Gestão de Pessoas

Trabalho presencial, Kissinger, Bayer e liderança em momentos de crise

Trabalho remoto ou não, com empresas adotando diferentes modelos de trabalho, desde a volta ao escritório até o encurtamento da semana de trabalho, a questão da liderança e adaptação a novos modelos de negócios se torna ainda mais crucial.
Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Compartilhar:

Já em 2010, um experimento realizado pela agência de viagens chinesa CTrip, demonstrou os benefícios do working from home (WFH). Cerca de 500 colaboradores do departamento de reservas de voos e hotéis se ofereceram para participar da experiência.

O [artigo](https://www.nber.org/system/files/working_papers/w18871/w18871.pdf) publicado por Nikolai Bloom e outros pesquisadores de Stanford (2013) elenca os benefícios hoje comumente associados ao WFH: aumento de produtividade, diminuição de turnover e absenteísmo e melhoria da qualidade de vida. No entanto, quando ao final do experimento, a CTrip ofereceu a oportunidade de trabalhar de casa permanentemente, menos de 50% dos participantes do teste optaram por continuar naquele modelo.

As razões alegadas foram: a solidão, falta de socialização com os colegas e a sensação de não ser considerado para as oportunidades de movimentação ou promoção e reavaliações salariais (quem não é visto não é lembrado).

O trabalho de Call Center talvez seja um dos mais facilmente adaptáveis ao WFH, mas o experimento da CTrip demonstra o quanto é complexa sua adoção de forma mais ampla.

Próximo ao final do período de isolamento provocado pela pandemia, várias empresas ousadamente declararam que iriam adotar o WFH para todos os seus colaboradores. Hoje, vivemos a tendência oposta, várias dessas mesmas empresas estão chamando seus empregados de volta para o escritório. Algumas oferecem benefícios adicionais, outras fazem ameaças àqueles que insistem em trabalhar de casa.

Entre os dois extremos, há empresas que definiram um número de dias para o revezamento escritório-residência, ou uma política de home office.

# Home office e outros modelos de trabalho

O WFH não é a única novidade entre os arranjos de trabalho. O mais recente é a discussão sobre a semana de quatro dias. Das empresas que participaram de um teste na Inglaterra no segundo semestre de 2022, 90% ainda mantinham o modelo um ano depois. Nos EUA, o Senador Bill Sanders apresentou recentemente uma proposta de lei reduzindo a jornada semanal de 40 para 32 horas. E entre as novidades estão os gig jobs, tempo parcial, temporários, boomerangs, job sharing, secondment, interim management, executives as a service e os nômades digitais.

Frederic Laloux, em Reinventando as Organizações (2017), mostrou que as empresas ajustam suas estruturas internas, modus operandi e cultura corporativa às demandas e expectativas das novas gerações que entram no mercado de trabalho. É um movimento lento, mas hoje já há empresas movidas por propósito como a Patagônia, nos EUA, e a Dengo Chocolates, no Brasil. E o conceito de Holocracia, empresas sem chefe, embora exista desde a década de 60 (vide a história da Gore), também vem amealhando mais adeptos.

Apesar de todos os ganhos dos arranjos mais flexíveis de trabalho e do clamor dos trabalhadores, muitas empresas estão chamando seus colaboradores de volta para o modelo 100% presencial.

Por quê?

## Trabalho presencial e a crise da liderança

Para mim, uma curva de Gauss explica esse fenômeno: 20% das pessoas em posição de liderança perceberam a oportunidade colocada pelo novo contexto do ambiente de negócios e estão se reinventando; 10% nem se deram conta do que estamos tratando; e, 70% não entenderam o novo contexto e não vão mudar. A pandemia passou, então nada mais natural do que voltar ao modelo antigo, na opinião deste último grupo.

Porém, a verdade é que o contexto mudou. Além do que já foi mencionado acima, estamos mais interessados em bem-estar e saúde, queremos mais equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, viveremos mais, somos mais autônomos, não temos mais tanta lealdade a empresas, o mundo oferece mais conforto e oportunidades, a tecnologia está embarcada em tudo aumentando em muito a nossa produtividade. Nem vou mencionar os movimentos geopolíticos…

A pressão para fazer sentido de tudo isso está sobre os middle managers. Mas o que era o trabalho dessa camada das organizações antes da pandemia acelerar simultaneamente vários vetores de transformação? Cascatear as decisões estratégicas do top management e distribuir e monitorar o trabalho de suas equipes. E muitas vezes até determinar o como. Com as novidades do mundo digital, esse papel precisa ser reinventado ou se revelará desnecessário. É por isso que já estamos vendo algumas empresas promovendo reestruturações e o aumento dos layoffs massivos.

E o mundo digital exige novas maneiras de se trabalhar, novas ferramentas, novos rituais, ritos, heróis, storytelling… Não é apenas transportar o que se fazia no mundo analógico para o ambiente do Zoom e dos apps. Não funciona assim. É reinventar-se para aproveitar as funcionalidades e as características das ferramentas digitais. Os últimos anos foram de testes, ainda não aprendemos a trabalhar nessa nova realidade. Há uns 20% de líderes que estão tentando, errando, aprendendo, testando novamente e encontrando novos caminhos.

O empilhamento de transformações simultâneas de tantas naturezas equivale a uma crise. Segundo Kissinger, personagem polêmico da guerra fria, em Liderança (2023), é nos períodos de crise que a coragem de líderes visionários guia suas nações em direção a novas realidades. Ainda segundo o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1973, a maioria dos líderes se limita a administrar o status quo (aqui você encontra a minha curva de Gauss).

Outro personagem icônico, Steve Jobs, nesta [entrevista](https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=xchYT9wz5hk), logo após retornar à Apple em 1997, dá um testemunho de como grandes líderes são movidos por suas convicções pessoais.

# Se é Bayer é bom
Após cinco anos de prejuízos e perda de 50% do valor na bolsa, a [Bayer](https://open.spotify.com/episode/6fnVwgS5691O1xLukzIVIw?si=EtvxMwZnTHSGTmxsN0jctw) contratou um novo CEO. Embora tenha batizado o movimento de Dynamic Shared Ownership, Bill Anderson está, de fato, implementando os conceitos de agilidade e pretende reduzir camadas hierárquicas e eliminar 40% dos middle managers empoderando times autônomos.
Momentos de crise, como as grandes transformações socioeconômicas que estamos vivendo exigem esse nível de ousadia e coragem.
Tenho certeza de que muitos executivos acompanharão o experimento da Bayer de perto. Eu serei um deles.

Compartilhar:

Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
15 de agosto de 2026 14H00
Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Marco Perlman - CEO da Aravita

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo