Uncategorized

Vida nova para os ativos que sua empresa já tem

Segundo um provérbio chinês, o peixe é o último a descobrir a água. De fato, as organizações que mais precisam de mercados novos e mais rentáveis são as que mostram a maior dificuldade de fazê-lo
é fundador e CEO da consultoria estratégica Sonne e professor de MBA e pós-graduação do Insper e da FIA-USP.

Compartilhar:

Um dos grandes desafios de todo gestor, independentemente do porte de seu negócio, é mapear com clareza o tamanho e o funcionamento do mercado em que atua. Quem são os outros players? Qual é a participação de sua empresa nesse mercado? A tendência é que cresça, estabilize-se ou se contraia? Será que no futuro os clientes seguirão interessados no que sua organização tem a oferecer? Quais são os ativos que tornam a empresa competitiva, e como proteger seu quinhão de mercado? Esses questionamentos, importantes e absorventes, preenchem de tal maneira o dia a dia das organizações que muitas não se dão conta de que podem ter em mãos ativos valiosos não apenas para seus negócios – mas para muitos outros mercados e negócios. 

Após dez, vinte, cem anos atuando em um mesmo setor, é comum que empresas acumulem expertises úteis e relevantes para outros segmentos. Algumas abrem unidades de negócios inteiras com base apenas nos ativos identificados como propulsores de novos mercados. A maioria, porém, é incapaz de levantar a cabeça, olhar ao redor e, de maneira engenhosa, delinear novos modelos de negócio, prospectando outras oportunidades ancoradas naquilo que faz melhor. Um provérbio chinês descreve esse impasse: segundo o ditado, se alguém descobriu a água, certamente não teria sido o peixe. Quando está imersa em seu aquário, uma empresa raramente consegue vencer as barreiras físicas, mentais ou tecnológicas que a separam de novos e mais rentáveis mercados – mercados por vezes maiores do que o negócio em que está inserida atualmente e, talvez, mais fáceis de explorar com base nos ativos que ela já possui. É compreensível; o cotidiano drena novas iniciativas. Além disso, muitos gestores não foram preparados para o mindset das grandes mudanças do nosso tempo; ainda pensam de modo linear e se deixam levar pela inércia. 

No entanto, executivos e gestores que derrubam esses muros estão encontrando novas formas de capturar valor e obter grandes benefícios. 

Para ajudar na visualização desse cenário cheio de possibilidades, desenvolvi uma ferramenta proprietária que mostra a grande abrangência de mercados possíveis de se conquistar com os ativos que cada empresa já tem. Esses mercados, por vezes, podem ser infinitamente maiores e menos concorridos que o mercado core. A ferramenta chama-se “Assets and Markets Materiality” e contribui de modo simples e efetivo para a identificação e o mapeamento de novos segmentos em que a companhia pode atuar, muitas vezes sem a necessidade de qualquer investimento, ou com investimento mínimo, e forte potencial de gerar receitas. 

**COMO USAR**

O exercício de utilização da ferramenta começa com uma reflexão profunda e compreensão por parte da empresa em relação a seus ativos, ou seja, seu valor. O que de fato permitiu que ela sobrevivesse tanto tempo no mercado? O que a fez superar os momentos de incerteza e as dificuldades? É o momento de perguntar-se: o que a empresa tem de único? Talvez esses ativos não sejam máquinas, embora possam ser; podem ser recursos financeiros – ou não; quem sabe fábricas, escritórios, equipes, ou ainda know-how, propriedade intelectual, contatos, networking, uma marca reputada positivamente e conhecida por duas ou três gerações. Há empresas que pensam ter um negócio, mas têm outro; denominam-se de tecnologia, mas, na realidade, são prestadoras de serviço, por exemplo. Esse entendimento é essencial para identificar as novas possibilidades e até mesmo grandes ameaças ao futuro e à perpetuação no mercado. 

Recorrer à ferramenta “Assets And Markets Materiality” em um processo de antecipação do futuro e revisão da estratégia empresarial envolve, entre diversos aspectos, pensar e repensar o modelo de negócio e a proposta de valor para o mercado. Foi o que fez, por exemplo, o hotel Maksoud Plaza, ícone da hotelaria paulistana. Fundado há quatro décadas, viveu tempos gloriosos, experimentou grandes dificuldades e endividamento e, desde 2016, trabalha para construir e implementar um novo planejamento estratégico alinhado ao atual perfil do segmento e à realidade do país. Ao utilizar a ferramenta, a direção do Maksoud detectou que sua marca (um de seus ativos) era forte o suficiente para permitir o ingresso em novos mercados de produtos e serviços co-branded, licenciados e locação comercial para criação de um ecossistema – o qual utilizaria de maneira ainda mais inteligente outro grande ativo, o próprio hotel. 

Uma vez que se tenha clareza sobre os ativos, é necessário fazer uma reflexão extrapolada a partir do mercado core, começando pelo que chamamos de core expandido – os mercados mais próximos. Tomemos o exemplo hipotético de uma empresa de refrigerantes e águas gaseificadas que deseje realizar esse movimento de prospecção de novos mercados. Em seu core expandido teríamos, por exemplo, o mercado de sucos, chás, águas de coco, até mesmo refrescos com porcentagem maior de fruta, entre outros produtos não ofertados naquele momento. Os mercados adjacentes guardam afinidades com o core, porém distanciam-se claramente dele, como se observa na figura; em nosso exemplo, poderia ser o de achocolatados ou o de bebidas à base de ingredientes presentes nos sucos, como as frutas in natura. O círculo mais externo da ferramenta está reservado a outros mercados, e aqui são permitidas rupturas mais profundas com o core. A Coca-Cola, por exemplo, definiu como “outro mercado” o de vestuário, depois de ter adquirido empresas de chás, sucos e energéticos. A Pepsico fez movimento semelhante: fabricante de refrigerantes em sua origem, hoje comercializa de aveias a salgadinhos industrializados. 

Vale imaginar qualquer mercado em que a organização considere que seus ativos podem trazer captura de valor. O pulo do gato, ou do sapo – leap frog –, consiste em aplicar uma visão que extrapole os limites da empresa, analisando o caminho mais curto para explorar outros mercados e considerando a aderência àquele com maior potencial ou que demanda menor investimento – uma escolha estratégica que a organização terá de fazer. Correndo por fora, há ainda os mercados incipientes ou inexistentes, aqueles para os quais a imaginação (ou a tecnologia) são o limite.

**O CASE HDI**

A companhia de seguros de origem alemã HDI reconhecia em seu corpo de colaboradores uma altíssima capacidade analítica. Apesar de atuarem prioritariamente no ramo de seguros automotivos, muitos executivos eram matemáticos ou estatísticos de formação, familiarizados com análises de dados organizados a partir de informações de seus segurados. Aplicando a ferramenta, perceberam possibilidades infinitas na área de inteligência artificial, na qual seus conhecimentos estatísticos e de algoritmos poderiam abrir terreno para que se tornassem, no futuro, gestores de big data quando a internet das coisas estiver mais disseminada. “Neste momento, estamos estudando onde já podemos começar a atuar e o que temos de fazer para entrar em outras áreas”, afirma Paulo Moraes, diretor de marketing da HDI Brasil. “Estávamos concentrados no negócio do carro e eis que, graças à ferramenta, começam a pipocar territórios de atuação tão diversos quanto inteligência artificial e e-learning, em um processo muito interessante”, completa. 

Há empresas que abrem unidades de negócios inteiras com base apenas nos ativos identificados como propulsores de novos mercados. A Porsche, por exemplo, tem um braço de consultoria, ativo desde 1994, por meio do qual grandes equipes de engenheiros e gestores aplicam a diversos negócios as soluções encontradas pela indústria automotiva em momentos de crise. Suas estratégias em tempos difíceis tornaram-se ativos com materialidade em diversos outros mercados. 

Nem sempre a transposição de ativos para outros mercados é simples – ou automática. É importante considerar também atributos de marca e de reputação que permitam a uma organização explorar os mercados certos. Uma empresa cujo core business é higiene e cuidados pessoais pode flertar com o mercado de beleza, onde as margens são bastante elevadas. No entanto, é importante que se pergunte se tem reputação para ingressar nesse novo ambiente. Nesses casos, é de importância vital a aplicação de pesquisas de mercado que contribuam para a tomada de decisão com base no que clientes e consumidores pensam, esperam e projetam para empresas e marcas, assim como para seus respectivos produtos e serviços. Afinal, nem sempre uma percepção interna é validada por outros públicos, o que pode inviabilizar alguns movimentos, ainda que temporariamente. Mesmo que não tenha reputação, porém, é possível construir pontes por meio de pequenas ações de tal modo que, em cinco ou dez anos, esteja preparada para lançar-se nele. 

Há situações em que o ativo em questão nem sequer está no core business da empresa. Um fabricante que insere seus produtos em 10 mil pontos de venda pode oferecer-se para distribuir mercadorias para outro que tenha uma rede mais restrita e queira expandir sua presença. O ativo, no caso, é a rede de distribuidores compartilhada, que se transforma ou se materializa em uma plataforma de vendas para outros mercados e empresas.

**GRANDES E PEQUENAS EMPRESAS**

É comum que se pense que essa capacidade de enxergar novos mercados seja privilégio de grandes empresas, com seu corpo de advisors, estrutura e capacidade de investimento. Nem sempre é assim: organizações tentaculares tendem a se curvar a burocracias infindáveis, regras de compliance, estratégias de proteção de marca e de acionistas. As pequenas e médias, bem como as empresas de dono, profissionalizadas ou não, podem sair em vantagem; ágeis e flexíveis, conseguem fechar negócios de maneira muito mais rápida apenas por meio de um acordo ou parceria estratégica. Ou seja, a ferramenta chamada “Assets and Markets Materiality” é de amplo uso, e capaz de auxiliar negócios de diferentes portes, setores e histórias em sua jornada de sustentabilidade econômica e financeira.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A Reforma Tributária vai criar uma nova onda de negócios B2B

Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

O crescimento das startups não depende apenas de escala, mas também de resolução

Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Sua empresa conhece o impacto de uma jornada de 40 horas?

Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

A IA está mudando o que significa ser um profissional sênior

Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo