassem os filhos. Foi fazer um trabalho free-lancer na farma, abandonou o curso de medicina incompleto (e o sonho infantil) e nesse setor passou os 30 anos seguintes.

Na Boehringer Ingelheim, logo após o job, Monzu foi contratado para ser gerente do produto. Ele se encantou. “Era uma dureza danada para pagar a faculdade, e me ofereceram salário, carro da empresa, seguro saúde…” Foi promovido e passou a ser responsável pelo treinamento da força de vendas da companhia. Além da Boehringer, Monzu atuou na Abbott, Novartis e Sanofi, sempre na área comercial e de marketing, chegando ao cargo de diretor executivo.

Os 40 anos de idade chegaram, e ele se perguntou: “se eu tivesse mais 40 anos de vida, faria a mesma coisa?” Recebendo de si mesmo um “não” como resposta, lembrou que gostaria de trabalhar em recursos humanos. Contratou um planejador financeiro para ajudá-lo a dar uma guinada sustentada na carreira. Também foi atrás de um diploma de administração de empresas (já que não tinha nenhum) para poder fazer um MBA de gestão de pessoas. E, em 2003, mudou-se para o RH da AstraZeneca – e logo abarcou também comunicação. Novamente fluiu – dessa vez, no contrafluxo dos demais, já que a praxe é ir do back-office para uma área de negócios, não o contrário. Hoje está há seis anos na Fesa, com mais três sócios – um tem 38 anos, uma tem 32 e o terceiro tem 26. Fluir intergerações é sinal de ambidestria.

Monzu não usa o nome “ambidestro”, mas dois fatos evidenciam essa autopermissão: tem sempre plano B e faz questão de assumir o controle de seu futuro e de escolher as cadeiras que vai ocupar. Ao menos, três posturas o habilitam a isso: (1) ele sempre opta por aprender, no trabalho e na vida pessoal – isso ilustrado pelo fato de que, se quer uma floreira em casa, faz uma em vez de comprar; (2) aposta em desenvolver suas soft skills e (3) tem a longevidade profissional como premissa.

Fonte: Sandra Regina da Silva

Compartilhar:

Artigos relacionados

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Como promptar a realidade

Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento – e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Na era da AI, o melhor talento pode ser o maior risco

Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Por que os melhores líderes não lutam para vencer

Este é o primeiro artigo da nova coluna “Liderança & Aikidô” e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de março de 2026 13H00
Direto do SXSW 2026, enquanto o mundo celebra tendências e repete slogans sobre o futuro, este artigo faz o que quase ninguém faz por lá: questiona como a tecnologia está reconfigurando nossa mente - e por que seguimos aceitando respostas prontas para perguntas que ainda nem aprendemos a formular.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

9 minutos min de leitura
Marketing & growth
11 de março de 2026
Quando a audiência vira patrimônio e a imagem se torna negócio, a pergunta muda: quanto vale manter a autenticidade em meio a bilhões?

Igor Beltrão- Cofundador e Diretor Artístico da Viraliza Entretenimento

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de março de 2026
Você entende a lógica da velocidade e urgência terem deixado de ser exceção e virado regra? Muitas vezes, isso é estimulado pelas próprias estruturas de gestão e pelos modelos de cobrança que vêm da alta liderança.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
ESG, Estratégia
9 de março de 2026
Crescimento não recompensa discurso; recompensa previsibilidade. É por isso que governança virou mecanismo financeiro, não vitrine institucional

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de março de 2026
Falta de diagnóstico, de planos de carreira, de feedbacks estruturados e programas individualizados comprometem a permanência dos profissionais mais estratégicos nas organizações brasileiras

Maria Paula Paschoaletti - Sócia da EXEC

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
7 de março de 2026
Por que sistemas parecem funcionar… até o cliente realmente precisar deles

Marta Ferreira - Cofundadora e presidente da Spread Portugal

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
6 de março de 2026 06H00
A maior feira de varejo do mundo confirmou: não faltam soluções digitais, falta maturidade humana para integrá‑las.

Michele Hacke - Palestrante TEDx, Professora de Liderança Multigeracional

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
5 de março de 2026
Entre respostas perfeitas e textos polidos demais, corre o risco de desaparecer aquilo que nos torna únicos: nossa capacidade de errar, sentir, duvidar - e pensar por conta própria

Bruna Lopes de Barros

2 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
4 de março de 2026 12h00
Com todos acessando as mesmas ferramentas para polir narrativas, o que os diferencia? Segundo pesquisa feita com gestores brasileiros, autoconhecimento, expressão e autoria

Patricia Gibin - Consultora e coach

19 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
4 de março de 2026 06H00
As agendas do ATD26 e SHRM26 deixam claro: o ano começou exigindo líderes capazes de decidir com IA, sustentar cultura e entregar performance em sistemas cada vez mais complexos. Liderança virou infraestrutura de execução - e está em ritmo acelerado.

Allessandra Canuto - Especialista em Inteligência Emocional e Saúde Mental

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...