Dossiê HSM

A relação íntima entre dados e experiências

Pesquisas como as de base neurocientífica são instrumentos poderosos para alavancar a CX. Mas há muitas possibilidades, desde as tradicionais pesquisas de mercado, até o design thinking e o analytics de dados para conhecer o cliente. Para a entrega da experiência, uso intensivo de tecnologia
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

Compartilhar:

Oferecer uma boa experiência do cliente deveria ser questão de bom senso. Exemplo: se as pessoas que a desenham não gostam de URAs (aqueles atendimentos telefônicos automáticos que dizem “aperte 1 para isso, 2 para aquilo… 9 para voltar ao menu inicial”), não imponham URA aos clientes. Mas não é assim que funciona. Quando complexidade e custos (vinculados principalmente a dados) entram por uma porta, a sensatez pode sair por outra.

A boa notícia? A tendência é os dados serem mais abundantes e, assim, mais acessíveis, como a reportagem apurou.

## Para entender o cliente
Mateus Pestana, CEO da SenseData e considerado um dos maiores experts mundiais em customer success, não tem dúvidas: não faltam mais informações que permitam criar uma boa experiência para os clientes. “Somando-se às tradicionais pesquisas de mercado e de opinião {dados primários}, há o volume de informação que obtemos nas interações do cliente com a marca quando grande parte da jornada desse cliente está digitalizada {dados secundários}, e aqui há uma montanha de ouro. Basta as empresas usarem esses dados não para vendê-los, mas para entender os clientes e oferecer uma experiência melhor e mais fluida”, diz.

Diego Senise, fundador e sócio da consultoria em ciência de dados Ilumeo, exemplifica a montanha de ouro dos dados secundários: “um app como iFood, por exemplo, sabe onde a pessoa está, o tipo de comida do qual mais gosta, sua preferência quanto a estabelecimentos, se o pedido e a entrega atenderam à expectativa… É possível mapear aí quase 40 data points em um único pedido em aplicativo de delivery”, calcula o CEO da Ilumeo.

O desafio está na interpretação desses dados secundários, segundo Senise. Ele recorre à metáfora do elefante e os sete cegos, em que cada um dos cegos, ao olhar os dados (ao tocar uma parte do elefante), interpreta algo diferente. O rabo pode parecer uma corda para um, enquanto a orelha talvez ser sentida como uma cortina por outro. “Quem é da área de comunicação privilegia os tuítes e comentários nos posts do Facebook; quem é de atendimento vê o Reclame Aqui; a turma de inteligência de mercado quer uma pesquisa de imagem de marca; se é alguém de customer success vai querer uma pesquisa de satisfação; o analytics prefere softwares de business intelligence. São todos pedaços de informações – importantes – que analisam a jornada, mas separados geram risco ao planejamento estratégico, e podem levar a empresa a investir em algo que é só parte de uma história.”

A chave, então, é conectar os dados, necessidade que Senise diz ter identificado ao fazer uma pesquisa qualitativa com diretores de planejamento em agências e diretores de marketing de anunciantes, para que ele pudesse planejar o semestre de aulas de comportamento do consumidor que ministra na Universidade de São Paulo (ECA-USP). “São necessários profissionais que saibam conectar os vários pontos de dados para chegar a uma narrativa.”

A CEO do Ipec, Márcia Cavallari Nunes, concorda e ressalta a importância dos dados primários das pesquisas tradicionais, que constituem um aprofundamento das informações, mais a checagem de coerência entre comportamentos alardeados nas redes sociais e os dados fornecidos aos pesquisadores – checagem essa que muitas vezes é feita. Além disso, ela enfatiza o valor do trabalho conjunto de institutos de pesquisa e da área de inteligência dos clientes para integrar informações primárias e secundárias. A Ilumeo também já tem feito análises integrando dados ecométricos (como os declarados pelo consumidor em pesquisa) com econométricos (de vendas, investimentos etc.).

Integração de dados pauta ainda o tema de satisfação do cliente – hoje é possível integrar os dados de cada cliente com os dados de negócio. Como o cliente navega, como mexe no app, gasta quanto, está ou não no CRM, abre e-mail marketing e avisos push, se deu ou não nota de satisfação, se avaliou a URA, o que disse no WhatsApp. A inteligência artificial já tem sido usada e ainda mudará muita coisa nessa área.

O WhatsApp, é claro, pode ser usado, se não forem rastreadas as mensagens privadas – somente se aproveita o que vem por meio de chatbots e com acordos autorizando o uso. As informações coletadas no WhatsApp são importantes porque se diferenciam das postagens públicas em redes sociais, segundo pesquisas citadas por Senise. Enquanto estas refletem sobretudo a imagem que a pessoa quer passar, mensagens privativas com familiares e amigos no WhatsApp informam também sobre crenças, medos, ânimo.

Agora, a abundância e o acesso têm armadilhas: tantas informações disponíveis podem fazer parecer que o céu é o limite, mas ainda há uma grande limitação dos dados de redes sociais, por exemplo, para contemplar de forma ampla o que acontece no processo de tomada de decisão durante a jornada de consumo. “Nós não falamos nas redes sociais sobre grande parte das categorias de consumo do dia a dia {produtos de higiene pessoal, alimentos consumidos, transporte que utilizamos etc.}”, pondera Senise. Os assuntos compartilhados são mais gerais, como estreias da Netflix, jogos de futebol e games de sucesso.

__Leia também: [Nasce o marketing da experiência fluida](https://www.revistahsm.com.br/post/nasce-o-marketing-da-experiencia-fluida)__

Artigo publicado na HSM Management nº 157.

Compartilhar:

Artigos relacionados

2027 começa em outubro: o que os CEOs já estão decidindo agora

Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Plataformização da educação: 3 pontos para refletir antes de levar tecnologia para a sala de aula

Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

O que Guimarães Rosa pode ensinar sobre liderança na era da IA

Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

O caso Abril não foi uma crise da mídia. Foi uma crise de adaptação

Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Seu valor termina quando sua performance cai?

Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

A contradição que desafia a ONU: É possível falar em inclusão global sem Taiwan?

Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Liderança, Estratégia
5 de outubro de 2026 14H00
Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de outubro de 2026 08H00
Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

Camila Wasserman e Sabrina Serafim -

6 minutos min de leitura
Liderança
4 de outubro de 2026 14H00
Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de outubro de 2026 08H00
Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio-diretor da FC Partners

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de outubro de 2026 08H00
A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Carol Martins - CEO da SOAP

Oferecido por SOAP
3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução