Inovação

Verdades desconfortáveis (que ninguém conta) sobre a inovação aberta

Ao tratar o processo de inovação aberta com uma mentalidade de proteção, as organizações perdem seus principais benefícios
Alexandre Waclawovsky, o Wacla, é um hacker sistêmico, especialista em solucionar problemas complexos, através de soluções criativas e não óbvias. Com 25 anos de experiência como intraempreendor em empresas multinacionais de bens de consumo, serviços e entretenimento, ocupou posições de liderança em marketing, vendas, mídia e inovação no Brasil e América Latina. Wacla é pioneiro na prática da modalidade Talento sob Demanda no Brasil, atuando como CMO, CRO e Partner as a Service em startups e empresas de médio porte, desde 2019. Atua também como professor convidado em instituições renomadas, como a Fundação Dom Cabral, FIAP e Miami Ad School, além de autor de dois livros: "Guide for Network Planning" e "invente o seu lado i – a arte de

Compartilhar:

O termo “inovação aberta” foi usado pela primeira vez por H. W. Chesbrough, professor da University of California, em Berkeley, no artigo *The Era of Open Innovation* para a MIT Sloan Management Review em 2003. Foi a partida para essa modalidade de inovação passar a ser adotada pelas empresas como uma forma de olhar para além dos seus muros, uma busca por novos estímulos e boas práticas para novos negócios.

Para quem trabalha na área de inovação, os exercícios de inovação aberta funcionam como uma brisa de ar fresco e uma tentativa de trazer novas provocações sobre modelos de negócios para as empresas que, durante décadas, buscaram aperfeiçoar processos e ganhar escala com seus produtos. São quase um “laboratório controlado” e economicamente acessível para observar o que acontece fora dos muros corporativos.

Arrisco até a dizer, que todas as empresas grandes ou médias, multinacionais ou nacionais, já tentaram ou adotaram alguma prática de inovação aberta em suas estratégias de negócio. Mas recomendo cautela com a empolgação; afinal, a inovação ainda é, predominantemente, fechada na grande maioria das empresas.
Exatamente, e repito: a inovação aberta está fechada ou limitada, se preferir, na maioria dessas empresas.

## E por que a inovação aberta está fechada?
Porque essa inovação ainda se caracteriza pelo desenvolvimento interno de ideias e pesquisas necessárias para se lançar um produto ou serviço. Além disso, é um processo em que a empresa tem a preocupação em possuir o controle e a propriedade intelectual daquilo que foi desenvolvido. Repare que as áreas de inovação operam com um olhar mais financeiro do que humano.

Nessas empresas, a inovação traz consigo a necessidade de resultado e escala – o que implica na morte prematura de várias iniciativas promissoras – e com mais perguntas que respostas sobre sua rentabilidade.

A palavra “aberta” aporta uma natureza colaborativa e de ciclos curtos de testes e aprendizados a essa modalidade de inovação, enquanto a “fechada” apresenta ciclos longos, com muito planejamento, alinhamentos e aprovações.

Se está em dúvida, me responda essas duas perguntas:
– Qual o tempo de um ciclo de inovação na sua empresa?
– E qual o perfil das pessoas que trabalham na área de inovação?

Recentemente, fui perguntado qual seria a primeira pessoa que eu contrataria para uma área de inovação ideal. Minha resposta foi: um(a) antropólogo(a). Afinal, de que vale a melhor tecnologia, a melhor distribuição, o melhor budget ou P&L se não consigo entender as pessoas a quem vou servir?

## Inovação ou renovação?
Gosto de provocar os que lideram as áreas de inovação com a seguinte frase: não existe inovação em grandes empresas, mas sim renovação, como detalho [neste artigo](https://wacla.medium.com/inova%C3%A7%C3%A3o-no-mundo-corporativo-n%C3%A3o-existe-25873a299422). Em resumo, as diferenças entre inovar e renovar estão na capacidade da tolerância à falha e ao desconforto, que é baixa em organizações estabelecidas e alta em startups.

E isso faz sentido, afinal as empresas estabelecidas buscam manter os seus negócios e market share, enquanto as startups precisam crescer e prosperar para sobreviver, numa clara diferença entre operar em abundância e escassez.

Note que a criatividade e a tolerância à falha e ao desconforto são estimuladas em situações de escassez. O risco da extinção é um excelente mobilizador, enquanto a busca pela manutenção do que já foi conquistado e está garantido é um grande paralisador.

Nesse sentido, discordo de uma fala que ouvi recentemente de um intraempreendedor. Ele disse que as startups têm facilidade natural em assumir riscos. Atuando no dia a dia desses negócios nos últimos três anos, posso afirmar que ninguém é “amigo do risco”, mas sim tolerante ao desconforto de testar, aprender e melhorar.

A escassez de recursos força que novos negócios testem à exaustão, até encontrarem uma rota mais saudável de crescimento e prosperidade. Não é à toa que, ao atingir o status de unicórnios, essas mesmas startups terão mais cautela e menos apetite pela inovação.

[Neste meu artigo](https://www.revistahsm.com.br/post/onde-estao-os-cases-de-intraempreendedorismo), questionei onde estão os cases de intraempreendedorismo e agora trago mais uma pergunta desconfortável:

### Quais foram os frutos concretos de algum projeto de inovação aberta na sua empresa?

Não vale relatar seus aprendizados. Estou em busca de mudanças concretas em fluxos, rituais, processos e mentalidade diante da falha ou da adoção de modelos de negócios, sem querer se adequar ao estilo da sua empresa.

Posso citar duas mãos cheias de exemplos de empresas onde concursos de inovação aberta foram lançados com entusiasmo e muita publicidade, mas não consigo materializar o impacto real na forma dessas organizações atuarem até hoje. Ao final de um processo longo e de muitas apresentações, as empresas se encantam com alguma solução, mas se deparam com um muro, aparentemente intransponível, no próximo passo: o que fazer com esses aprendizados ou até com uma aquisição.

Uma grande multinacional de alimentos, com dificuldade em ativar seu portfólio de inovação, convocou uma venture builder (leiam construtora de startups) para que essa gestação fosse feita fora dos muros, processos e fluxos da organização.

Existem bons casos? Sim, eles existem. Um deles foi feito pela Ambev para a criação de suas cervejas artesanais. Uma unidade de negócios foi criada e prosperou. Gosto de citar também o exemplo do Santander, na gestão do Sergio Rial, que ao invés de apostar em concursos de inovação aberta, convocou seus melhores talentos e deu liberdade e recursos para que criassem startups próprias.

Ao fazer isso, intraempreendedores puderam empreender sem precisar lidar com os anticorpos e rituais corporativos. A empresa ganhou ao desapegar do controlar enquanto aprendia em alta velocidade. Os intraempreendedores, agora empreendedores, que antes precisavam driblar obstáculos corporativos, agora tinham liberdade e responsabilidade de gerir negócios, lidar com o desconforto e transmitir aprendizados essenciais para a criação de um ciclo virtuoso de colaboração e inovação verdadeiramente aberto.

Enquanto isso, a multinacional de alimentos, ao deparar-se com o crescimento do negócio além muros e a falta de controle, decidiu por internalizar o negócio. Resultado: demitiu o gestor dessa startup – por não conseguir encaixá-lo no organograma – assim como outras pessoas, obtendo dispersão de foco e grande perda de tração. Uma iniciativa disruptiva e promissora se transformou em algo pequeno, decrescente e que, provavelmente, será descontinuado.

E você? Tem inovado ou renovado em sua área e empresa?

Compartilhar:

Alexandre Waclawovsky, o Wacla, é um hacker sistêmico, especialista em solucionar problemas complexos, através de soluções criativas e não óbvias. Com 25 anos de experiência como intraempreendor em empresas multinacionais de bens de consumo, serviços e entretenimento, ocupou posições de liderança em marketing, vendas, mídia e inovação no Brasil e América Latina. Wacla é pioneiro na prática da modalidade Talento sob Demanda no Brasil, atuando como CMO, CRO e Partner as a Service em startups e empresas de médio porte, desde 2019. Atua também como professor convidado em instituições renomadas, como a Fundação Dom Cabral, FIAP e Miami Ad School, além de autor de dois livros: "Guide for Network Planning" e "invente o seu lado i – a arte de

Artigos relacionados

Crédito também é marca: confiança não se promete, se comprova

Campanhas podem atrair clientes e ofertas podem gerar conversão. Mas a reputação de uma marca financeira é construída nas decisões que impactam o cotidiano das pessoas: a clareza das condições, a facilidade da jornada e o suporte oferecido quando surgem dificuldades. O artigo analisa por que coerência e responsabilidade se tornaram ativos cada vez mais valiosos para as empresas do setor.

“Invisible IT”: Sua empresa sabe quantos agentes de IA estão tomando decisões em seu nome?

Agentes inteligentes capazes de acessar sistemas e tomar decisões já fazem parte da rotina de muitas organizações. O problema é que boa parte deles foi criada fora dos mecanismos tradicionais de controle. O texto discute por que empresas precisarão tratar agentes de IA como identidades corporativas formais, sujeitas às mesmas regras de supervisão, segurança e responsabilização aplicadas a qualquer colaborador ou sistema crítico.

Sabedoria: a competência que a inteligência artificial não pode substituir

Quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, maior parece ser a necessidade de desenvolver capacidades profundamente humanas. O artigo discute como empatia, autoconsciência, propósito e discernimento podem se tornar elementos centrais da liderança em um mundo onde a inteligência está cada vez mais acessível, mas a sabedoria continua sendo uma escolha.

Os oito pilares que sustentam uma estratégia sólida de IA

O sucesso das iniciativas de inteligência artificial depende de muito mais do que bons algoritmos. O artigo explora os elementos fundamentais para transformar a IA em uma ferramenta estratégica de negócios, conectando inovação, governança, segurança, compliance e desenvolvimento organizacional.

Marketing & growth, Estratégia
8 de novembro de 2026 08H00
Campanhas podem atrair clientes e ofertas podem gerar conversão. Mas a reputação de uma marca financeira é construída nas decisões que impactam o cotidiano das pessoas: a clareza das condições, a facilidade da jornada e o suporte oferecido quando surgem dificuldades. O artigo analisa por que coerência e responsabilidade se tornaram ativos cada vez mais valiosos para as empresas do setor.

Fabrício Sangenetto - CMO da Gooroo Crédito

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
7 de novembro de 2026 16H00
Agentes inteligentes capazes de acessar sistemas e tomar decisões já fazem parte da rotina de muitas organizações. O problema é que boa parte deles foi criada fora dos mecanismos tradicionais de controle. O texto discute por que empresas precisarão tratar agentes de IA como identidades corporativas formais, sujeitas às mesmas regras de supervisão, segurança e responsabilização aplicadas a qualquer colaborador ou sistema crítico.

Fernando Arditti - Vice-presidente e gerente-geral para a América Latina da WSO2

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Finanças
7 de novembro de 2026 08H00
O Pix mostrou que soluções simples e digitais podem alcançar rapidamente até mesmo os públicos historicamente menos atendidos pelo sistema financeiro. O próximo desafio é permitir que esses mesmos brasileiros tenham acesso a crédito compatível com sua realidade, potencializando renda, negócios e oportunidades de crescimento.

Rafaela Cavalcanti - Cofundadora e CEO da CloQ

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança
6 de novembro de 2026 15H00
Quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, maior parece ser a necessidade de desenvolver capacidades profundamente humanas. O artigo discute como empatia, autoconsciência, propósito e discernimento podem se tornar elementos centrais da liderança em um mundo onde a inteligência está cada vez mais acessível, mas a sabedoria continua sendo uma escolha.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
6 de novembro de 2026 08H00
O artigo explora como empresas de hospitalidade e entretenimento podem integrar marketing, operação e relacionamento para transformar uma compra em uma conexão contínua com a marca.

João Biancardi - Diretor de Marketing, CRO e Experiência do Cliente do Grupo Mabu

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Estratégia
5 de novembro de 2026 14H00
O sucesso das iniciativas de inteligência artificial depende de muito mais do que bons algoritmos. O artigo explora os elementos fundamentais para transformar a IA em uma ferramenta estratégica de negócios, conectando inovação, governança, segurança, compliance e desenvolvimento organizacional.

Sergio Hirase - CTO do Mycon

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de novembro de 2026 08H00
A porta de entrada para um incidente cibernético nem sempre está dentro da organização. Em muitos casos, ela pode estar em um parceiro, prestador de serviço ou fornecedor com acesso a sistemas, dados e processos críticos. O artigo explora por que a gestão de terceiros se tornou um dos principais desafios da segurança digital contemporânea.

Bruno Santos -Ssócio e CRO da área de Gestão de Terceiros da Bernhoeft

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
4 de novembro de 2026 14H00
Mais do que decidir quanto automatizar, líderes e organizações precisarão aprender a desenhar processos que combinem criatividade, julgamento, validação e execução para gerar resultados melhores do que aqueles que humanos ou máquinas seriam capazes de produzir isoladamente.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

16 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de novembro de 2026 12H00
Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

Camila Besseler - Fundadora e CEO da mCMOs, ecossistema para mulheres da alta liderança em marketing, growth e receita. Tem 25 anos de experiência na interseção entre estratégia, marca, dados e receita, com passagens por Grupo Tigre e CI&T. Estuda sistemas — o marketing é um deles — e escreve sobre estratégia, mercado e melhores decisões.

8 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
4 de novembro de 2026 08H00
Atrasos, mudanças de escopo e disputas contratuais costumam ser tratados como falhas da execução. O artigo argumenta que, na maioria dos casos, os conflitos já estavam contratados desde o início, em escopos incompletos, riscos mal distribuídos e orçamentos desconectados da realidade do projeto.

Nayron Russo - Advogado e sócio do escritório Aroeira Salles

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

CAPA_HSM_30_ANOS-1_pages-to-jpg-0001

Acesse agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #175

EDIÇÃO ESPECIAL DE 30 ANOS DA HSM MANAGEMENT