Empreendedorismo
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3As Framework: o papel da ‘Agência’ nas transformações organizacionais

A agência dos agentes em sistemas complexos atua como força motriz na transformação organizacional, conectando indivíduos, tecnologias e ambientes em arranjos dinâmicos que moldam as interações sociais e catalisam mudanças de forma inovadora e colaborativa.
É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

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Liderança, panorama, futuro

Nos dois artigos anteriores, exploramos os conceitos de Assemblage (Aglutinação) e de Affordances (Disponibilidades), ambos componentes do 3As Framework criado por Dave Snowden. Agora, concluímos essa série de artigos com uma análise do conceito de Agency (Agência), suas relações com os conceitos de Assemblage e Affordances, e suas implicações e potencial para catalisar mudanças em sistemas sociais.

O conceito de ‘Agência’ refere-se a qualquer pessoa (individual ou coletiva) ou qualquer coisa (como tecnologias, artefatos e lugares) que exista em um sistema e tenha a capacidade de agir e modificá-lo. Analisar um sistema social sob a perspectiva das ‘Agências’ tem como principal objetivo entender quem ou o que atua nesse sistema, o grau de liberdade dessas ações e os diferentes níveis de influência sobre o contexto em questão.

Na sociologia e na antropologia, Agência refere-se à capacidade de indivíduos ou grupos de agir de forma independente, tomar decisões e exercer influência sobre o mundo ao seu redor. Esse conceito é essencial para compreender como as pessoas interagem com as estruturas sociais, exercem controle sobre suas próprias vidas e são influenciadas ou moldam as condições em que vivem. Em ambas as disciplinas, há um constante diálogo entre a liberdade de ação e as limitações impostas por estruturas sociais, culturais e materiais.

No contexto organizacional e empresarial, este conceito se manifesta de várias formas e em múltiplos níveis, envolvendo a capacidade de indivíduos, grupos, departamentos e até tecnologias e processos de tomar decisões e influenciar o desempenho da empresa. Elementos externos, como clientes, fornecedores, concorrentes, parceiros, associações, governos e órgãos reguladores, também exercem algum nível de ‘agência’ sobre a organização.

Agency em contextos complexos 

A relação entre Agência e sistemas sociais complexos é fundamental para entender como indivíduos, grupos e entidades interagem dentro de estruturas sociais dinâmicas e interconectadas. Em sistemas sociais complexos, as ações de agentes, sejam individuais ou coletivos, não resultam apenas de decisões autônomas, mas também são moldadas por uma rede de relações e interações que influenciam, de maneira recíproca, o comportamento e os resultados globais do sistema. Essa interdependência significa que a agência não pode ser compreendida isoladamente, mas deve ser analisada no contexto do sistema como um todo.

Nos sistemas complexos, a agência tende a ser distribuída entre múltiplos agentes, em vez de concentrada em um único ator ou entidade central. Para entender as dinâmicas do sistema, é crucial analisar como diferentes agentes — de indivíduos a instituições e tecnologias — exercem influência, colaboram e, por vezes, competem entre si. Cada agente tem um grau de ‘agência’ condicionado pelo sistema, e suas ações contribuem para o comportamento emergente do próprio sistema.

A noção de emergência é central para a relação entre Agência e sistemas complexos. A agência de um agente individual, por si só, pode ter efeitos limitados; no entanto, quando esse agente interage com outros agentes e com o ambiente sistêmico, suas ações podem gerar resultados inesperados e não lineares. Por exemplo, as escolhas de consumo de um grupo de pessoas, ao interagirem com o mercado e com políticas econômicas, podem desencadear mudanças significativas nos padrões de produção e oferta.

Essa interdependência também limita a agência de alguns agentes, já que suas ações estão sempre sujeitas a restrições estruturais e à imprevisibilidade das interações. Contudo, ela também cria oportunidades para cooperação, onde a conexão entre diferentes agentes pode amplificar sua agência coletiva, resultando em transformações mais amplas.

A relação entre Agency,  Assemblages e Affordances

A relação entre os conceitos de Agency e Assemblage (conforme explicado em artigo anterior) está profundamente ligada às ideias de ação, multiplicidade e relações dinâmicas. Ambos abordam a ação e a transformação em sistemas complexos, mas a partir de perspectivas ligeiramente diferentes. Enquanto a Agência se concentra na capacidade dos agentes (humanos e não humanos) de agir e influenciar sistemas, o Assemblage refere-se à forma como esses agentes são organizados, conectados e moldados em arranjos dinâmicos que permitem ou restringem essa ação.

A Agência pode ser vista como a força ou a potência que impulsiona a desterritorialização de um Assemblage, provocando mudanças e possibilitando novas configurações. A capacidade de um agente, individual ou coletivo, de agir não é fixa, mas depende de como ele se conecta ao Assemblage em que está inserido. Ao alterar essas conexões, por meio de ações diretas ou indiretas, é possível modificar o comportamento e os efeitos desse ‘agenciamento’.

Um bom exemplo da integração entre Agência e Assemblage pode ser observado no cotidiano urbano das cidades. Uma cidade pode ser vista como um Assemblage de elementos como humanos (moradores, autoridades), infraestruturas (estradas, edifícios, redes de transporte), tecnologias (internet, eletricidade) e práticas culturais (hábitos de mobilidade, consumo).

Nesse contexto, a agência não reside apenas nas pessoas, mas é distribuída entre todos esses elementos. Alterações em qualquer um desses componentes — como a introdução de uma nova tecnologia de transporte ou mudanças nas políticas públicas — podem reconfigurar o Assemblage urbano, criando novos padrões de mobilidade e interação.

O conceito de Affordances (disponibilidades) ajuda a entender as dinâmicas das agências em um sistema. Utilizar as agências disponíveis em um sistema social para catalisar mudanças e melhorias requer uma compreensão profunda dos vetores que influenciam ou moldam o sistema, além da identificação dos agentes-chave e suas capacidades de ação. A eficácia em promover mudanças depende de como essa agência é mobilizada, distribuída e ampliada, sempre em diálogo com as estruturas que limitam ou facilitam essas ações.

Agency como construtores de mudanças organizacionais

Compreender essas dinâmicas é essencial para facilitar processos de mudança nas organizações. Uma abordagem eficaz para catalisar transformações em sistemas sociais complexos é a formação de alianças sistêmicas entre diferentes agentes, cada um trazendo suas capacidades de ação para colaborar em prol de um objetivo comum. Ao unir forças, atores com diferentes formas de agência — como recursos econômicos, poder político, conhecimento técnico e influência social — podem ampliar significativamente sua capacidade de transformar o sistema.

O ecossistema do Cynefin Framework, com suas diversas lentes de análise e métodos, auxilia na compreensão das implicações e potenciais acerca do fenômeno das agências em sistemas sociais. A Agência é um elemento relevante capaz de provocar mudanças de estado no sistema, mas também de restringir e limitar as opções de movimento dentro desse mesmo sistema.

Identificar os elementos que exercem agência em um sistema social é essencial para qualquer organização que esteja em uma jornada de transformação. Com essa compreensão dos agentes e suas relações, as organizações podem elaborar estratégias mais eficazes para mudar suas formas de trabalho, estruturas, práticas e negócios de maneira geral.

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