Artigo

Você pode precisar começar de novo…

Nas discussões sobre o futuro do trabalho, pensa-se em um horizonte de três a cinco anos, no qual faz sentido o “ikigai”. Mas muitos de nós vamos trabalhar ao menos mais 30 anos, e essas condições vão mudar – como saber se você aprecia algo que ainda não experimentou?
Ricardo Cavallini é fundador da primeira agência digital do Brasil, professor da Singularity University, palestrante e consultor em tecnologia e inovação, além de pioneiro do movimento maker no País.

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Em 2003, quando estava estudando na universidade, o jovem chinês Frank Wang construiu um protótipo de um helicóptero de controle remoto. Alguns anos depois, sua empresa, a DJI, passou a ser a maior fabricante de drones comerciais do mundo. Admirados por seu design, tecnologia e inovação, os drones de Wang hoje são usados por uma grande variedade de indústrias e segmentos, da agricultura à construção, do cinema à segurança pública e movimentam empregos – há pilotos de drones – em todas essas áreas.

A iniciativa de Wang é a prova de que o mercado de trabalho muda de uma hora para outra conforme mudam tecnologias, produtos e serviços. Hoje vemos startups lançando aplicativos sem fim e tendemos a achar que isso ainda dará o tom do mercado daqui a 15 ou 20 anos. Daqui a 30, 40 ou 50 anos. Mas será? Se criar um novo hardware pode parecer loucura hoje para a maioria dos empreendedores, talvez deixe de ser em breve.

Um modo fácil de entender que o mundo dos negócios e do trabalho após 2030 será bem distinto do atual é olhar para a história. A onda da revolução agrícola mudou a cultura, o comportamento e os negócios, o mesmo ocorreu com a (primeira) revolução industrial e com a onda dos computadores e a onda atual, que convencionamos chamar de era digital (internet, celulares, redes sociais). A próxima onda, em que estamos ingressando agora, será a da inteligência artificial. O que vemos hoje de IA é meio assustador e parece ficção científica, mas é apenas o começo. Seu impacto será sentido principalmente nos próximos 15 anos.

Então, esqueça: nenhuma profissão é, ou vai ser, estagnada. Em todas elas você precisará estudar a vida inteira para ficar em dia e quase certamente vai ter que trocar de profissão, conforme o que estiverem pagando para as pessoas fazerem. Mas o que fazer para ter prontidão de mudar? E o que não fazer?

## Amar não basta
Realmente acredito que o aprendizado contínuo já é e continuará sendo uma das principais práticas para os profissionais do futuro. E isso, todos dizem, tem uma implicação importante: quando é preciso estar sempre aprendendo, é preciso amar o que se faz. Quem não ama, não apenas terá uma vida menos agradável, como terá dificuldades para se tornar alguém de destaque na profissão, porque irá concorrer com quem ama e continua aprendendo até em suas horas de lazer. Isso porque, para tais pessoas, aprender é um prazer.

É verdade essa história. Tenho um amigo que trabalha com criação de jogos. Ele ama tanto o assunto que, quando sai de férias, muito provavelmente sua viagem vai incluir tempo para participar de uma competição de jogos de tabuleiros em algum lugar bizarro, como o porão de uma loja de jogos na Cracóvia, Polônia. Como competir com alguém assim?

Daí a validade do conselho “Faça o que ama e nunca trabalhe na vida!”. Uma de suas variações é dizer que a escolha profissional deveria ser algo na intersecção entre o que você gosta de fazer, o que você faz bem e o que o pagariam para fazer. Em outras palavras, não adianta você ser o maior especialista em falar a língua do “P” se ninguém pagaria por isso. Nem seria uma boa escolha ser jogador de futebol se, mesmo sendo uma paixão, você é um perna de pau dos diabos. Parece um conselho mais ponderado, não?

Mas acredito que é muito pouco prático. Como você vai saber o que gosta de fazer se nunca experimentou? Como desconsiderar a influência do contexto no seu gosto? Muitos odeiam matemática não pela matéria em si, mas pela forma como ela foi ensinada ou estimulada.

Então, um primeiro conselho em termos de prontidão é: disponha-se a experimentar coisas diferentes. Não é incomum que o gosto apareça quando descobrirmos ser bons em algo que estamos fazendo.

## Futurismo não basta também
É muito comum ler artigos falando sobre as profissões do futuro. Mas cuidado: eles focam apenas o curto prazo. As previsões focam cargos que terão maior demanda e, provavelmente, pagarão os melhores salários nos próximos três a cinco anos. Na década passada a bola da vez eram as profissões relacionadas com computação e dados, mas dizer que isso será a tônica da próxima década não faz muito sentido.

Basta pensar que uma parte considerável dos custos para fabricar alguns produtos já não vêm da matéria-prima ou da produção em si, mas de marketing, distribuição e armazenamento, atributos que devem ser completamente reconfigurados no futuro.
Então, você estará sempre em uma zona de (in)segurança e (des)conforto. O cenário apontará sempre empregos e profissões realmente novos.

Se você quer saber como desenvolver prontidão para um novo trabalho, eu sugeriria considerar ter mais de uma profissão ao mesmo tempo. E/ou olhar para quem tem.
Principalmente os jovens mudarão de profissão, e será cada vez mais comum ter mais de uma profissão simultaneamente. Isso, como eu disse, já acontece, embora seja tratado como algo “menor”. Médicos que também ganham a vida como “influenciadores”, publicitários que são músicos part-time etc.

Ter mais de uma profissão ao mesmo tempo pode ser benéfico em vários sentidos. Cria uma rede de relacionamentos mais eclética, o que ajuda na vida pessoal e profissional. Você aprende em uma carreira coisas diferentes que podem complementar sua qualificação em outra. O aprendizado de uma serve à outra. Pode trazer ideias de uma para a outra e até ajudar financeiramente em possíveis mudanças de rumo.

Perder um emprego, por exemplo, passa a ser menos complicado quando você tem duas ou mais profissões. Pode ajudar a ser mais bem realizado profissionalmente, até porque as pessoas têm vários interesses na vida. Isso faz você trabalhar sua flexibilidade e seu jogo de cintura para se adaptar e se transformar, se reinventar. Por todos esses motivos, exercer uma única profissão pode não ter muita lógica no futuro.

Acho que tudo começa, na verdade, com uma maneira diferente de ver a escolha da profissão – e enfatizo isso para os seus filhos, sobrinhos, netos etc. Como estamos falando de longo prazo, e não dá para prever qual profissão vai nascer e qual vai morrer, nossa decisão na escolha da carreira não pode ser mais vista como um caminho sem volta ou uma decisão imutável, muito menos única. Faz muita diferença entender que suas escolhas não serão para toda a vida. Espero que saber disso tire um pouco da carga que está sentindo nos ombros. Ter essa leveza no terreno do trabalho é importante.

## Esqueça o medo
Como estamos discutindo as próximas décadas, a pergunta que precisa ser feita é: será que existirão empregos (como conhecemos hoje) daqui a 30 ou 40 anos? Possivelmente não – ou, se houver, serão muito poucos. Sei que isso é difícil de entender para quem já construiu uma carreira. Uma mudança para o profissional experiente costuma significar abrir mão de muita coisa. Com isso em vista, como decidir arriscar uma carreira consagrada destinando parte do tempo para outra?

Há também o medo da mudança ou medo do novo para alguém que fez a mesma coisa na vida por décadas. E existe igualmente uma questão prática da relação custo-benefício. Não à toa, mudanças desse tipo acontecem em períodos de grande crise – quando as pessoas perdem (ou podem perder) o emprego e têm a obrigação de recomeçar – e em momentos de estresse e burnout. Esses momentos também são grandes incentivadores da mudança profissional, porque o custo pessoal se torna alto demais para não mudar. (O movimento que ficou conhecido como “great resignation”, de demissões voluntárias, foi isso coletivamente.)

Há 20 anos, um amigo que era programador estava trabalhando na empresa, saiu para almoçar e nunca voltou; ele virou palhaço. Na época achei que ele havia surtado, mas hoje entendo que talvez tenha sido a melhor decisão que ele tomou na vida. E, se na época uma escolha assim era exceção, após a pandemia de covid-19 ela se normalizou. Hoje vejo gente que passou a estudar ou trabalhar com algo completamente diferente – quem era jornalista e virou programador, quem era de vendas e virou psicólogo, quem trabalhava com alta tecnologia e foi fazer e vender pão.

Muitas dessas pessoas já poderiam ter investido nessas frentes de modo planejado, como uma segunda carreira (como hobby ou algo sério), e acabaram fazendo-o no improviso. Mas dá para se estruturar mais. E a boa notícia? Seu conhecimento anterior não será perdido.

O filme *Rogue One: Uma história Star Wars* foi lançado em 2016 com a personagem Princesa Leia (a atriz Carrie Fischer) rejuvenescida por computação gráfica. Ficou estranho e foi criticado. Hoje esse rejuvenescimento é melhor, mais rápido e mais barato, feito num computador caseiro. Algo similar deve ocorrer com novas profissões – então, experimente.

Artigo publicado na HSM Management nº 159.

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