Tecnologias exponenciais
7 min de leitura
Oferecido por:

O impacto de IA na mente, corpo e mundo 

O futuro da liderança em tempos de IA vai além da tecnologia. Exige preservar o que nos torna humanos em um mundo cada vez mais automatizado.
É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

Compartilhar:

Tive a honra de participar do Cynefin Retreat em Snowdonia, no País de Gales (UK), em março deste ano. O Cynefin Retreat é o principal evento da comunidade Cynefin ao redor do mundo e, neste ano, reuniu líderes, cientistas e executivos em torno do tema “Mente, Corpo e Mundo“. O tema central foi o catalisador para uma rica troca de experiências e perspectivas acerca dos desafios atuais para manter as organizações saudáveis e prósperas em meio às mudanças do mundo.  

Além do mergulho investigativo nas nuances relacionadas ao funcionamento da mente, do corpo e mundo, as discussões naturalmente orbitaram em torno do impacto que as rápidas mudanças geradas pelas tecnologias de Inteligência Artificial (IA) nas organizações e na sociedade.  

Como se sabe, muito tem se falado sobre as promessas da IA para questões de inovação, aumento de agilidade nos negócios e otimização operacional. Mas qual tem sido, de fato, o impacto, ainda não visível, desses avanços na mente, no corpo e no mundo?  Infelizmente, essa é uma questão pouco debatida. 

Obviamente, trata-se de um tema complexo, cuja resposta nunca será linear ou binária. Assim, em uma mistura de seminário com workshop colaborativo, com cocriação de ideias, o Cynefin Retreat permitiu que os participantes explorassem, de forma aberta e não tendenciosa, diferentes visões acerca de como navegar esse terreno confuso que a sociedade está passando.  

Em todos os aspectos explorados, houve um entendimento recorrente de que líderes de empresas, comunidades e nações precisam estar intencionalmente vigilantes em torno de três perguntas cruciais sobre os impactos de IA. Vamos percorrer cada uma delas: 

Como preservar a capacidade de agência do ser humano? 

A agência humana, entendida como a capacidade do indivíduo de agir de forma autônoma, deliberada e responsável no mundo, está entre os pilares fundamentais da dignidade, liberdade e criatividade. Com o uso massivo de tecnologias baseadas em IA, especialmente aquelas que tomam decisões, personalizam experiências, otimizam processos e até influenciam escolhas humanas por meio de algoritmos preditivos, há uma crescente preocupação sobre o potencial esvaziamento, ou deslocamento, dessa agência. Em outras palavras, quanto mais delegamos decisões, interpretações e até mesmo julgamentos de valor à IA, mais corremos o risco de comprometer nossa capacidade de agir com discernimento crítico e autodeterminação. 

Um dos principais riscos identificados durante o evento, foi o da dependência cognitiva: um fenômeno em que os indivíduos deixam de desenvolver ou utilizar suas próprias capacidades de análise, julgamento e escolha porque confiam na IA como instância superior ou mais “racional” de decisão. Essa dependência se torna ainda mais problemática quando as decisões tomadas por sistemas algorítmicos não são transparentes ou compreensíveis para o usuário comum. 

Outro ponto é o risco de reconfiguração da responsabilidade moral e ética. Em contextos organizacionais, judiciais ou médicos, por exemplo, a delegação de decisões a sistemas de IA pode diluir e enfraquecer a responsabilidade humana. Se uma IA comete um erro grave – como um erro em um diagnóstico médico automatizado ou um julgamento enviesado em um processo seletivo -, de quem é a responsabilidade? A sua atribuição se torna nebulosa e isso ameaça princípios fundamentais de justiça. 

Diante desse panorama, os participantes do Retreat também construíram o entendimento comum de que os líderes têm um papel crucial na mitigação desses riscos e na preservação da agência humana nas organizações e mundo. Eles devem investir na alfabetização digital e crítica dos colaboradores, para que compreendam como funcionam os sistemas de IA, quais os seus limites e como podem ser utilizados de forma ética. Essa preparação vai além do uso técnico da tecnologia, pois envolve capacitação crítica para questionar, interpretar e avaliar algoritmos e seus resultados. 

Como cultivar a capacidade criativa do ser humano em tempos de intensas automatizações por IA?  

O avanço da Inteligência Artificial capaz de automatizar a criação de elementos visuais, literários e musicais, embora represente um marco significativo na evolução tecnológica, levanta importantes questionamentos sobre os impactos dessa automação na capacidade criativa humana, especialmente no longo prazo. 

Muitos participantes do evento, trouxeram a preocupação de que a substituição, ainda que parcial, do processo criativo por sistemas computacionais que simulam estilos, padrões e estruturas estéticas tem o potencial de provocar não apenas mudanças na forma como a criatividade é exercida, mas também na própria habilidade dos indivíduos em cultivá-la de maneira autêntica e crítica.  

Outro risco identificado foi o da padronização cultural. Modelos de IA treinados com base em grandes conjuntos de dados tendem a replicar padrões já existentes, reforçando estéticas predominantes e narrativas recorrentes. Ao priorizar a eficiência e a geração de conteúdo conforme os gostos majoritários, essas tecnologias podem desencorajar a ruptura com convenções ou a experimentação radical, que são justamente os motores da inovação criativa. Há também o risco de uma desvalorização simbólica da criação humana. À medida que produções artísticas geradas por IA tornam-se indistinguíveis (ou até mais apreciadas) que as humanas, corre-se o risco de a sociedade reduzir o valor simbólico, expressivo e existencial da arte feita por pessoas. A criação artística sempre foi, ao longo da história, um meio de elaboração dos sentimentos, de construção da identidade e de diálogo com assuntos complexos e inefáveis. Quando a arte se torna um produto de consumo gerado em segundos por um algoritmo, há uma ameaça à compreensão profunda do processo criativo como um ato de existência, resistência, reflexão e transcendência. 

Entretanto, foi também reconhecido que tais riscos não são inevitáveis. Eles são referentes ao uso que se faz da tecnologia. A IA, se compreendida como ferramenta e não substituto da criatividade humana, pode ampliar horizontes estéticos, democratizar o acesso à produção artística e colaborar com o processo criativo sem substituí-lo. A chave, portanto, está no uso consciente e ético da tecnologia. Isso implica reconhecer e priorizar a promoção de uma cultura em que a criatividade continue sendo um exercício de humanidade, mesmo diante de máquinas capazes de simular a arte. 

Continuaremos necessitando das estruturas e papéis que temos atualmente nas organizações?  

O terceiro e último tema emergiu naturalmente das duas questões anteriores. A reflexão chave que permeou as conversas foi: Com o avanço da IA nas empresas, iremos continuar necessitando das estruturas e papéis que temos atualmente nas organizações? Como as estruturas organizacionais atuais podem ajudar, ou prejudicar, os benefícios gerados pela adoção de IA?   

Claro que a questão sobre a permanência das estruturas e papéis organizacionais tradicionais diante do avanço da IA exige uma análise criteriosa e multidimensional, pois toca não apenas em aspectos operacionais e administrativos, mas também em fundamentos sociotécnicos que moldam a forma como as organizações se constituem, tomam decisões e geram valor. Em linhas gerais, os participantes reconheceram que a adoção massiva de IA nas empresas não apenas colocará em xeque a utilidade de muitos papéis e estruturas existentes, como também exigirá uma profunda reconfiguração da arquitetura organizacional.  

Um exemplo real dessa reflexão tem sido observado aqui na The Cynefin Co. Brazil, onde acompanhamos empresas cujas configurações convencionais de equipes nem sempre se mostram as mais adequadas para se beneficiarem das soluções de IA. Assim, algumas dessas empresas têm experimentado estruturas de trabalho em pares ou trios como mecanismos para melhor absorver o potencial da IA nos mais diversos fluxos de trabalho. Obviamente é precoce afirmar que a estrutura de times não será mais válida em uma realidade apoiada pela Inteligência Artificial, mas esse exemplo pode servir minimamente como um sinal fraco relevante para despertar conversas mais profundas sobre esse assunto nas organizações.  

Uma conclusão convidativa para pensar e agir 

O Cynefin Retreat UK foi singular pela pluralidade de perspectivas, rigor intelectual e atualidade das discussões e aprendizados sobre o tema Mente, Corpo e Mundo. Esse mesmo nível de profundidade também será levado à edição brasileira do Retreat, que acontecerá na cidade de Monte Verde, em Minas Gerais, em junho deste ano.   

De maneira geral, as discussões ricas do Cynefin Retreat ajudaram a consolidar a ideia de que a presença crescente da Inteligência Artificial não deve ser interpretada como ameaça existencial, tampouco como promessa de substituição total do humano, mas como convite à evolução de nossas instituições, competências e aspirações. O desafio está em encontrar um equilíbrio ético, organizacional e cultural no qual a IA amplifique e não substitua aquilo que temos de mais valioso: nossa capacidade de decidir, criar e transformar. Esse é o verdadeiro imperativo da liderança contemporânea. 

Compartilhar:

É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

Artigos relacionados

O que o gestor intermediário recebe, além da cobrança?

Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Headless: a empresa precisa funcionar fora da própria tela

Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 08H00
Enquanto algumas organizações reduzem contratações de profissionais em início de carreira graças aos ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial, outras fazem exatamente o oposto e ampliam seus programas de formação. O motivo é simples: toda vaga júnior eliminada hoje pode se transformar em uma escassez de profissionais experientes amanhã.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
28 de setembro de 2026 14H00
Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Indira Leite - Consultora em Educação Corporativa e Mestre em Psicologia Organizacional, Especialista em Engajamento de Equipes.

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
28 de setembro de 2026 08H00
Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

12 minutos min de leitura
Cultura organizacional
27 de setembro de 2026 14H00
O artigo mostra como o recuo estratégico do ego, a escuta hospitaleira e a responsabilidade pelo vínculo podem transformar relações em uma poderosa infraestrutura de alta performance.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

6 minutos min de leitura
Diversidade, ESG, Gestão de pessoas
27 de setembro de 2026 08H00
Inovação não garante inclusão por si só. Para que a inteligência artificial amplie oportunidades para pessoas com deficiência, será necessário combinar tecnologia, governança, acessibilidade e mediação humana qualificada.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de setembro de 2026 18H00
Mais do que uma questão tecnológica, o crescimento do Shadow AI evidencia a necessidade de fortalecer políticas internas, educação digital e governança para proteger um dos ativos mais valiosos das empresas: seus dados.

Adriano Pinhal - Superintendente de Inteligência Artificial da Mapfre

3 minutos min de leitura
Educação
26 de setembro de 2026 12H00
Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Vinicius Tondolo - Diretor executivo da Fundação Sagres

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de setembro de 2026 07H00
Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

Ana Luiza Oliveira e Ellen Couto - Integrantes do LabJornalismo, projeto da HSM Management em parceria com a Anhembi Morumbi

6 minutos min de leitura
ESG
25 de setembro de 2026 15H00
Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Luiz Martha - Diretor de Conhecimento e Impacto do IBGC- Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e Rodolfo Fücher - Líder do Grupo Curador do 27º Congresso IBGC.

3 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance, Finanças
25 de setembro de 2026 08H00
Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

Rodolfo Takahashi - CEO da Gooroo Crédito

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução