Uncategorized

Qual é seu problema mesmo?

Saber fazer a pergunta certa é importante, como mostra a matéria da HSM Management nº 131. E saber descrever um problema também. Conheça uma nova abordagem para o líder formular o problema e resolvê-lo de modo efetivo, que parte do método A3 da Toyota e vai além.

Compartilhar:

A capacidade de formular adequadamente um problema pode ser uma das competências mais subestimadas do universo da gestão.

Há poucas perguntas mais poderosas do que: “Que problema estamos tentando resolver?”. Líderes que conseguem formular claramente um problema conseguem obter mais resultados com menos esforço e se movem mais rapidamente do que aqueles menos focados.

A boa notícia é que é possível aprimorar essa capacidade. Para entender um pouco melhor como a mente humana funciona, veja o quadro da página seguinte.

COMO FORMULAR OS PROBLEMAS

Para que um enunciado de problema tenha força, ele precisa apresentar quatro elementos:

**1) Fazer referência a algo com que sua organização se preocupa e conectar esse elemento a uma meta clara e específica.**

Você deve ser capaz de traçar uma rota entre o problema e sua missão. Boa parte do esforço empregado na implementação de ferramentas como Seis Sigma e Lean Management foi desperdiçado porque foi direcionado a problemas irrelevantes. 

**2) Conter uma articulação clara da distância entre a atual situação e a situação desejada.**

As pesquisas mostram que a comparação mental entre uma situação almejada e a atual, em um processo conhecido como contraste mental, aumenta a possibilidade de se alcançar a mudança desejada. Por sua vez, concentrar-se apenas na situação futura ou nos desafios a serem superados no caminho é menos produtos. Além disso, as pessoas são motivadas pela sensação de progresso.

**3) Ter variáveis-chave – situação desejada, situação atual e distância entre uma e outra – que sejam mensuráveis.**

Ser capaz de medir a distância entre a situação atual e seu objetivo dará suporte a um projeto efetivo. No entanto, nem tudo que faz diferença pode ser medido de maneira precisa. 

A solução estruturada de problemas pode ser aplicada a cenários que não geram mensurações imediatas e precisas. Mesmo que não possam ser objetivamente medidos, a maioria dos atributos pode ser “subjetivamente quantificada”.

Isso significa que o atributo que você está monitorando tem uma direção clara e que você sabe se ter mais dele é melhor ou pior. Um exemplo? Sabe-se que quanto maior a satisfação dos clientes, melhor é a situação. 

**4) Ter um escopo suficientemente reduzido para que possa ser atacado de modo rápido.**

A formulação de um problema deve representar uma manifestação específica de uma questão maior com a qual você se preocupe. Mas é recomendável separar um grande problema em vários pequenos problemas que possam ser atacados rapidamente. De maneira simples, é possível avançar mais rapidamente com 12 projetos de um mês cada do que com um projeto de 12 meses. 

**2 TIPOS DE PENSAMENTO**

As pesquisas mostram que o cérebro humano possui dois métodos primordiais para lidar com problemas. A definição de que método será dominante – e, consequentemente, o que determinará a resposta final – depende tanto do contexto ao redor da pessoa responsável pelas decisões como de seu estado emocional.

**1. Processamento consciente.** Como o nome sugere, o processamento consciente representa a parte do cérebro que você controla. Sempre que você está alerta sobre seu esforço mental ou conta a outra pessoa que está pensando em algo, utiliza o processamento consciente.

Trata-se de um tipo cognição poderosa e precisa. É a única parte do cérebro capaz de fazer o que os psicólogos chamam de simulação mental, ou seja, formar uma imagem mental da situação e, então, imaginar diferentes cenários possíveis, mesmo que nenhum deles já tenha ocorrido anteriormente. O processamento consciente é o domínio da lógica, uma vez que utiliza o conhecimento sobre o mundo para construir possibilidades que vão além de nossa experiência concreta.

**2. Processamento automático.** Você não pode controlar esse tipo de pensamento ou mesmo saber que ele está acontecendo. Apenas percebe os resultados – como frear o carro quando outro veículo, à sua frente, repentinamente para na estrada.

Quando uma informação parece simplesmente “pipocar” na sua mente dias após um acontecimento, você está experimentando, na prática, o processamento automático em funcionamento. Uma vez que você não tem acesso ou controle sobre essa função do cérebro, o processamento automático dá a impressão, muitas vezes, de ser algo mágico – também por isso costumamos nos referir a ele como instinto ou intuição.

Não surpreende, portanto, que o processamento automático lide com problemas bem diferentes daqueles dos quais o “lado” consciente do cérebro se ocupa. Quando enfrentamos um problema conscientemente, agimos de forma lógica, tentando construir um caminho consistente que vai do problema até a solução.

O processamento automático, por sua vez, trabalha com base em associações e padrões. Esse processamento tenta encaixar o problema em uma situação previamente vivida e, então, usa a experiência passada como guia para agir. Ao depender de padrões baseados em experiências passadas, essa função tende a levar as pessoas a manter os comportamentos padrão.

É importante estar ciente desses dois tipos de pensamento, bem diferentes, a fi m de aprimorar sua capacidade de formular problemas. Assim você entende que, se não reservar o tempo necessário para formular um problema de modo claro, acabará acionando o pensamento automático, que só usa o acervo de experiências conhecidas na busca de soluções.

**OS ERROS MAIS COMUNS**

A implementação de um modelo de formulação de problemas costuma esbarrar em dois erros:

**ERRO 1. “Nós já sabemos qual é o problema.”**

O erro mais comum é fugir da necessidade de formular o problema. Muitas vezes, as pessoas partem do pressuposto de que, por haver um consenso sobre o problema, devem ir logo para o trabalho de tentar resolvê-lo. Infelizmente, essa “clareza” sobre o problema geralmente é só aparente. Sem a atenção explícita e o debate sobre os vários aspectos do problema, todos dependem das experiências passadas individuais para guiar suas ações. Se as pessoas em uma reunião parecem divagar, é bem provável que a causa seja a falta de uma clara formulação do problema.

**ERRO 2. Problemas que são, na verdade, diagnósticos ou soluções.**

Pense nas seguintes frases: “O problema é não termos capacidade de marketing” e “O problema é que as pessoas das fábricas não são boas comunicadoras”. Embora possam ser verdadeiras, nenhuma delas constitui efetivamente um enunciado de problema; ambas fazem referência a objetivos da organização.

O objetivo fica apenas implícito e as frases já vão direto para o diagnóstico (de por que o objetivo não é alcançado) ou para as soluções. Isso significa pular uma etapa da cadeia lógica, o que faz perder a oportunidade de um processo cognitivo consciente. 

**ABORDAGEM HÍBRIDA  PARA RESOLVER**

Desenvolvemos uma abordagem híbrida de solução estruturada de problemas que é, ao mesmo tempo, simples e efetiva. A base é, essencialmente, uma versão simplificada da metodologia A3 da Toyota.

**PASSO 1: Articular o enunciado do problema.**

O primeiro passo é formular claramente o enunciado do problema, oferecendo informações suficientes para relacioná-lo com a missão mais ampla da organização.

Boa parte da abordagem estruturada de solução de problemas se traduz em expressar pressupostos que, de outra forma, só estariam implícitos. Dessa forma, busca-se estabelecer um processo mais consciente. É a oportunidade de articular o porquê de seu esforço de solução do problema.

**PASSO 2: Analisar a situação atual.**

Sempre que há um problema, na prática, o conhecimento mais relevante sobre ele está nas mentes e nas mãos das pessoas que fazem o trabalho do dia a dia. O desafio reside no fato de que, por conta do processamento automático, a maioria não é capaz de descrever com precisão como realiza suas atividades. As pessoas desenvolvem um conjunto de ações habituais e respostas rotineiras, das quais não possuem plena consciência.

Assim, para começar a se aprofundar na análise de um problema, você não pode depender dos relatos. Em vez disso, deve aproximar-se o máximo possível do “locus” do problema, para poder observar o trabalho sendo feito.

É claro que, ao analisar os resultados de sua pesquisa, seu próprio processamento automático tenderá a mapear as observações com base em experiências passadas, de forma consistente com suas crenças já estabelecidas. Isso torna mais difícil encontrar novas soluções.

Para compensar essa tendência, a próxima tarefa que compõe essa etapa é analisar a causa-raiz. O fundador da Toyota, Sakichi Toyoda, recomendava os cinco porquês. Para cada problema observado, dizia, devemos perguntar “por que” cinco vezes. Exemplo: Por que o carro não dá partida? Porque a bateria morreu. Por que a bateria morreu? Porque o alternador não está carregando a bateria. Por que o alternador não está funcionando? E assim por diante – até chegar à causa fundamental.

**Passo 3: Criar um objetivo.**

De certo modo, este passo é basicamente um reflexo da análise da causa-raiz realizada no passo anterior. Ao relacionar características do sistema de trabalho ao problema que você quer resolver, você pode agora propor um sistema atualizado que reduza o problema identificado.

Neste passo, você estrutura um sistema de trabalho que possa funcionar de forma mais eficiente. Isso pode ser tão simples como dizer: “Vamos fazer mudanças no programa de treinamento dos funcionários”. As mudanças, porém, devem ser específicas, baseadas na análise da causa-raiz.

Um bom enunciado de objetivo deriva diretamente do enunciado do problema, e inclui uma previsão de quanto da distância encontrada você almeja reduzir e quanto tempo vai demorar para conseguir isso. Por exemplo: se seu problema era “24% de nossas prestações de serviço não geram respostas positivas dos clientes”, seu enunciado de objetivo poderia ser “reduzir os retornos negativos sobre as interações com nossos serviços em 50% no período de 60 dias”.

**Passo 4: Executar o plano.**

Ao final, você deve elaborar um plano para implementar as mudanças propostas. Esse plano deve ser desdobrado em um conjunto de atividades distintas e é fundamental que cada atividade tenha um responsável e um prazo de entrega claramente definido.

Mesmo que você inicie a fase de execução, o processo não acabou. Você precisará capturar todas as lições que surgem no caminho. Monitore cada atividade, tendo em vista o prazo de entrega, e observe se atrasos começarem a ocorrer. Esses problemas também podem se beneficiar de uma abordagem estruturada de solução de problemas.

Lembre sempre que, no universo da manufatura, do desenho de serviços ou em pesquisa e desenvolvimento (P&D), resolver um problema geralmente revela três ou mais novos possíveis problemas. Faça o fechamento de seu projeto destacando o problema seguinte em que todos precisarão se concentrar. Formular um bom enunciado de problema é uma capacidade que qualquer um pode desenvolver, mas demanda prática contínua e disciplina.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

A Reforma Tributária vai criar uma nova onda de negócios B2B

Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

O crescimento das startups não depende apenas de escala, mas também de resolução

Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo