Artigo

Você não está errado: salário ainda pesa muito

Liderar a si mesmo deve incluir negociar melhores salários. Uma nova pesquisa sobre remuneração e liderança no Brasil mostra que remuneração ainda é determinante para ficar ou sair de uma empresa – e mais da metade das pessoas em setores de indústria e serviços pensam em sair
Paul Ferreira é professor em tempo integral de estratégia e liderança da Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas em São Paulo (FGV-Eaesp), diretor do mestrado professional em administração (MPA) da FGV-Eaesp e vice-diretor do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (NEOP). Iasmin Braz é estudante em administração de empresas na FGV-Eaesp e pesquisadora do NEOP.

Compartilhar:

A remuneração está diretamente ligada às competências e ao nível de formação dos funcionários. Pessoas que ocupam cargos de liderança, geralmente, têm um grau de ensino e formação mais elevado. Será mesmo? Nossa pesquisa sobre remuneração e alta liderança indicou que não existe consenso em relação ao pagamento atual dos entrevistados e aos níveis de competência e de formação: 28% acreditam que o salário é compatível com a função exercida, enquanto 26% acham que a remuneração está abaixo.

A remuneração e o poder de negociá-la com a empresa podem variar em diferentes níveis hierárquicos. Na pesquisa, quando olhamos para os dados relacionados à disposição para negociar a remuneração, a maioria dos entrevistados (26%) se mostrou indiferente, enquanto 20% têm baixa disposição para negociação, e 25%, alta disposição.

## Mudanças de empresa em busca de melhor remuneração
A tendência mais comum entre os entrevistados é buscar aumento de remuneração associado a um maior bônus de curto prazo (36%). Historicamente, essa preferência é mais acentuada no Brasil do que em outros países com cenários econômicos mais estáveis ou com déficit de programas de seguridade social.

Para os demais entrevistados, a remuneração total não seria o fator decisivo na pretensão de mudar de emprego. Um aumento significativo no salário fixo, mesmo que signifique um aumento moderado na remuneração total (20%), sugere que esses profissionais valorizam a estabilidade financeira, que não seja resultado de metas ou outros tipos de ganhos variáveis. Além disso, cerca de 17% dos entrevistados também mencionaram que buscam melhores ofertas de compensação total. Além do aumento na remuneração, eles também estão visando melhorias no pacote de benefícios que complementam os salários, o que pode incluir vale-refeição, plano de saúde, seguro odontológico, vale-refeição e até modelo de trabalho.

Esse mix de benefícios, também conhecido como “salário emocional”, tem sido cada vez mais abordado no mercado de trabalho. É uma forma de atrair e reter talentos, afinal esses benefícios são importantes não só nos aspectos profissionais, mas também pessoais, pois podem ajudar a promover o equilíbrio com outros aspectos relacionados à qualidade de vida e saúde.

Os setores de indústria e serviço foram significativamente impactados durante a pandemia: 60% e 53% dos empregados, respectivamente, desejam mudar de emprego. A indústria sofreu impactos globais nas cadeias de fornecimento e mostrou vulnerabilidade na estruturação global. Mesmo com crescimento da demanda, cenários políticos e macroeconômicos incertos não trazem segurança. Da mesma forma, o setor de serviços ainda não voltou aos patamares de antes, porque ainda é impactado pelas mudanças de hábitos que a população adotou no período pandêmico.

Na outra ponta, funcionários dos setores de tecnologia e comércio mostraram menor intenção de mudar de emprego, com taxas de, respectivamente, 33% e 42%. Não espanta, pois na pandemia a indústria tecnológica cresceu, teve grande demanda de profissionais, salários competitivos e flexibilidade no modelo de trabalho. Já o setor comercial foi impactado negativamente pelas restrições da covid, mas aos poucos retoma o crescimento.

## Mais benefícios
Os CEOs são os mais propensos a buscar aumento na remuneração total (90%), enquanto diretores têm tendência menor nesse sentido (76%). Em todos os estratos da pirâmide, o salário ainda é o principal fator apontado como motivo de mudanças de emprego, mas nem sempre é o único. Apenas 25% dos entrevistados demonstraram interesse em negociar os ganhos no emprego atual, o que pode significar que a remuneração não é o único fator decisivo. Isso ocorre porque, muitas vezes, a perspectiva de carreira de funcionários de alto nível envolve busca constante por responsabilidades e exposições mais abrangentes. Um exemplo disso é que outros fatores apontados na pesquisa foram ausência de perspectiva de crescimento e insatisfação com a liderança direta, o que pode indicar necessidade de adaptação das empresas.

A maioria das organizações tomou medidas para ajudar os funcionários durante a pandemia, nomeadamente expandindo o alcance dos sistemas de benefícios não financeiros. De maneira particular, aumentaram os serviços relacionados à saúde mental, reconhecendo assim que esse é um tópico prioritário. Além disso, implementaram e/ou ajustaram políticas e programas para aliviar o estresse financeiro dos funcionários, compensando os custos de trabalhar remotamente ou fornecendo recursos para educação em casa.

Outro exemplo disso é que, depois de iniciada a pandemia, em 2020, com a normalização de modelos de trabalho mais flexíveis, muitas organizações abriram a possibilidade de trabalho em outros estados, países e de diferentes formas – consequentemente, aumentaram o leque de possibilidades para os funcionários. O modelo de trabalho influencia diretamente a qualidade de vida, seja no tempo gasto com deslocamento, por exemplo, ou na liberdade para morar longe dos centros comerciais, onde os custos são mais elevados. Mas isso não quer dizer que esses trabalhadores queiram permanecer na empresa: 54% das pessoas que estão atualmente no modelo híbrido pensam em trocar de emprego. Já entre aquelas que seguem no presencial, a taxa é de 45%. Trabalho remoto não significa trabalho melhor.

Saiba mais sobre a metodologia

A pesquisa foi realizada por FGV-Eaesp, Talenses Group e SG Comp Partners, com amostra de 303 respondentes (246 do gênero masculino e 57 do feminino). Considerando as gerações, a amostra ficou dividida entre 61% da geração X, 30% da geração Y e 9% de outras. Todos os entrevistados ocupavam cargos de alta liderança. A pesquisa utilizou método estatístico e escala Likert.

Artigo publicado na HSM Management nº 159.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O futuro que queremos construir e as conversas difíceis que precisamos ter!

Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica – e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?

Você acredita mesmo na visão que você vende todo dia?

Diretamente da cobertura do SXSW 2026, este artigo parte de uma provocação de Tom Sachs para tensionar uma pergunta incômoda a líderes e criadores: é possível engajar pessoas, construir mundos e sustentar visões quando nem nós mesmos acreditamos, de verdade, no que comunicamos todos os dias?

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de março de 2026
Você entende a lógica da velocidade e urgência terem deixado de ser exceção e virado regra? Muitas vezes, isso é estimulado pelas próprias estruturas de gestão e pelos modelos de cobrança que vêm da alta liderança.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
ESG, Estratégia
9 de março de 2026
Crescimento não recompensa discurso; recompensa previsibilidade. É por isso que governança virou mecanismo financeiro, não vitrine institucional

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de março de 2026
Falta de diagnóstico, de planos de carreira, de feedbacks estruturados e programas individualizados comprometem a permanência dos profissionais mais estratégicos nas organizações brasileiras

Maria Paula Paschoaletti - Sócia da EXEC

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
7 de março de 2026
Por que sistemas parecem funcionar… até o cliente realmente precisar deles

Marta Ferreira - Cofundadora e presidente da Spread Portugal

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
6 de março de 2026 06H00
A maior feira de varejo do mundo confirmou: não faltam soluções digitais, falta maturidade humana para integrá‑las.

Michele Hacke - Palestrante TEDx, Professora de Liderança Multigeracional

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
5 de março de 2026
Entre respostas perfeitas e textos polidos demais, corre o risco de desaparecer aquilo que nos torna únicos: nossa capacidade de errar, sentir, duvidar - e pensar por conta própria

Bruna Lopes de Barros

2 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
4 de março de 2026 12h00
Com todos acessando as mesmas ferramentas para polir narrativas, o que os diferencia? Segundo pesquisa feita com gestores brasileiros, autoconhecimento, expressão e autoria

Patricia Gibin - Consultora e coach

19 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
4 de março de 2026 06H00
As agendas do ATD26 e SHRM26 deixam claro: o ano começou exigindo líderes capazes de decidir com IA, sustentar cultura e entregar performance em sistemas cada vez mais complexos. Liderança virou infraestrutura de execução - e está em ritmo acelerado.

Allessandra Canuto - Especialista em Inteligência Emocional e Saúde Mental

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
3 de março de 2026 15h00
O verdadeiro poder está em aprender a editar o que a tecnologia ousa criar. Em outras palavras, a era da IA generativa derruba o mito da máquina infalível e te convida para dialogar com artistas imprevisíveis.

Sylvio Leal - Head de Marketing Latam da Sinch

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de março de 2026 08h00
Quando o ego negocia no seu lugar, até decisões inteligentes produzem resultados medíocres. Este artigo aborda a negociação sob a ótica da teoria dos jogos, identidade decisória e arquitetura de incentivos - não apenas como técnica, mas como variável estrutural na construção de valor organizacional.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...