Cultura organizacional

Qual o impacto da lei anticorrupção na gestão de empresas

Novas regras devem dar mais autonomia à área de compliance e estimular práticas ESG
Felipe Ferenzini é sócio do escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe, onde colidera o grupo de compliance e investigações.

Compartilhar:

Em julho, o governo federal alterou a regulamentação da lei Anticorrupção, que responsabiliza empresas por atos contra a administração pública nacional ou estrangeira. O grande avanço com as novas diretrizes, aplicáveis às empresas que operam no Brasil e às estrangeiras que aqui possuem representação e atuação, é que elas visam a aprimorar pontos com base em lições aprendidas e incorporar práticas já adotadas pela Controladoria Geral da União (CGU) e pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ).

As novas regras são de grande importância para a liderança das companhias, já que um dos principais aprimoramentos foi o de dar mais relevância à alta direção das empresas na estruturação dos programas de compliance. Mas quais são os impactos efetivos?

### 1 – Alta direção deve assegurar recursos adequados ao compliance
Primeiramente, é notória a relevância da liderança em fomentar a cultura de uma empresa. Assim, é natural o peso dado à atuação da alta direção no apoio às medidas a serem implementadas pela área de compliance.

O novo decreto inova ao incluir, dentro do parâmetro de avaliação do programa relativo ao comprometimento da alta direção, o seguinte requisito: destinação de recursos adequados. Mas o que isso significa?

Podemos considerar, com base no manual atual da CGU, que o orçamento alocado para a área de compliance será um dos requisitos. Levando-se em conta os recentes “guidelines” do DOJ para avaliação desses programas, a alta direção também deve garantir ao departamento de compliance senioridade ao responsável, assim como recursos suficientes e sistemas de controle e autonomia.

Também caberá à alta direção da empresa apoiar as medidas de comunicação interna e externa que reforçam a cultura de compliance. Isso pode ser feito por meio de atividades como participação em eventos externos com palestrantes, divulgação de temas da área nas redes sociais, entre outros.

### 2 – Multa será maior em caso de conhecimento da alta direção
Não basta à alta direção apenas dar apoio na alocação de recursos e fundos para o compliance. Também cabe a ela dar apoio efetivo e contínuo às atividades do departamento, incorporando-o ao dia a dia da companhia e às decisões tomadas. Isso porque, de acordo com o novo decreto, o conhecimento e tolerância da alta direção sobre atos ilícitos terão impacto ainda maior no valor de eventuais multas.

### 3 – Alocação de recursos e esforços baseado em risco
Um ponto crucial para o programa de compliance é o da avaliação de riscos. Na nova regulamentação, passa a ser tratado como gestão de risco, reforçando seu caráter orgânico e de periodicidade contínua.

A estruturação do programa e a alocação dos recursos destinados pela alta direção devem ser baseados nos riscos mapeados. Assim, cabe ao responsável pelo compliance, com o respaldo da gestão da companhia, definir os controles e níveis de atividades com maior alocação para os tipos de riscos mais relevantes ou com maior chance de se materializar.

Por sua vez, o papel da alta direção deve ser o de monitorar e assegurar que o compliance esteja aplicando de maneira eficiente os recursos. Para tanto, é importante que haja uma relação próxima com a área.

### 4 – Maior cuidado antes de contratar terceiros
A avaliação prévia dos terceiros contratados pela empresa já era prevista na regulamentação anterior e era uma tendência em crescimento. Na nova regulamentação, há a determinação de que a avaliação deve ser baseada em risco, ou seja, ela dá à empresa flexibilidade para definir o nível de risco para determinadas transações e terceiros e determinar níveis de diligência variáveis. Portanto, como primeiro passo, a categorização de terceiros por nível de risco é recomendável para servir como base para a definição dos diferentes níveis de diligência.

Ainda em relação a terceiros, o novo decreto inova ao exigir a realização de diligências prévias ao relacionamento com pessoas expostas politicamente, patrocínios e doações. Trata-se de áreas que também expõem as empresas a riscos de corrupção.

### 5 – Mecanismos para tratamento de denúncias
O canal de denúncias, outro pilar essencial dos programas de compliance, tem sua importância reforçada, na medida em que a atualização exige que as empresas também possuam mecanismos para tratamento de denúncias recebidas. Isso significa que as áreas de compliance devem possuir equipe capacitada para conduzir investigações, além de criar políticas com regras para a condução dessas atividades (exemplos: alocar denúncias com base em risco e natureza das alegações, estabelecer as regras e comitês para apuração e tomada de decisões, bem como as possíveis medidas disciplinares e regras para monitoramento das remediações).

O devido cuidado com o tratamento das denúncias é de extrema importância, já que elas são as principais fontes de informações sobre os riscos aos quais a companhia está exposta. Esse procedimento também gera mais confiança nos colaboradores e terceiros quanto à eficácia e independência do programa de compliance.

### 6 – Aprimoramentos do novo decreto e a intersecção com ESG
Com o enfoque dado à avaliação de riscos e dedicação de recursos conforme essa análise, além da ampliação da diligência prévia à contratação e o monitoramento de terceiros, entendemos que a nova lei anticorrupção também potencializa a intersecção entre ESG (Ambiental, Social e Governança) com a área de compliance. A vocação da área para realizar os objetivos e exigências da regulamentação a credenciam como ator relevante para a expansão de tais atividades e assim incorporar temas relacionados a ESG, como monitoramento de terceiros não apenas com enfoque em riscos de corrupção, mas riscos mais amplos como de violações ambientais e sociais.

Por todos esses motivos, a nova regulamentação é muito bem-vinda. Além de o novo decreto prever diversos pontos de melhoria para os programas de compliance, também acaba por assegurar ferramentas que facilitam às empresas seguirem na jornada, sem volta, da aplicação dos princípios de ESG, especialmente com o apoio da alta direção em definir os objetivos corporativos e assegurar recursos para a sua implementação.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que sustenta uma indústria ao longo do tempo

Em um setor marcado por desafios constantes, este artigo revela por que a verdadeira vantagem competitiva está na capacidade de evoluir com consistência, fortalecer relações e entregar valor sustentável no longo prazo.

Conselhos homogêneos falham em silêncio

Em um mundo de incerteza crescente, manter conselhos homogêneos deixou de ser conforto – passou a ser risco. Este artigo deixa claro que atingir massa crítica de diversidade não é agenda social, é condição para decisões mais robustas e resultados superiores no longo prazo.

A maleabilidade mental como nova vantagem competitiva

Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de abril de 2026 15H00
A era da produtividade limitada pelo horário terminou. Enquanto ainda debatemos jornadas e turnos, a produtividade já opera 24x7. Este artigo questiona modelos mentais e estruturais que se tornaram obsoletos diante da ascensão dos agentes de inteligência artificial.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
27 de abril de 2026 07H00
Com a nova regulamentação prestes a entrar em vigor, saúde mental, riscos psicossociais e gestão contínua deixam de ser discurso e passam a integrar o centro das decisões corporativas.

Natalia Ubilla - Diretora de RH do iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de abril de 2026 15H00
Da automação total às baterias do futuro, ao longo do festival em Austin ficou claro que, no fim das contas, a inovação só faz sentido quando melhora a vida e o entendimento das pessoas

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Empreendedorismo
26 de abril de 2026 10H00
Este artigo propõe um novo olhar sobre inovação ao destacar o papel estratégico dos intraempreendedores - profissionais que constroem o futuro das empresas sem precisar abrir uma nova.

Tatiane Bertoni - Diretora da ACATE Mulheres e fundadora da DataforAll e SecopsforAll.

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
25 de abril de 2026 14H00
Quando tecnologia se torna abundante e narrativas perdem credibilidade, a autenticidade emerge como o novo diferencial competitivo - e este artigo explica por quê.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
25 de abril de 2026 08H00
Um aviso que muita empresa prefere ignorar: nem todo crescimento é vitória. Algumas organizações sobem a régua do faturamento enquanto desmoronam por dentro - consumindo pessoas, previsibilidade e coerência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional
24 de abril de 2026 15H00
Este artigo revela por que a cultura deixou de ser um elemento simbólico e passou a representar um dos custos - e ativos - mais invisíveis do lucro, mostrando como liderança, engajamento e visão sistêmica definem a competitividade e a perenidade das organizações.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

4 minutos min de leitura
Liderança
24 de abril de 2026 08H00
Este artigo traz dados de pesquisa, relatos de gestão e uma nova lente sobre liderança, argumentando que abandonar a obrigação da infalibilidade é condição para equipes aprenderem melhor, se engajarem mais e entregarem resultados sustentáveis.

Dante Mantovani - Coach, professor e consultor

5 minutos min de leitura
Liderança
23 de abril de 2026 16H00
A partir das trajetórias de Luiza Helena Trajano e Marcelo Battistella Bueno, este artigo revela por que grandes líderes não se formam sozinhos - e como a mentoria, sustentada por vínculo, presença e propósito, segue sendo um pilar invisível e decisivo da liderança em tempos de transformação acelerada.

Michele Hacke - Palestrante TEDx, Professora de Liderança Multigeracional e Consultora HSM

8 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
23 de abril de 2026 08H00
Medir bem não garante decidir certo: por que sistemas de gestão falham em ambientes complexos? Este artgo traz o contraste entre a perspectiva positivista do BSC e o construtivismo complexo de Stacey revela os limites de cada abordagem e o que cada uma deixa sem resposta

Daniella Borges - CEO da Butterfly Growth

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão