Liderança, Times e Cultura

Uma sombra criativa no conselho

Diversidade no conselho de administração tende a ser um booster de desempenho – sobretudo diversidade geracional, mas se os jovens não causarem problemas com a pouca experiência. Conselhos consultivos têm sido a solução mais frequente para incluir os diferentes, bem como comitês e convites para participações localizadas. Mas a experiência feita por comissões do IBGC pode ser um bom caminho.

Compartilhar:

Somos 8 bilhões de habitantes no mundo e 6,4 bilhões têm 43 anos de idade ou menos. Cerca de 80% da população mundial é composta pela geração Y (nascidos entre 1980 e 1994), geração Z (de 1995 a 2010), e geração alfa (de 2010 a 2025) juntas.
Apesar disso, a média de idade dos conselheiros de administração de empresas de capital aberto, ao menos no Brasil, é de 57 anos. Faz sentido?

A diversidade etária pode ser um tema complexo em conselhos de administração, porque a vasta experiência, que normalmente vem com a idade, é um requisito fundamental. Mas jovens mais próximos e conscientes das mudanças comportamentais que afetam os negócios hoje e futuramente ficarem de fora não seria um requisito tão fundamental quanto?

Uma alternativa para unir o melhor dos dois mundos é a criação de um “shadow board”, conselho sombra em uma tradução literal. Trata-se de um grupo de não executivos jovens que trabalham com a alta gestão executiva e o próprio conselho em iniciativas estratégicas com o objetivo de gerar novos insights e diversificar perspectivas, segundo a Harvard Business Review. Shadow boards já vêm sendo implantados fora do Brasil, em empresas como Prada e Gucci. A última tem esse conselho alternativo desde 2015, composto por seus funcionários millennials mais talentosos, vindos de diferentes funções, que se encontram regularmente com as lideranças para abordar temas estratégicos e que impactam as decisões da empresa.

Aqui, por enquanto, podemos compartilhar uma experiência conduzida por comissões do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

## Insights de um shadow board

Considerando o contexto global, a realidade brasileira e as inquietações sobre o futuro do trabalho, a comissão de pessoas e a comissão de conselhos do futuro do IBGC decidiram iniciar em 2022 seus primeiros experimentos de shadow board. Selecionamos um grupo de jovens com backgrounds diferentes – empreendedores, colaboradores de grandes empresas, membros de empresas familiares etc. – de uma faixa etária entre 25 e 35 anos, que classificamos como jovens e seniores conforme sua experiência, e passamos a reuni-los para simular reuniões de conselho de administração.

Chegamos a sete insights principais:

__1. Objetividade e “troca de ideias” podem coexistir de modos distintos.__ No board “oficial” dos conselheiros seniores, o foco desde o início foi nas deliberações da reunião. O shadow board dos jovens fez questão de questionar as premissas. Ambas deliberaram, mas com dinâmicas diferentes.

__2. Bagagens e experiências prévias foram usadas para posicionamento.__ Mas destacaram-se os conselheiros seniores pela experiência e preparação para aplicar o que sabem.

__3. Jovens querem executar; seniores, deliberar.__ Concluímos que: (a) os mais novos querem dar soluções independente da sua responsabilidade, (b) os cargos atuais desses jovens são de execução, o que os enviesa seu pensar estratégico, (c) os seniores estão mais aptos a deliberar decisões pelos seus históricos de atuação em conselhos.

__4. Reconhecer os órgãos de governança é fundamental para o bom exercício do conselho.__ Conselheiros seniores se destacaram nisso, delegando a execução da estratégia ao fictício CEO e aos comitês de apoio ao conselho em vez de se prenderem a detalhes ou tirarem conclusões precipitadas. “A decisão é de que precisamos de mais tempo e informação para decidir” foi uma frase interessante que surgiu.

__5. Consenso em reunião de conselho pode ser um viés.__ Já o shadow board se orientou a dar espaço de fala de todos os membros antes de chegar a algum consenso. Isso permitiu com mais facilidade criar o que chamamos de “caos organizado”, onde a discordância foi bem-vinda e aceita.

__6. Criatividade e adaptabilidade dos jovens membros do shadow board foi um destaque.__ Isso não significa, é claro, que são necessariamente mais inovadores do que conselheiros seniores. Sua criatividade garantiu um bom fluxo de ideias e decisões, mas não ideias mais inovadoras do que as apresentadas pelo conselho sênior. Não sabemos se esse resultado foi em função de um possível “constrangimento” causado pela dinâmica. Mas não restou dúvida de que jovens podem trazer novas visões sobre tecnologia e inovação, mas também sobre sustentabilidade, marketing, vendas, comunicação.

__7. Disciplina e escuta ativa são bem-vindas para o sucesso do shadow board.__ Independentemente de um participante ser sênior ou jovem, a falta ou a presença desses dois pontos foi notada e fez diferença.

## O futuro do conselho do futuro

“Shadow board” ainda é um tema pouco explorado e requer discussão e “experimentação”. Mas, pensando no melhor para a estratégia, por que não começarmos a nos expor às ideias das pessoas mais jovens dessa maneira?

O elo geracional dos bons costumes de um conselheiro “old school” com a ousadia das “new kids on the block” pode ser o melhor caminho para o mundo VUCA.

ENTENDA A EXPERIÊNCIA

Na primeira dinâmica, jovens e seniores se revezaram no papel de sombra. Em uma rodada, os jovens ficaram com a responsabilidade de conduzir a reunião da empresa fictícia – sem nenhuma instrução anterior sobre como funciona um conselho; os seniores só observaram. Em outra rodada, os papéis foram trocados e, ao final, todos foram reagrupados para análise sobre diferenças, similaridades e pontos de destaque.

Em novos encontros, houve a integração de conselheiros experientes e jovens em um mesmo colegiado – em alguns casos, com divisão numérica mais igualitária e, em outros, com participações desproporcionais.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Autonomia não é fazer sozinho

Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Quando pessoas inteligentes discordam, o problema pode não ser a informação

Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

2027 começa em outubro: o que os CEOs já estão decidindo agora

Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Plataformização da educação: 3 pontos para refletir antes de levar tecnologia para a sala de aula

Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

O que Guimarães Rosa pode ensinar sobre liderança na era da IA

Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Inovação & estratégia, Liderança
7 de outubro de 2026 08H00
Metade dos executivos ouvidos pelo BCG já vê a própria equipe perdendo habilidades por causa da IA, e o julgamento é a primeira a cair. Velocidade sem discernimento não é ganho, é dívida com outro nome.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
6 de outubro de 2026 14H00
Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
6 de outubro de 2026 08H00
Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

9 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
5 de outubro de 2026 14H00
Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de outubro de 2026 08H00
Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

Camila Wasserman e Sabrina Serafim -

6 minutos min de leitura
Liderança
4 de outubro de 2026 14H00
Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de outubro de 2026 08H00
Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio-diretor da FC Partners

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução