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A curva do pato

(ou quando inovar é gerar novos problemas)
É curador de conteúdo HSM e líder do time de conteúdos originais da plataforma. Graduado em Letras pela Universidade de São Paulo e em Edição pela Universidade Mackenzie, participa da produção e execução de parcerias, como o podcast CBN Professional, e produção de conteúdos para a HSM Experience.

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Considerada muitas vezes a grande solução para os problemas da humanidade, a inovação tecnológica sofre de um forte messianismo por parte de seus entusiastas, que enxergam em sua curva exponencial de desenvolvimento e impacto positivo um caminho de maravilhas e o desenho de uma quase utópica sociedade, praticamente um conto de Arthur C. Clarke, grande nome da ficção científica do século 20. No entanto, na mesma medida em que ganha complexidade, a inovação tecnológica também desenvolve uma curva exponencial de problemas que, muitas vezes, demandam outro tipo de abordagem que não a técnica; vale pensar em qual seria. 

Pensemos, por exemplo, na energia solar. Quando falamos dela, chegamos à chamada “curva do pato”, a demonstração visual de um problema comum para aqueles que trabalham ou estão mais familiarizados com a produção desse tipo de energia. O gráfico (que lembra vagamente a silhueta de um pato) leva em consideração os momentos em que se demanda maior uso de energia em uma sociedade versus a capacidade que ela tem de produzir energia elétrica a partir da luz solar. A relação desigual entre demanda (alta pelas manhãs e noites, quando as famílias estão em casa) e produtividade (alta ao meio-dia, com a maior exposição dos painéis solares à luz do sol; e inexistente à noite), além de demonstrar um grande problema que os idealistas de futuros sustentáveis deverão enfrentar, ilustra um problema que, ao menos em parte, é gerado pela tecnologia.

Mas nem precisamos pensar no futuro para ver a curva do pato e os desdobramentos problemáticos da tecnologia. Qualquer pessoa que já teve a oportunidade de visitar o metrô de uma grande cidade como São Paulo pôde viver na pele a questão da oferta e da demanda. A solução para isso, definitivamente, não é tecnológica, pois já tentamos ao investir em alternativas: ônibus, trens, táxis, apps de mobilidade; todos, de certa maneira, intensificaram o problema, não o resolveram. O resultado fica claro em cada horário de rush, em cada sexta-feira à tarde nas principais avenidas brasileiras. 

Tanto para os negócios quanto para a vida, a curva exponencial da tecnologia deveria vir acompanhada da mudança de mindset, de uma visão crítica sobre práticas, gestão de recursos, modelos de trabalho e gestão etc. A questão é: que facilidades essa inovação está me trazendo e quais os efeitos colaterais dela? É refletir a respeito de que mudanças de mentalidade tais novas tecnologias estão demandando e se isso vale a pena. 

Inovar sempre, mas sem pagar o pato.

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