Cultura organizacional

O que o talento ganha e o que se pede dele?

Ao olharmos a proposta de valor aos talentos reconhecendo que toda relação de trabalho envolve – ou deveria envolver - demandas e recursos, temos maiores chances de termos marcas empregadoras mais maduras
Atua como consultora em projetos de comunicação, employer branding e gestão da mudança pela Smart Comms, empresa que fundou em 2016. Pós-graduada em marketing (FGV), graduada em comunicação (Cásper Líbero) e mestranda em psicologia organizacional (University of London), atuou por 13 anos nas áreas de comunicação e marca em empresas como Johnson&Johnson, Unilever, Touch Branding e Votorantim Cimentos. É professora do curso livre de employer branding da Faculdade Cásper Líbero, um dos primeiros do Brasil, autora de artigos sobre o tema em publicações brasileiras e internacionais e co-autora do livro Employer Branding: conceitos, modelos e prática.

Compartilhar:

No prefácio do primeiro livro sobre employer branding que escrevi em 2020 com a colega colunista Viviane Mansi, o autor e consultor norte-americano James Ellis defendeu que uma das principais diferenças entre branding e employer branding está no fato de que o primeiro quer gerar desejo em todo mundo, e o segundo, somente nas pessoas certas. Desde então, eu reflito muito sobre o que precisa ser dito em posicionamento de marca empregadora que já não é “resolvido” em um posicionamento de marca comercial ou institucional.

Employer branding surgiu a partir do pensamento de que quando nosso público-alvo principal é o talento e não o consumidor, a proposta de valor da marca é experimentada em uma relação muito mais íntima. Explicando: uma pessoa – salvo raras exceções – normalmente não está nas empresas de que compra produtos e serviços, mas está diariamente na empresa em que trabalha, vendo-a e vivendo-a por dentro.

Sendo assim, em employer branding nosso trabalho deve responder a uma pergunta específica: por que o talento deve escolher entrar, ficar e até promover a organização? Simplesmente listar valores, crenças, benefícios, fortalezas e oportunidades não é uma resposta suficientemente boa. Precisamos ser mais específicos em relação ao que os talentos querem saber: o que vai ser pedido deles? Quanto custa estar naquela empresa em termos de comprometimento, sacrifícios e entrega? O que eles recebem em troca, além do óbvio que está no contrato?

Em 2006, a teoria de demandas e recursos de trabalho foi publicada por dois pesquisadores, Arnold Bakker e Evangelia Demeuroti, que sugeriram que toda relação de trabalho envolve demandas e recursos: o que se pede dos funcionários e o que se oferece em troca em termos de compensação e recursos para realização do trabalho. O foco do trabalho era estudar o desequilíbrio entre esses dois aspectos como um preditor de burnout, mas há uma conexão interessante com employer branding. Mais ou menos na mesma época, o livro *The employer brand*, escrito por Richard Mosley e Simon Barrow, trouxe a ideia de que a proposta de valor do empregador (EVP, na sigla em inglês) precisa ter entre seus elementos os gives and gets – o que se espera que o talento dê (give) e o que ele recebe em troca (get) – muito bem estruturados.

Essa abordagem ganhou destaque bem depois, em 2020, quando Bryan Adams e Charlotte Marshall publicaram *Give and get employer branding* (sem versão em português até o momento), um livro que destrincha essa ideia em uma metodologia completa para a construção de EVPs. Na prática, construir uma proposta de valor incluindo os gives e gets envolve captar já no diagnóstico da marca empregadora não só os bônus, mas também os ônus da experiência de trabalhar na organização. Até aí, minha experiência diz que esses ônus aparecem quase que naturalmente durante o processo e cabe à metodologia escolhida para a construção do EVP reconhecê-los e classificá-los adequadamente – algo que o modelo de Adams e Marshall faz muito bem e faz com que ele mereça ser estudado.

O xis da questão está em como realmente levá-los para a proposta de valor ao talento. Qualquer profissional que já tenha construído ou participado da construção de um EVP levando para a mesa os aspectos negativos da marca empregadora sabe que a conversa pode ficar bem difícil, especialmente quando é hora de validar atributos e mensagens-chave. Há uma resistência enorme em levar qualquer mínima menção às sombras da experiência de trabalho. Ora, qualquer busca rápida pode entregar essas sombras a qualquer candidato e o talento interno…bem, esse as conhece melhor do que ninguém. Então, por que a dificuldade dessas sombras, digamos, em primeira pessoa?

Arrisco duas respostas. A primeira: consultorias ou times internos de construção de EVP nem levam as sombras para a discussão e entregam propostas de valor cheias de positividade, acreditando no seu poder de gerar visibilidade e persuadir pessoas a entrar e ficar na empresa. É uma abordagem bem alinhada com a ideia de vender o trabalho como um produto – promover, destacar, tornar visível, convencer a “comprar” – que ignora o que acontece da porta para dentro. A segunda: as propostas de valor até trazem para a fase de aprovação os elementos negativos da experiência de se estar na empresa, só que eles são imediatamente cortados ou diluídos ao ponto da insignificância. “Não podemos falar isso” ou “vamos trocar esse atributo de ‘dedicação de muitas horas diárias’ por ‘ritmo intenso’” são falas que podem aparecer nesses momentos.

O resultado é que vemos propostas de valor cada vez mais parecidas quando um dos propósitos de se trabalhar marca empregadora é a diferenciação. Parecemos superconfortáveis e até desejosos dessa diferenciação ao pensarmos em marcas comerciais, mas temos medo dela em marcas empregadoras. Um mestre em branding que tive a sorte de conhecer no meu caminho sempre dizia que posicionamento que é posicionamento pode gerar apenas duas coisas: identificação ou rejeição. Não à toa, marcas empregadoras maduras falam de repelir tanto quanto falam de atrair.

Eu penso que isso é causado, em parte, pela ideia de que um EVP é apenas um slogan e um manifesto ou, no máximo, um guia para o que a empresa vai escrever no site de carreiras, no Linkedin ou no Glassdoor. Por essa ótica, realmente é complicado pensar em repelir alguém ou falar sobre as coisas não tão boas da empresa. Porém, se o entendimento do EVP for de que ele não só guia essas coisas como outras muito mais granulares – por exemplo, o que um recrutador precisa deixar claro numa conversa – fica mais fácil entender que os elementos negativos da empresa precisam fazer parte do que ela diz sobre si mesma. Nesse sentido, fazer o exercício do que se pede de cada talento e o que ele ganha em troca é um dos mais ricos para trazer e manter por perto quem vai entregar, ter sucesso, prosperar e fazer tudo isso gostando do processo – nos dias bons e nos dias ruins, sem grandes surpresas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Ataques inevitáveis, impacto controlável: a nova lógica da cibersegurança

A pergunta já não é mais “se” sua empresa será atacada – mas quão preparada ela está para responder quando isso acontecer. Este artigo mostra por que a cibersegurança deixou de ser um tema técnico para se tornar um pilar crítico de gestão de risco, continuidade operacional e confiança nos negócios.

A longevidade das PMEs como objetivo social

Se seis em cada dez empresas não sobrevivem, o problema não é apenas o ambiente. Este artigo revela que a alta mortalidade das PMEs no Brasil está ligada a falhas internas de gestão, governança e tomada de decisão

Estratégia, Gestão de Pessoas
24 de maio de 2026 12H00
Quando a energia do Mundial entra no cotidiano corporativo, o humor, empatia e pertencimento se modificam; e quem ganha é a corporação, com o incremento do comprometimento de colaboradores e impactados

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

0 min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de maio de 2026 08H00
Este artigo propõe uma nova lógica de liderança: menos controle, mais calibração - onde a inteligência artificial não reduz a agência humana, mas redefine a forma como decidimos, pensamos e lideramos em contextos de incerteza.

Carlos Cruz - Pesquisador, Escritor e Consulting Partner Executive na IBM

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de maio de 2026 16H00
A pergunta já não é mais “se” sua empresa será atacada - mas quão preparada ela está para responder quando isso acontecer. Este artigo mostra por que a cibersegurança deixou de ser um tema técnico para se tornar um pilar crítico de gestão de risco, continuidade operacional e confiança nos negócios.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de maio de 2026 09H00
Este artigo desmonta o entusiasmo em torno do Vibe Coding ao revelar o verdadeiro desafio da IA: não é criar software com velocidade, mas operar, integrar e governar o que foi criado - em um ambiente cada vez mais complexo e crítico.

Wilian Luis Domingures - CIO da Tempo

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
22 de maio de 2026 15H00
Mais do que visibilidade, este artigo questiona o papel das marcas em momentos de emoção coletiva e mostra por que, na Copa, só permanece na memória aquilo que gera conexão real - o resto vira apenas ruído.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

2 minutos min de leitura
Empreendedorismo
22 de maio de 2026 11H00
Se seis em cada dez empresas não sobrevivem, o problema não é apenas o ambiente. Este artigo revela que a alta mortalidade das PMEs no Brasil está ligada a falhas internas de gestão, governança e tomada de decisão

Sergio Goldman

6 minutos min de leitura
User Experience, UX
22 de maio de 2026 07H00
Ao ir além da experiência do usuário tradicional, este artigo mostra como a falta de clareza jurídica transforma conversão em passivo - e por que transparência é um ativo estratégico para crescimento sustentável.

Lorena Muniz e Castro Lage - CEO e cofundadora do L&O Advogados

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz a visão de um executivo da indústria que respondeu ao mito da substituição. Que, ao contrário da lógica esperada, mostra por que inovação não é destruir o passado, mas sim, reinventar relevância com clareza, estratégia e execução no novo cenário tecnológico.

Antonio Lemos - Presidente da Voith Paper na América do Sul.

7 minutos min de leitura
Estratégia e Execução, Marketing
21 de maio de 2026 13H00
Este artigo mostra como o descompasso entre o que é planejado e o que é efetivamente entregue compromete a experiência do cliente e dilui o valor da estratégia, reforçando que a verdadeira vantagem competitiva está na consistência da execução.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de maio de 2026 07H00
Quando ninguém mais acredita, a organização já começou a perder. Este artigo revela como a incoerência entre discurso e prática transforma cultura em aparência - e mina, de forma silenciosa, a confiança necessária para sustentar resultados e mudanças.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão