Estratégia e Execução

Seis pilares para desenvolver e gerir comunidades

Em um país com potencial empreendedor reconhecido internacionalmente, as PMEs e a economia brasileira têm muito a se beneficiar de um ecossistema de comunidades auto-sustentáveis
É líder de comunidade da Confraria do Empreendedor e head de comunidades do ConfraHub.

Compartilhar:

No início de novembro, estive em Lisboa liderando uma missão da Confraria do Empreendedor com 40 empresários e empresárias na maior conferência da Europa em tecnologia, o Web Summit. O evento reuniu mais de 42 mil pessoas de todo o mundo para discutir inovação, empreendedorismo, tecnologia e comunidades. Este último foi um dos assuntos que mais atraiu o público. Não à toa. No mundo BANI, a estratégia de gestão de comunidade tem ganhado muita força e atenção de grandes empresas, instituições e também dos maiores especialistas em inovação no mundo.

Estamos vivendo a era pós-digital, em que a internet, os smartphones e as redes sociais tornaram-se parte da rotina da civilização moderna, impulsionando o surgimento de comunidades digitais que cooperam e colaboram para que os seus integrantes sobrevivam, evoluam e prosperem.

A comunidade é uma tecnologia social que os seres humanos utilizam desde a era pré-histórica, como uma estratégia fundamental para que tribos sobrevivessem aos mais diversos perigos e adversidades. Segundo o historiador Yuval Harari, escritor do livro Sapiens, as tribos mais unidas, organizadas e que se comunicavam melhor se tornaram comunidades fortes e depois evoluíram para civilizações, depois para cidades, estados, países e nações.

A estratégia da gestão de comunidade voltou a ganhar muita força a partir da formação do ecossistema de startups do Vale do Silício, onde as conexões, colaboração e compartilhamento de informações valiosas para integrantes de comunidades, aceleraram o desenvolvimento de empresas e instituições locais.

Gestão de comunidade é um conceito ainda novo no Brasil, mas a criação de hubs de inovação, programas de aceleração e ecossistemas de empreendedorismo fez surgir uma necessidade latente de se fazer uma gestão de comunidade planejada, estruturada, profissional e efetiva.

## O que forma uma comunidade?

As comunidades possuem liderança, objetivos claros, afinidade de valores e uma visão de futuro. A palavra comunidade, inclusive, surge da junção das palavras COMUM + Identidade, ou seja, comunidade é você ter uma identidade em comum com um coletivo de pessoas.

A partir do momento em que um grupo de pessoas se identifica em seus objetivos, valores, marcas, empresas, gostos, vontades e atitudes, uma comunidade pode ser criada. Para que ela se consolide e gere valor aos envolvidos, compartilho a seguir alguns elementos fundamentais.

## Pilares para desenvolver e gerir comunidades

__1. Clareza da cultura organizacional__

Uma [cultura organizacional](https://www.revistahsm.com.br/podcasts/fomedecultura-o-que-caracteriza-essa-cultura) forte e comunicada de maneira consistente contribui diretamente para o sucesso e sustentabilidade da comunidade. Os principais elementos de uma cultura organizacional são: propósito, missão, visão, valores, princípios, comportamentos-chave e conhecimentos-chave. A partir do momento que esses elementos estão claros para os integrantes é uma evidência de que a comunidade está no caminho certo.

__2. Estruturação do modelo de negócio __

Compreender com clareza qual é a proposta de valor, quais são os canais de comunicação e personas que a comunidade integra, quem são os parceiros-chave, quais são os principais recursos e atividades que a comunidade necessita para operar, além de buscar gerar receita através da estratégia de gestão de comunidade, são elementos fundamentais para a sua estrutura.

__3. Desenvolvimento de rituais de cultura__

Quando a cultura organizacional e o modelo de negócio da comunidade estão estruturados, o desenvolvimento de rituais internos irá potencializar a operação da comunidade. Rituais de comunidade são um conjunto de ações planejadas e executadas com frequência e recorrência. Cito aqui alguns exemplos: o compartilhamento de podcasts sobre inovação toda sexta-feira dentro do grupo de WhatsApp da comunidade; a organização e realização de eventos digitais na última terça do mês com convidados escolhidos pela comunidade.

__4. Planejamento de comunicação interna e externa__

Uma comunidade só se desenvolve e cresce por meio de um planejamento de comunicação eficiente e efetivo para engajar os integrantes já existentes e atrair novos integrantes para dentro da comunidade. Quanto mais alinhada a comunicação estiver com a cultura da comunidade, mais alinhados com os seus valores estarão seus integrantes e novos interessados.

__5. Gestão de OKRs e KPIs__

Só podemos gerir o que podemos medir. É essencial que uma comunidade possua objetivos-chave e indicadores de performance que tragam evidências de que a comunidade está evoluindo e esteja na direção certa.

Exemplos de KPIs comuns para comunidades: NPS, CAC, LTV, churn, dados quantitativos, tais como a quantidade de integrantes, de novos integrantes por mês, de conteúdos compartilhados, eventos realizados, inscritos e participantes.

6. Desenvolvimento de líderes e gestores da comunidade

O desenvolvimento das habilidades sociais como a criatividade, relacionamento interpessoal, inteligência emocional, liderança, empreendedorismo, vendas é essencial para que os líderes e gestores da comunidade estejam sempre sendo exemplos inspiradores para os seus integrantes.

## Gestão de comunidades empreendedoras

O objetivo central da gestão de comunidade é criar um ambiente auto-sustentável, contribuindo diretamente para que o seu integrante prospere. Para isso, é fundamental ter clareza dos objetivos e dores de seus clientes internos e externos e construir ações estratégicas para trazer soluções e fortalecer o ecossistema. Empreendedores brasileiros são mundialmente reconhecidos pelas habilidades interpessoais, como liderança, comunicação, saber lidar com pessoas, criatividade e empatia. Esses talentos são essenciais para liderar e gerir comunidades.

Recentemente, o Brasil subiu cinco posições no ranking mundial de inovação e ocupa hoje a 57ª posição de 132 países avaliados, segundo a pesquisa do [Índice Global de Inovação](https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/09/20/brasil-sobe-cinco-posicoes-e-fica-no-57o-lugar-no-indice-global-de-inovacao.ghtml). Já no ranking mundial de empreendedorismo, o Global Entrepreneurship Monitor, o Brasil caiu da 4ª para a 7ª posição de 110 países avaliados. Esses indicadores nos mostram que o brasileiro possui muito potencial para empreender e, mesmo com fortes adversidades macroambientais, nossa habilidade de inovar e nossa criatividade nos ajudam a contornar esses obstáculos.

Tenho forte convicção que a implementação profissional e consistente da estratégia de gestão de [comunidades empreendedoras](https://www.revistahsm.com.br/post/comunidade-empreendedora-e-alavanca-para-transformacao-digital) dentro de grandes empresas, hubs de inovação, startups maduras e programas de inovação aberta irá catalisar o desenvolvimento sustentável da economia do nosso país e avançaremos significativamente nos rankings de empreendedorismo e inovação mundial.

*Gostou do artigo do Vitor Igdal sobre empreendedorismo? Conheça os demais conteúdos da comunidade [Gestão PME](https://www.revistahsm.com.br/comunidade/gestao-pme), produzidos em parceria com a Confraria do Empreendedor.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando o acesso vira a estratégia da indústria farmacêutica

Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Você deve pensar sua carreira como um sistema

Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de junho de 2026 08H00
Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Estratégia
27 de junho de 2026 15H00
Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

Nathália Brandão - Head de Educação Corporativa no TikTok LATAM, Escritora e Forbes Under 30

5 minutos min de leitura
Uncategorized
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão