Gestão de Pessoas

Sentir-se parte da empresa é saudável

O caminho para criar uma cultura de pertencimento requer a humanização das relações
José Carlos Nascimento tem 33 anos de experiência em RH com passagens por grandes multinacionais como: IBM, PeopleSoft, Convergys, Convergys, BT Global Services, Sitel e Sage. Em todas exerceu cargos de liderança regional e para América Latina. Formando em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e com MBA em Gestão de negócios pela Fundação Getúlio Vargas, atualmente é diretor de RH da IOB. O executivo é especialista em metodologias de desenvolvimento de liderança e de carreira, e aquisição, sucessão e retenção de talentos.

Compartilhar:

O home office já é realidade para alguns profissionais há um bom tempo, mas durante a pandemia ele foi tão difundido que, agora, assistimos ao movimento de consolidação de novos modelos de trabalho. Consequentemente, vemos uma transformação na forma de liderar pessoas.

Segundo uma pesquisa do Google Workspace com IDC Brasil, apenas 25% das empresas estão atuando presencialmente em 2022. A maior parte está em modelo híbrido (56%) ou remoto (19%).

Isso nos leva a refletir sobre os desafios das organizações, que vão muito além dos estruturais, uma vez que cada vez mais profissionais exercem suas funções remotamente. Pois, em uma empresa, é necessário que exista um senso coletivo. Mas como fazer isso com pessoas que, em alguns casos, nunca se viram pessoalmente? O mercado está sendo obrigado a repensar a cultura organizacional para despertar o senso de pertencimento nesses trabalhadores.

Afinal, nunca é demais lembrar que o homem é um animal social. Segundo o psicólogo americano Abraham Maslow, a demanda pelo social fica abaixo apenas das fisiológicas e de segurança. Para Maslow, quando negligenciamos essas necessidades, sentimos frustração, desinteresse, pessimismo e insegurança, entre outras emoções negativas.

No mundo corporativo, é o senso de pertencimento que faz o colaborador se sentir parte do todo, aceito, útil e valorizado. Ele é capaz de refletir diretamente na melhora da saúde mental do profissional e na qualidade do seu trabalho. Com isso, é inevitável que a organização também se beneficie, usufruindo de um clima melhor.

Segundo uma pesquisa da Harvard Business Review, profissionais satisfeitos são 31% mais produtivos, 85% mais eficientes e 300% mais inovadores. Quem se sente parte, se sente mais feliz e, consequentemente, produz mais e melhor. Os resultados podem ser vistos na qualidade das entregas internas, na queda da taxa de “turnover” e na reputação que a empresa ganha no mercado. Quem não quer trabalhar num lugar onde as pessoas se sentem bem assim?

A importância do senso de pertencimento vai além de ter uma performance superior – ela está ligada também com a retenção de talentos e a motivação. Porém, engajar e despertar esse sentimento, independemente do modelo, é um trabalho que tem começo mas não tem fim. É bom salientar que isso precisa permear toda a organização. A começar pelo CEO, todos têm um papel fundamental nessa cultura.

O colaborador que se sente acolhido e parte de um time, num ambiente saudável, está menos propenso a pedir demissão e mais inspirado a continuar entregando o seu melhor. Mas como fazer ele se sentir verdadeiramente inserido sem a presença física? Como criar esse sentimento em perfis e gerações diferentes? A resposta está na liderança.

A busca por despertar um sentimento positivo de pertencimento começa por dar aos líderes as ferramentas necessárias para que eles aprimorem dois pontos cruciais: a comunicação e a percepção. O primeiro, a comunicação, deve ser analisado sob a perspectiva do gestor. Como ele se relaciona com os seus liderados? Ele consegue criar um espaço aberto ao diálogo dentro das suas equipes? Tudo isso é determinante para a construção de uma cultura interna saudável, na qual todos se sintam ouvidos e relevantes para a empresa, mesmo estando a quilômetros de distância do escritório.

O outro ponto é a percepção. Sempre atento aos detalhes e ao subjetivo, o líder deve ser um eterno observador. Ele observa o ambiente e os colaboradores para perceber comportamentos fora dos padrões, antever situações e intervir o quanto antes.

No home office, uma solução que tem se mostrado eficiente para olhar o entorno é abrir a câmera. Sim, deve haver o estímulo para que, sempre que possível, todos se vejam, mesmo que seja pelo computador. O contato visual no dia a dia atua como um fortalecedor dos laços.

A comunicação e a percepção são poderosas aliadas para criar uma relação individualizada com cada colaborador. E o senso de pertencimento está ligado ao fato de se sentir entendido. O empregado que tem a sua necessidade social atendida enxerga no líder um apoiador, alguém com quem ele pode contar.

Vale reforçar que o respeito à privacidade é primordial. Por maior que seja a intimidade com o seu superior, em questões da sua vida pessoal, o colaborador deve ter a iniciativa de pedir ajuda e sinalizar o limite do que deseja expor.

Sabe o que é muito instigante e apaixonante no trabalho de recursos humanos? A solução nem sempre passa por ações espalhafatosas. Apostar em coisas simples e efetivas faz a diferença. Por exemplo, o gerente pode ligar para todos os seus liderados no aniversário de cada um. Pode ser considerado algo até banal, mas toda ação para fazer a pessoa se sentir parte é muito relevante. No caso da ligação, a atitude demonstra que o gestor se preocupa e gastou alguns minutos do seu dia apenas para felicitar o colaborador. Um ato que não custa nada e demanda apenas uma breve organização para salvar lembretes com as datas e alguns minutos por dia ao telefone.

Nesse novo cenário, o caminho para criar uma cultura de pertencimento requer a humanização das relações. A comunicação e a percepção vão fornecer os insumos necessários para o líder estabelecer essas interações mais individualizadas, respeitando a singularidade de cada colaborador, mas pensando sempre no coletivo.

O gestor é uma peça-chave nessa construção de um ambiente, remoto ou híbrido, saudável. Porque, além de orientar e estar sempre aprimorando as suas habilidades de gestão, ele também tem o papel de servir de inspiração. Os ganhos em ter uma empresa em que as pessoas se sentem parte dela, como já mencionado, vão além da produtividade, impactam diretamente na saúde mental.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Do ego ao fluxo: A jornada interior de um líder

Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego – quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
16 de junho de 2026 15H00
O mercado discute o futuro - mas continua ignorando quem já está pronto para trabalhar. Este artigo chama atenção para um movimento ignorado: a crescente presença da geração 60+, e o custo de continuar excluindo um dos recursos mais experientes e disponíveis da força de trabalho.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de junho de 2026 09H00
Na estreia da coluna, as autoras, Cecília Seabra e Thais Giuliani, propõem uma mudança de paradigma na liderança: sair das explicações rápidas e dos julgamentos para construir relações mais consistentes por meio da escuta, da curiosidade e da integração de diferenças.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
15 de junho de 2026 15H00
Colesterol, cardiologista, academia. Tudo certo. Só falta mencionar o que, de fato, está tirando as pessoas de campo.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
15 de junho de 2026 08H00
A liderança não cabe mais em rótulos e quem ainda pensa assim pode estar ficando para trás. Este artigo mostra como a valorização de perfis não lineares e a capacidade de integrar múltiplas experiências redefinem o conceito de talento nas organizações.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de junho de 2026 15H00
Mais do que falta de talento ou tecnologia, este artigo revela o verdadeiro risco das organizações modernas: pessoas que deixam de dizer o que pensam. Este artigo demonstra como isso compromete decisões, inovação e resultados sem que ninguém perceba.

Valter Bahia Filho – Autor e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
14 de junho de 2026 08H00
Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego - quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
13 de junho de 2026 15H00
Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.

Dr. Cristiano Nabuco - Reitor da Artmed School of Psychology (APSY)

6 minutos min de leitura
Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
12 de junho de 2026 14H00
Entre piscinas, quadras e salas de conselho, este artigo mostra por que a performance sustentável não nasce do excesso de esforço, mas da capacidade de alinhar foco, descanso, decisão e leitura de contexto na liderança.

Thierry Marcondes

0 min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
12 de junho de 2026 09H00
O preço do aparelho é só o começo - o custo real aparece no uso. Este artigo revela como custos ocultos e recorrentes redefinem a lógica de consumo de smartphones e impulsionam novos modelos de uso.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão