Diversidade, Sociedade, Desenvolvimento pessoal

Você combate a violência contra as mulheres e meninas?

Dados refletem uma perturbadora realidade, desde casos de assédio, estupro e casamento infantil; homens têm papel decisivo para alterar essa realidade e as empresas precisam encarar esses fatos, indo além de uma estampa bonita de S do ESG
Fundadora da #JustaCausa, do programa #lídercomneivia e dos movimentos #ondeestãoasmulheres e #aquiestãoasmulheres

Compartilhar:

Você sabia que aqui no Brasil, desde 2007, o dia 6 de dezembro é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres? Pois é, nem eu.

Desde 2005, sou uma ativista da justa causa da igualdade de gênero e do combate a toda forma de violência contra nós, mulheres, uma constante em nossas vidas desde a infância. Até esse ano de 2021, quando comecei a fazer parte da Coalizão Empresarial pelo fim da violência contra mulheres e meninas, nunca tinha ouvido falar dessa data.

Para escrever esse artigo, fiz uma busca na internet e quase não encontrei conteúdo sobre o tema. Descobri que a data foi criada pela Lei do Laço Branco (nº 11.489/2007), quase duas décadas depois que, em 1989, em Montreal, no Canadá, o jovem Marc Lepine invadiu uma sala de aula da Escola Politécnica, filiada à Université de Montréal, e ordenou que os homens se retirassem. Ele então assassinou as 14 mulheres presentes e suicidou-se em seguida. Marc deixou uma carta dizendo que não suportava a ideia de ver mulheres estudando engenharia, um curso tradicionalmente masculino.

O crime chocou a opinião pública daquele país, fomentou um debate sobre desigualdades entre homens e mulheres e motivou um grupo de homens canadenses a criar a Campanha do Laço Branco, cujo lema é jamais cometer um ato violento contra as mulheres e não fechar os olhos frente a essa violência.

O movimento cresceu e hoje está presente em mais de 50 países em todos os continentes, com a missão de promover a igualdade de gênero, relacionamentos saudáveis e uma nova visão da masculinidade.

No Brasil, a Campanha do Laço Branco é coordenada pela Rede de Homens pela Equidade de Gênero (RHEG) e constituída por um conjunto de organizações não governamentais e núcleos acadêmicos, que promovem eventos e atividades de conscientização, sensibilização, engajamento e mobilização dos homens pelo fim da violência contra a mulher, no espaço público, escolas, instituições de saúde, empresas públicas e privadas.

Você leu alguma notícia ou viu alguma matéria sobre a data em qualquer que fosse o veículo de comunicação do Brasil nesse último dia 6 de dezembro? Pois é, nem eu.

## Dados que revelam um padrão

A violência contra as mulheres é uma pandemia histórico-cultural nos quatro cantos do mundo, praticada em sua esmagadora maioria pelos homens, que ainda se consideram nossos donos.

Os dados, infelizmente, não nos deixam mentir: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve 1.350 casos de feminicídio em 2020 — um caso a cada seis horas e meia. Esses crimes, motivados por questões de gênero, aumentaram em 14 das 27 unidades federativas.

Três em cada quatro vítimas tinham entre 19 e 44 anos. A maioria (61,8%) era negra e, em geral, o agressor era uma pessoa conhecida: 81,5% dos assassinos eram companheiros ou ex-companheiros, enquanto 8,3% das mulheres foram mortas por outros parentes. Em 55,1% das ocorrências, as mortes foram provocadas por facas, tesouras, canivetes ou instrumentos do tipo.

O número de ligações para o 190 (Polícia Militar) subiu 16,3%, totalizando 694.131 chamados por violência doméstica, enquanto 294.440 mulheres tiveram decisões de medidas protetivas de urgência concedidas pela Justiça brasileira no ano passado.

Em 2020, o Brasil registrou um caso de estupro a cada oito minutos — 60.460 boletins de ocorrência. A maioria das vítimas era do sexo feminino (86,9%) e tinha até 13 anos (60,6%).

Da totalidade de crimes sexuais, 73,7% dos casos foram contra vítimas vulneráveis — menores de 14 anos ou pessoas incapazes de consentir ou de oferecer resistência, enquanto 85,2% dos criminosos eram conhecidos da vítima.

## Triste realidade infantil

No ambiente de trabalho, segundo pesquisa do Linkedin e Think Eva, 47% das mulheres já sofreram algum episódio de assédio sexual, e apenas 5% dessas mulheres se sente segura para denunciar o assediador, por medo de retaliação. Nossa cultura machista ainda culpabiliza a mulher vítima de assédio. E o crime traz danos psicológicos que abalam a saúde, a carreira e a nossa vida, muitas vezes de maneira irreversível.

Como se não bastasse, o Brasil é o 4° país no mundo em casos de casamento infantil. Em sua maioria, essas uniões são estabelecidas entre indivíduos na idade adulta e meninas com idade inferior a 18 anos. De acordo com um relatório produzido pelo Banco Mundial, essa realidade atinge mais de 554 mil das nossas meninas de dez a 17 anos, sendo que mais de 65 mil delas se casam entre 10 e 14 anos de idade. Vale lembrar que, pela lei brasileira, qualquer relação sexual com menor de 14 anos é considerada estupro de vulnerável, com pena prevista de 8 a 15 anos de prisão.

Além disso, segundo estudo global realizado pela Plan International, 77% das nossas meninas já sofreram assédio sexual nas redes sociais. O Brasil é o país com o pior índice e esse crime digital chega a atingir nossas meninas a partir dos oito anos de idade.

## Atitude individual, ação coletiva (e empresarial)

Contra dados não há argumentos. Será pedir muito que vocês, homens, se engajem e se mobilizem pelo fim da violência que vocês praticam contra nós e nossas meninas?

Já passou da hora de vocês reverem suas práticas e atitudes, buscando alternativas para estabelecer relações mais igualitárias, justas e não-violentas.

Precisamos combater toda forma de violência contra nós, seja ela doméstica (psicológica, física, econômica ou patrimonial), sexual e reprodutiva, obstétrica, corporativa e institucionalizada, entre tantas outras.

E isso só será alcançado se pensarmos em uma consciência e uma educação em gênero para homens e mulheres, que nos possibilita repensar e entender como esse sistema está estabelecido na sociedade. Uma mobilização dos homens, lado a lado conosco, em prol de uma sociedade mais justa e um futuro sem discriminação nem violência de gênero.

Se você é líder de empresa, lembre-se que a igualdade de gênero é o ODS 5, entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Planeta. E o combate à violência contra mulheres e meninas faz parte do S, da sua matriz ESG.
Se você é homem, vem com a gente. Essa causa é sua!

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando pessoas inteligentes discordam, o problema pode não ser a informação

Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

2027 começa em outubro: o que os CEOs já estão decidindo agora

Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Plataformização da educação: 3 pontos para refletir antes de levar tecnologia para a sala de aula

Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

O que Guimarães Rosa pode ensinar sobre liderança na era da IA

Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

O caso Abril não foi uma crise da mídia. Foi uma crise de adaptação

Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Seu valor termina quando sua performance cai?

Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Cultura organizacional, Estratégia
6 de outubro de 2026 08H00
Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

9 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
5 de outubro de 2026 14H00
Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de outubro de 2026 08H00
Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

Camila Wasserman e Sabrina Serafim -

6 minutos min de leitura
Liderança
4 de outubro de 2026 14H00
Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de outubro de 2026 08H00
Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio-diretor da FC Partners

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução