Uncategorized
4 min de leitura

Redução da jornada: um passo para a saúde mental e inclusão no trabalho

A redução da jornada para 36 horas semanais vai além do bem-estar: promove saúde mental, equidade de gênero e inclusão no trabalho. Dados mostram como essa mudança beneficia especialmente mulheres negras, aliviando a sobrecarga de tarefas e ampliando oportunidades. Combinada a modelos híbridos, fortalece a produtividade e a retenção de talentos.
*Carine Roos é pesquisadora de ética em inteligência artificial, direitos humanos, saúde emocional e gênero. A especialista possui mestrado em Gênero pela London School of Economics (LSE) e pós-graduação em Cultivando Equilíbrio Emocional pelo Santa Barbara Institute for Consciousness Studies. Fundadora e CEO da Newa, consultoria de impacto social especializada na criação de ambientes corporativos humanizados, éticos e psicologicamente seguros, tem como missão preparar e capacitar líderes de grandes empresas. Autora da newsletter The Hidden Politics of AI, que analisa o impacto das big techs na governança digital e nos direitos fundamentais, também é palestrante em eventos de inovação, LinkedIn Top Voice, e colunista em veículos como Você RH e HSM.

Compartilhar:

Jornada de trabalho

A redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais tem sido debatida como uma medida com potencial transformador para o ambiente corporativo. Mais do que uma iniciativa de bem-estar, essa mudança pode melhorar a saúde mental, aumentar a produtividade e promover equidade de gênero e inclusão. Estudos recentes mostram que esse impacto é ainda mais significativo para mulheres negras, que enfrentam desafios desproporcionais tanto no mercado de trabalho quanto na carga doméstica.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2022, conduzida pelo IBGE, revelam que as mulheres no Brasil dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Essa diferença de 9,6 horas semanais reflete uma sobrecarga significativa que prejudica a saúde mental e limita as oportunidades de desenvolvimento profissional delas.

O impacto é ainda mais profundo para as negras, que além de realizarem maior carga de afazer doméstico, enfrentam barreiras estruturais no mercado de trabalho. A taxa de realização de afazeres domésticos por elas foi de 92,7%, a maior entre os grupos raciais analisados. Esse desequilíbrio na divisão de tarefas persiste mesmo entre trabalhadores formalmente empregados, evidenciando que, além de enfrentarem longas jornadas remuneradas, as mulheres continuam assumindo a maior parte do trabalho não remunerado em casa.

O relatório “Advancing Equality: Women in the Hybrid Workplace” (IWG, 2023) revela que o modelo híbrido tem desempenhado um papel crucial na promoção da inclusão e na criação de novas oportunidades para o público feminino no mercado de trabalho. Mais da metade delas pesquisadas (53%) afirmou que a flexibilidade do modelo híbrido as incentivou a buscar promoções ou cargos de liderança, e esse número aumenta para 61% entre mulheres de grupos minoritários. Além disso, dois terços (66%) das entrevistadas destacaram que ele abriu oportunidades que antes não estavam ao alcance, enquanto 70% acreditam que tornou seus empregos mais inclusivos. Mulheres com mobilidade reduzida também relataram benefícios significativos, com 86% dizendo que transformou os empregos de escritório para mais acessíveis.

O estudo aponta ainda que o modelo híbrido contribui para melhorar a saúde mental e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, com 89% das mulheres afirmando que a flexibilidade ajudou a gerenciar responsabilidades familiares e profissionais de forma mais equilibrada. A pesquisa destaca que, além de reduzir barreiras históricas, esse modelo fortalece a produtividade e a retenção de talentos, sendo uma ferramenta essencial para a promoção da equidade de gênero e inclusão no ambiente corporativo.

Esses resultados destacam como a redução da carga de trabalho, promovida pela divisão mais justa de responsabilidades ou pela adoção de modelos flexíveis, são fundamentais para melhorar a qualidade de vida delas. Ao aliviar a sobrecarga, essas medidas criam condições para que as mulheres não apenas conciliem suas responsabilidades pessoais e profissionais, mas também aspirem a posições de maior destaque e liderança. Essa articulação entre a redução da jornada de trabalho e a equidade de oportunidades contribui diretamente para a construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária.

Ambientes psicologicamente seguros e inclusivos

A redução da jornada é também uma oportunidade para construir ambientes psicologicamente seguros. Priorizando o descanso e a saúde mental, as organizações criam uma cultura de valorização e respeito, em que os

colaboradores se sentem à vontade para compartilhar ideias, buscar apoio e colaborar sem receio de julgamentos.

Essa transformação beneficia especialmente grupos sub-representados, como mães e pessoas de diferentes origens socioeconômicas, ao aliviar a carga dupla e permitir maior dedicação à vida profissional. Para maximizar os benefícios, as empresas devem investir em comunicação transparente, adotar uma abordagem focada em resultados (e não em quantidade de horas envolvidas) e promover treinamentos em segurança psicológica. Incorporar jornadas reduzidas à políticas de inclusão fortalece a retenção de talentos e contribui para uma cultura corporativa mais equilibrada e inclusiva.

Impactos sustentáveis e reputação corporativa

Esse processo de redução também contribui para as metas de ESG (Ambiental, Social e Governança). Menos deslocamentos diários, viabilizados por jornadas curtas e modelos híbridos, ajudam a reduzir emissões de carbono, enquanto o tempo adicional para atividades pessoais melhora a saúde mental e o engajamento das equipes.

Além disso, essa prática pode ser posicionada como uma inovação social, fortalecendo a reputação como uma empregadora responsável. Isso atrai talentos alinhados a valores de sustentabilidade e inclusão e aumenta a confiança dos stakeholders, consolidando a imagem da organização no mercado. A adoção de uma jornada de 36 horas semanais é uma oportunidade de repensar estruturas organizacionais e colocar as pessoas no centro das decisões. Empresas que priorizam práticas inclusivas e sustentáveis não apenas promovem o bem-estar de seus times, mas também se destacam como líderes na construção de um mercado mais justo e resiliente.

Este é o momento para gestores assumirem o compromisso de transformar a cultura corporativa, promovendo ambientes mais saudáveis e preparados para os desafios futuros. Reduzir a jornada não é apenas uma medida prática, mas um passo essencial para a valorização do trabalho humano em todas as suas dimensões.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que a filosofia voltou a ser uma ferramenta de gestão

Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Pare de tentar prever o mundo. Construa uma empresa que aguenta vários.

Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de agosto de 2026 09H00
Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Roberta Barros - Gerente de Strategy, Innovation & Ventures na Deloitte.

7 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
6 de agosto de 2026 17H00
Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

12 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de agosto de 2026 08H00
Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de agosto de 2026 14H00
Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo