Contagem regressiva

Do líder reativo à liderança criativa

O consultor holandês, expert em desenvolver lÍderes criativos, sugere uma jornada interior aos gestores – para que criem mais
Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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## 5 – O que são criatividade e liderança criativa?
O jeito mais básico de ver a criatividade é pensar que traz algo original para o mundo, algo que não foi feito antes – ao menos, não daquela maneira. Pode ser um produto ou uma ideia. Já liderança criativa é uma voz interior que fala à pessoa que lidera sobre uma visão a ser alcançada, e essa pessoa atua com paixão e amor até alcançá-la. Tem a ver com criar coisas, mas estas não precisam ser originais. Ouvindo essa voz interior, o líder criativo vira um gerador de energia que “acende” as pessoas. Eu, por exemplo, ouço minha voz interior por meio da poesia

## 4 – Dá para ter pensamento criativo, pensamento crítico, pensamento sintético e analítico, tudo isso junto, como se exige dos gestores? Como aprender a criar?
Nunca pensei sobre isso, mas me parece que não são pensamentos excludentes, porque suas origens são distintas. O pensamento analítico se desenvolve na escola e, depois, na faculdade; a maioria das pessoas o têm. O pensamento crítico vem de fora, enquanto o criativo vem de dentro. O pensamento sintético exige reconhecimento de padrões em cenário amplo, o que se adquire com experiência ao longo da vida. Então, todos podem desenvolver todos, eles se misturam. Só alerto para o cuidado de o pensamento autocrítico não sabotar o pensamento criativo.
Quanto a aprender a criar, há muitas técnicas, eu mesmo criei várias, porém o mais importante é a pessoa fazer sua jornada interior para deixar de ser reativa e se tornar criativa. A pessoa reativa depende do contexto no qual opera para definir quem é e o que faz – cerca de 60% das pessoas são reativas, ou seja, dependem de validação e vivem para resolver o que os outros consideram problema.
Operar de maneira mais independente do contexto, que é a parte criativa, é algo bem mais difícil de executar. A fonte da criatividade está em você ter um senso de “sou bom como sou”. Isso é crucial para você conseguir correr riscos como o de fracassar, porque construir algo, sobretudo algo original, é sempre um risco. Com isso, você se sente bem consigo mesmo quando não tem sucesso. Ante o risco, o reativo diz: “Tenho uma ideia, quero concretizá-la, mas tenho medo da crítica do meu chefe, então vou deixar para lá”.

## 3 – Como um gestor que fracassou uma vez, que tem medo de pegar Covid-19, ou que tem medo ser demitido, se mantém independente do contexto?
O cônjuge dessa pessoa a ama? Os filhos a amam? Então, o que importam chefes, colegas, os jornais, os head­hunters? O psicólogo Robert Kegan estuda o desenvolvimento humano e diz que em várias etapas somos moldados como mentes socializadas, alinhadas com o que os outros acham ser importante. Isso é útil para viver em sociedade, mas não é uma verdade absoluta – e limita nosso potencial. Se quisermos criar coisas melhores, temos de nos libertar dessa mente.
Agora, sobre o medo, não estou dizendo para reprimi-lo ou fingir que não existe. É preciso, antes de tudo, identificar se ele é um medo real ou imaginário – em muitos casos, é imaginário, e você deve ter consciência disso para descartá-lo. Se é real, como são nossos medos nesta pandemia, temos de aprender a superar um dia de cada vez mesmo com esse sentimento desagradável. Superou hoje? Amanhã você temerá de novo. Superou? O medo voltará depois de amanhã. Até não voltar.

## 2 – Então, o líder é um rebelde que deixa que o entorno se ajuste a ele? Não há o risco grande de esse líder ter ego em excesso? E mais: queremos mesmo líderes criativos em todos os níveis da organização?
Eu diria o contrário: o líder é que precisa se ajustar, o que ele faz interpretando o entorno para conseguir ficar livre daquilo que o entorno vai querer lhe impor. São independentes. A noção de líderes rebeldes tem duas versões: (1) rebeldes não se importam com as demais pessoas, o que é ruim e nada sustentável, e (2) rebeldes que sabem que querem ser diferentes dos outros, em benefício dos outros. O egocentrismo não é necessariamente negativo se, ao descobrir sua voz interior, o líder consegue conectá-la às pessoas ao seu redor para servi-las, não para tirar proveito delas.
Já sobre a outra pergunta dos líderes criativos em todos os níveis, seu pressuposto é de que líderes criativos não põem a mão na massa. Certo? Pois eu discordo disso. Primeiro, um mesmo indivíduo pode ser visionário e pragmático, hands-on, ao mesmo tempo. Segundo, na estrutura hierárquica antiga, podia até ser bom que os líderes se cercassem de pessoas reativas obedientes – bom, mas perverso. Agora, no mundo atual, há tanta incerteza que ninguém pode operar sem pensar, nem no chão de fábrica, nem no balcão de loja ou no restaurante fast-food. Imagine se, a cada novo desafio, o sujeito precisar parar, ir até o líder e perguntar: “O que faço agora? Você nunca disse o que fazer nessa situação, só na outra”. Não vai funcionar. Criatividade só é desnecessária em casos de previsibilidade extrema, o que inexiste no século 21.

## 1 – Existem culturas mais criativas do que outras? O que você acha da cultura brasileira nesse quesito, por exemplo? E da cultura da China, um país cada vez mais hegemônico? Aliás, quão criativos você acha que serão os próximos 30 anos?
Sim, culturas nacionais diferem em criatividade. Estive na China e trabalhei com chineses em programas de liderança e, como cultura, acho que os chineses têm muito das mentes socializadas, são reativos, muito bons em atender aos desejos dos outros. Isso foi enraizado neles desde a revolução maoísta. Eu não gosto de expressões como benchmarking e melhores práticas, e isso descreve bem os chineses. O Brasil, diferentemente, que eu conheço razoavelmente bem, tem uma alegria de viver que não vejo em outros países, independentemente das circunstâncias, incluindo as mais adversas, como agora. Os brasileiros acessam com facilidade essa camada profunda que mencionamos antes, que precisa ser desbravada na jornada interior pelos líderes criativos. Isso é uma vantagem como ponto de partida.
Quanto ao futuro, bem: eu não tenho nenhuma perspectiva sobre ele. Filosoficamente, acho que hoje é mais importante que o futuro, e a forma como vivemos hoje é que vai moldar o futuro – indiretamente. Se colocarmos coisas positivas em movimento, como amor e abundância, esses movimentos vão, no fim das contas, nos levar a um futuro mais desejável. Agora, se ficamos operando com base no medo e na escassez, como vemos acontecer nos últimos anos nos Estados Unidos, na Hungria, na Polônia e também no Brasil – um medo que agora se agravou com a pandemia de Covid-19 –, a perspectiva de futuro fica bem pior, porque as pessoas ficam ainda mais reativas quando sentem medo.

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Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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